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A bandeira de 1777 no barco de Washington

Emanuel Leutze, Washington Cruzando o Delaware, 1851, Metropolitan Museum of Art, Nova York

Washington de pé num barco a remo entre placas de gelo no rio Delaware

Leutze, Washington Cruzando o Delaware, 1851

▼

Uma tela de linho de 3,78 metros de altura por 6,48 de largura, coberta de óleo em Düsseldorf, na Alemanha, em 1851. Ela prova como uma imagem inventada pode ficar mais forte do que o fato que ela finge registrar.

O autor é Emanuel Leutze, pintor nascido em 1816 na cidade alemã de Schwäbisch Gmünd e criado na Filadélfia, para onde a família emigrou quando ele tinha nove anos. Adulto, voltou à Alemanha para estudar na academia de Düsseldorf e ficou por lá quase duas décadas.

A cena que ele escolheu aconteceu 75 anos antes, do outro lado do oceano. Na noite de Natal de 1776, o general George Washington levou cerca de 2.400 soldados pelo rio Delaware, na fronteira entre a Pensilvânia e Nova Jersey, para atacar de surpresa a guarnição de Trenton.

A guerra contra a Inglaterra ia mal. O exército continental tinha perdido Nova York, recuava havia meses e via muitos alistamentos vencerem no último dia do ano. A travessia era uma aposta para manter a revolução de pé.

Leutze não viu o rio, a noite nem os homens. Pintou em um ateliê alemão, com turistas e colegas americanos posando de soldados, e com o gelo do Reno à vista da janela.

Quem confere a tela contra os documentos encontra erro na bandeira, na hora do dia, no tempo que fazia, no barco e na pose do general. O quadro é uma construção de ponta a ponta.

Mesmo assim, ele virou a imagem oficial do episódio. Passou por gravuras, livros escolares, selos e notas, e entrou na memória norte-americana no lugar da noite real.

O brasileiro conhece o mesmo mecanismo. Pedro Américo pintou Independência ou Morte em Florença, 66 anos depois do grito de 1822. Nos dois casos, o pintor entregou o que o país queria lembrar.

A primeira parte desta edição percorre a tela da esquerda para a direita e aponta cada erro onde ele aparece.

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I  O Que Você Vê

Um barco curto demais

A resposta de ontem

Por que a galeria do oceano de leite fechou de 2004 a 2012?

O telhado de pedra da galeria leste vazava, e a água da chuva escorria pela parede e lavava o arenito do relevo. O World Monuments Fund desmontou a cobertura bloco por bloco, refez a drenagem e remontou o teto com as pedras originais. A galeria reabriu em 2012 com o friso seco e inteiro.

No centro da tela de Emanuel Leutze está George Washington, comandante do exército continental, de pé no barco, com o corpo virado para a margem do lado esquerdo e o olhar fixo na frente. Usa capa escura sobre o uniforme e chapéu bicorne (de duas pontas, dobrado na frente e atrás).

Em volta dele, um barco de madeira estreito carrega mais de dez homens. Uns remam, outros empurram blocos de gelo com remos e varas, um segura o leme na popa. Atrás de Washington, outro homem ergue a bandeira, inclinada pelo vento.

O fundo mostra mais barcos, à direita, com soldados e cavalos. O céu clareia na faixa de baixo, perto do horizonte, e uma estrela brilha no alto, sobre as nuvens.

Os erros, um a um

O primeiro está no mastro. A bandeira tem listras vermelhas e brancas e um círculo de 13 estrelas brancas sobre fundo azul. O Congresso Continental só aprovou um desenho de estrelas e listras em 14 de junho de 1777, quase seis meses depois da travessia. Em dezembro de 1776, a bandeira em uso pelo exército era a Grand Union (União Grande), com listras e a cruz britânica no canto.

O segundo está no céu. A luz dourada sugere o amanhecer. A travessia começou depois do pôr do sol de 25 de dezembro e se arrastou pela madrugada, no escuro, sob neve e granizo que caíram a partir da noite.

O terceiro está na água. O gelo da tela vem em placas grossas e angulosas, como blocos de pedra. Leutze tinha o Reno como modelo de rio gelado.

O quarto é o barco. Os homens de Washington cruzaram em barcos Durham, cascos de carga feitos para levar minério de ferro pelo Delaware, com 12 a 18 metros de comprimento e bordas altas. O barco pintado é pequeno demais para aquela tripulação e, carregado assim, entraria água pela borda.

O quinto é a pose. Ninguém ficaria de pé na proa de um barco cheio, à noite, entre placas de gelo, sem ir parar no rio. Nos barcos Durham, os homens viajavam em pé, mas apoiados e sem a perna erguida na borda.

O que a tela acerta

Nem tudo é invenção. Entre os remadores aparecem roupas de pescador, um gorro escocês e um homem negro, figuras que lembram a mistura real do regimento de John Glover, formado por marinheiros e pescadores de Marblehead, em Massachusetts, que levou os barcos de um lado a outro naquela noite.

Leutze também pôs no barco um tenente segurando a bandeira, que a tradição identifica como James Monroe, futuro quinto presidente. Monroe estava na travessia, mas na guarda que cruzou antes e seguiu na frente, não ao lado do general.

