A resposta de ontem Por que a galeria do oceano de leite fechou de 2004 a 2012? O telhado de pedra da galeria leste vazava, e a água da chuva escorria pela parede e lavava o arenito do relevo. O World Monuments Fund desmontou a cobertura bloco por bloco, refez a drenagem e remontou o teto com as pedras originais. A galeria reabriu em 2012 com o friso seco e inteiro. |
No centro da tela de Emanuel Leutze está George Washington, comandante do exército continental, de pé no barco, com o corpo virado para a margem do lado esquerdo e o olhar fixo na frente. Usa capa escura sobre o uniforme e chapéu bicorne (de duas pontas, dobrado na frente e atrás).
Em volta dele, um barco de madeira estreito carrega mais de dez homens. Uns remam, outros empurram blocos de gelo com remos e varas, um segura o leme na popa. Atrás de Washington, outro homem ergue a bandeira, inclinada pelo vento.
O fundo mostra mais barcos, à direita, com soldados e cavalos. O céu clareia na faixa de baixo, perto do horizonte, e uma estrela brilha no alto, sobre as nuvens.
Os erros, um a um
O primeiro está no mastro. A bandeira tem listras vermelhas e brancas e um círculo de 13 estrelas brancas sobre fundo azul. O Congresso Continental só aprovou um desenho de estrelas e listras em 14 de junho de 1777, quase seis meses depois da travessia. Em dezembro de 1776, a bandeira em uso pelo exército era a Grand Union (União Grande), com listras e a cruz britânica no canto.
O segundo está no céu. A luz dourada sugere o amanhecer. A travessia começou depois do pôr do sol de 25 de dezembro e se arrastou pela madrugada, no escuro, sob neve e granizo que caíram a partir da noite.
O terceiro está na água. O gelo da tela vem em placas grossas e angulosas, como blocos de pedra. Leutze tinha o Reno como modelo de rio gelado.
O quarto é o barco. Os homens de Washington cruzaram em barcos Durham, cascos de carga feitos para levar minério de ferro pelo Delaware, com 12 a 18 metros de comprimento e bordas altas. O barco pintado é pequeno demais para aquela tripulação e, carregado assim, entraria água pela borda.
O quinto é a pose. Ninguém ficaria de pé na proa de um barco cheio, à noite, entre placas de gelo, sem ir parar no rio. Nos barcos Durham, os homens viajavam em pé, mas apoiados e sem a perna erguida na borda.
O que a tela acerta
Nem tudo é invenção. Entre os remadores aparecem roupas de pescador, um gorro escocês e um homem negro, figuras que lembram a mistura real do regimento de John Glover, formado por marinheiros e pescadores de Marblehead, em Massachusetts, que levou os barcos de um lado a outro naquela noite.
Leutze também pôs no barco um tenente segurando a bandeira, que a tradição identifica como James Monroe, futuro quinto presidente. Monroe estava na travessia, mas na guarda que cruzou antes e seguiu na frente, não ao lado do general.
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Washington Cruzando o Delaware é a segunda versão do quadro. Emanuel Leutze começou a primeira em 1849, em Düsseldorf, e trabalhava nela quando um incêndio atingiu o ateliê, em 1850. Ele recomeçou numa tela nova e a terminou no ano seguinte.
O pintor tinha um motivo político. Em 1848, revoluções liberais se espalharam pelos reinos alemães e foram derrotadas. Leutze apoiava os revoltosos e queria mostrar aos europeus uma revolução que tinha dado certo, a da América do Norte, com um general guiando o país rumo à luz.
Os modelos
Faltavam americanos em Düsseldorf, e Leutze usou os que passavam pela cidade. O pintor norte-americano Worthington Whittredge, então aluno na academia, contou em suas memórias que posou para Washington e também para o timoneiro. Vestiu o uniforme copiado de um original e ficou de pé, imóvel, por horas.
Outros turistas e estudantes viraram remadores. Para o rosto do general, Leutze seguiu o busto feito pelo escultor francês Jean-Antoine Houdon em 1785, a partir de um molde tirado do rosto do próprio Washington.
A noite real
O relato mais seguro da travessia vem do próprio general. Em carta a John Hancock, presidente do Congresso, escrita em 27 de dezembro de 1776, George Washington explicou o atraso: “o gelo que se formou naquela noite atrapalhou tanto a passagem dos barcos que eram três horas antes que toda a artilharia pudesse ser levada, e perto de quatro antes que as tropas começassem a marcha”.
O plano previa a margem de Nova Jersey à meia-noite. Com o gelo e a tempestade, a coluna só chegou a Trenton por volta das oito da manhã de 26 de dezembro, depois de quase 15 quilômetros a pé na neve.
O ataque durou cerca de uma hora. A guarnição era formada por soldados de Hesse (mercenários alemães contratados pela coroa britânica), e perto de 900 deles foram presos. Do lado americano, as baixas em combate foram poucas, e Monroe saiu ferido no ombro.
A estreia em Nova York
A tela atravessou o Atlântico e foi exposta em Nova York no outono de 1851. Segundo o Metropolitan Museum of Art, dezenas de milhares de pessoas pagaram para vê-la nas primeiras semanas.
O comerciante Marshall O. Roberts comprou o quadro por 10 mil dólares, valor altíssimo para uma pintura americana na época. Em 1887, o banqueiro John Stewart Kennedy o doou ao Metropolitan, onde ele segue exposto.
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