 
 

II  A História Por Trás

Um ateliê em Düsseldorf

Washington Cruzando o Delaware é a segunda versão do quadro. Emanuel Leutze começou a primeira em 1849, em Düsseldorf, e trabalhava nela quando um incêndio atingiu o ateliê, em 1850. Ele recomeçou numa tela nova e a terminou no ano seguinte.

O pintor tinha um motivo político. Em 1848, revoluções liberais se espalharam pelos reinos alemães e foram derrotadas. Leutze apoiava os revoltosos e queria mostrar aos europeus uma revolução que tinha dado certo, a da América do Norte, com um general guiando o país rumo à luz.

Os modelos

Faltavam americanos em Düsseldorf, e Leutze usou os que passavam pela cidade. O pintor norte-americano Worthington Whittredge, então aluno na academia, contou em suas memórias que posou para Washington e também para o timoneiro. Vestiu o uniforme copiado de um original e ficou de pé, imóvel, por horas.

Outros turistas e estudantes viraram remadores. Para o rosto do general, Leutze seguiu o busto feito pelo escultor francês Jean-Antoine Houdon em 1785, a partir de um molde tirado do rosto do próprio Washington.

A noite real

O relato mais seguro da travessia vem do próprio general. Em carta a John Hancock, presidente do Congresso, escrita em 27 de dezembro de 1776, George Washington explicou o atraso: “o gelo que se formou naquela noite atrapalhou tanto a passagem dos barcos que eram três horas antes que toda a artilharia pudesse ser levada, e perto de quatro antes que as tropas começassem a marcha”.

O plano previa a margem de Nova Jersey à meia-noite. Com o gelo e a tempestade, a coluna só chegou a Trenton por volta das oito da manhã de 26 de dezembro, depois de quase 15 quilômetros a pé na neve.

O ataque durou cerca de uma hora. A guarnição era formada por soldados de Hesse (mercenários alemães contratados pela coroa britânica), e perto de 900 deles foram presos. Do lado americano, as baixas em combate foram poucas, e Monroe saiu ferido no ombro.

A estreia em Nova York

A tela atravessou o Atlântico e foi exposta em Nova York no outono de 1851. Segundo o Metropolitan Museum of Art, dezenas de milhares de pessoas pagaram para vê-la nas primeiras semanas.

O comerciante Marshall O. Roberts comprou o quadro por 10 mil dólares, valor altíssimo para uma pintura americana na época. Em 1887, o banqueiro John Stewart Kennedy o doou ao Metropolitan, onde ele segue exposto.

 

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III  Por Que Importa

A versão que venceu

A travessia real foi escura, molhada e lenta. A pintada é clara, seca e heroica. A segunda ganhou porque responde a uma pergunta que a primeira não responde: como uma nação quer se ver no dia em que quase perdeu.

A luz da manhã, inventada por Leutze, transforma uma marcha noturna de soldados cansados em amanhecer de país novo. A bandeira fora de época faz o mesmo: põe no barco o símbolo de um país que ainda não existia daquele jeito.

Por que a imagem cola

Uma cena histórica precisa caber num olhar. A noite verdadeira, com milhares de homens espalhados por horas em barcos de carga no escuro, não cabe. Um general de pé, recortado contra o céu claro, cabe.

Gravuras feitas a partir da tela circularam em massa na década de 1850, e a imagem foi parar em livros escolares, cartazes e moedas comemorativas. Cada cópia reforçava a versão de Leutze e afastava a de Washington, a da carta a Hancock.

O mesmo truque no Brasil

Pedro Américo fez a mesma escolha em Independência ou Morte, de 1888. D. Pedro viajava em uma besta baia (mula de pelo castanho), com roupa de viagem e a comitiva cansada. O quadro mostra cavalos e uniformes de dragão. O pintor defendeu a liberdade, dizendo que a pintura histórica devia dar ao fato a dignidade que a cena real não tinha.

Os dois quadros fazem o mesmo gesto. Corrigem o passado para que ele se pareça com a nação que veio depois, e o espectador aceita a correção porque ela é bonita e fácil de guardar.

O que a tela ainda ensina

Olhar a tela sabendo dos erros não estraga o quadro. Ajuda a separar dois tempos que costumam vir juntos: o fato de 1776 e a ideia de 1851. A primeira está nos documentos. A segunda está pendurada no Metropolitan, numa sala só para ela.

Diante da tela, a escolha fica com quem olha: ver nela a travessia de 1776, com os erros apontados um por um, ou o retrato da esperança de um alemão de 1851, que pintou a revolução que a Europa dele perdeu. As duas leituras estão na mesma tela.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde foi parar a primeira versão da tela, a que Leutze pintou em Düsseldorf antes da que hoje está em Nova York?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que data o Congresso Continental aprovou o desenho de estrelas e listras que aparece na bandeira pintada por Leutze?

ANa noite de Natal de 1776, mesma noite da travessia
BEm janeiro de 1777, logo depois da vitória em Trenton
CEm 1851, no ano em que Leutze terminou o quadro
DEm 14 de junho de 1777, quase seis meses depois da travessia

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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