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ED 149

A Primeira Missa no Brasil

Victor Meirelles · 1860 · Óleo sobre tela

A Primeira Missa no Brasil

A missa de 1500 montada em Paris

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Vinte e sete folhas de papel, escritas dos dois lados em letra apertada de escrivão, guardadas hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. É a carta que Pero Vaz de Caminha despachou a el-rei dom Manuel em 1º de maio de 1500, e ela contém a única descrição contemporânea da missa rezada na praia cinco dias antes. Nenhum desenho acompanha o texto. Nenhum retrato, nenhuma planta do lugar, nenhuma medida do altar.

Dessas folhas saiu a imagem que quase todo brasileiro tem na cabeça quando pensa no dia em que a esquadra portuguesa parou no litoral. Não saiu direto: passou por três séculos de silêncio, por um arquivo em Lisboa, por uma publicação de 1817 e por um ateliê em Paris.

Quem transformou o papel em tela tinha vinte e sete anos, era natural de Desterro, no litoral de Santa Catarina, e estudava na França com bolsa do governo imperial. Ele nunca havia pisado na Bahia. Não conhecia a vegetação daquela faixa de costa, não tinha visto o formato das embarcações de 1500, não sabia como eram os corpos e os adornos dos povos que assistiram à cerimônia.

O que ele tinha era a carta, um punhado de gravuras europeias sobre o Novo Mundo, os modelos que posavam nos ateliês parisienses e a orientação por escrito de um mentor que estava do outro lado do Atlântico. Com esse material montou um pedaço de floresta, cerca de cem figuras humanas e uma luz de fim de manhã que atravessa a folhagem.

A tela ficou pronta em 1860 e chegou ao Rio de Janeiro como a cena de fundação de um país que ainda inventava as próprias imagens. Hoje ela ocupa uma parede inteira do Museu Nacional de Belas Artes, e boa parte de quem passa na frente acredita estar vendo um registro do que aconteceu.

Vale olhar primeiro o que está pintado ali, figura por figura, antes de discutir de onde veio cada uma.

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I  O Que Você Vê

Cem figuras e uma cruz fora do centro

Óleo sobre tela, duzentos e sessenta e oito centímetros de altura por trezentos e cinquenta e seis de largura, segundo a ficha do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. É formato de parede de instituição, não de sala de casa: em pé, diante dela, um adulto médio bate na altura do peito das figuras pintadas em primeiro plano.

A cena se organiza em três faixas horizontais. Embaixo, a areia e as figuras sentadas ou deitadas. No meio, a massa de gente em pé em torno do altar. Em cima, a copa das árvores e um pedaço de céu claro que entra pela esquerda.

A cruz de madeira não está no centro geométrico do quadro. Ela sobe do lado esquerdo, inclinada de leve, com dois troncos amarrados, e é sustentada por homens que aparecem só parcialmente atrás dela.

O altar fica embaixo da cruz, coberto por um pano branco. O celebrante está de costas para quem olha, de braços abertos, com a casula clara recebendo a maior quantidade de luz da tela inteira. Ele é o ponto mais brilhante da composição e, ao mesmo tempo, a figura com menos rosto.

Em volta do altar se distribui a tripulação portuguesa. Cabeças descobertas, joelhos no chão, alguns de perfil, muitos com o rosto escondido pelo ombro do vizinho. Há armaduras leves, gibões, uma bandeira e instrumentos de sopro erguidos à direita.

Os indígenas ocupam a metade direita e a faixa de baixo. Alguns estão de pé, apoiados em arco. Outros sentados sobre a areia, com o tronco girado para o altar. Um deles, em primeiro plano à direita, está deitado de lado, apoiado no cotovelo, e olha a cerimônia da mesma distância física em que o espectador se encontra.

Os corpos indígenas foram pintados com anatomia de estúdio europeu. Os músculos seguem o desenho acadêmico de modelo vivo, as poses lembram figuras clássicas reclinadas, e a pele tem um tom uniforme de terracota, sem variação entre uma pessoa e outra.

A vegetação é densa e escura no terço superior. As folhas não correspondem a espécies identificáveis da mata atlântica: são folhagens genéricas de tom verde-oliva, pintadas em massa, e funcionam como cortina de teatro fechando o fundo.

A luz entra pela esquerda alta e bate no pano do altar, na casula e nos ombros ajoelhados da frente. Ela deixa em penumbra quase toda a metade direita, onde estão os indígenas, e separa os dois grupos por iluminação antes de qualquer outro recurso.

O único elemento que quebra a moldura interna é uma nesga de mar, no canto esquerdo, com um mastro de embarcação recortado contra o céu. É o lembrete de que aquelas pessoas chegaram de fora e podem ir embora.

Nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi.

Pero Vaz de Caminha, Carta a El-Rei Dom Manuel, 1500

 
 

II  A História Por Trás

Um ateliê em Paris e uma carta como roteiro

O pintor havia deixado o Brasil em 1853, aos vinte anos, com o prêmio de viagem da Academia Imperial das Belas Artes. Passou por Roma, copiou mestres italianos, e em 1857 se instalou em Paris, onde frequentou o ateliê de artistas ligados à pintura de história.

A ideia do tema veio por carta. Manuel de Araújo Porto-Alegre, diretor da Academia Imperial, escrevia ao bolsista sugerindo assuntos nacionais e recomendou a cena da missa como estreia de peso, com indicação de fonte: o texto de Caminha, publicado em 1817 dentro da Corografia Brasílica, do padre Manuel Aires do Casal.

A carta de 1500 havia ficado três séculos sem leitores. Ela dormiu no arquivo real português, foi copiada por eruditos no fim do século XVIII e só virou documento público impresso no início do XIX, quando o Brasil precisava de uma certidão de nascimento com data, lugar e testemunha.

O modelo de composição veio de outra pintura. Em 1854, Horace Vernet expôs em Paris uma primeira missa celebrada na Cabília, na Argélia recém-ocupada pela França, com altar improvisado ao ar livre e população local observando de lado. A estrutura da cena, o padre de costas e os espectadores nativos na periferia reaparecem quase intactos na tela brasileira.

Os corpos vieram de modelos parisienses. A pesquisa sobre a obra registra o uso de modelo vivo em ateliê para as figuras indígenas, com adornos de pena montados a partir de gravuras de viajantes e de peças de coleções europeias, sem contato com nenhum dos povos representados.

A paisagem foi montada da mesma forma. Não há estudo de campo, nenhum caderno de viagem à costa baiana, nenhuma anotação de cor feita diante do lugar. O que existe é vegetação de invenção, composta em Paris para funcionar como fundo escuro.

A tela foi exposta no Salão de Paris de 1861 e recebeu comentário favorável da crítica francesa, que via ali um pintor de história vindo de um império distante. No mesmo ano ela chegou ao Rio de Janeiro e foi mostrada na Exposição Geral de Belas Artes.

Dom Pedro II comprou a obra. O imperador tinha vinte e poucos anos de reinado, financiava a formação de artistas no exterior e trabalhava para que o país tivesse uma galeria de imagens fundadoras equivalente à das monarquias europeias.

O efeito na carreira foi imediato. Aos vinte e nove anos o autor virou professor da Academia Imperial e passou a receber encomendas oficiais, entre elas as telas de batalha da guerra do Paraguai.

E ali estiveram conosco à missa perto de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos assim como nós.

Pero Vaz de Caminha, Carta a El-Rei Dom Manuel, 1500

 

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III  Por Que Importa

Uma cena de 1500 pintada com olhos de 1860

Uma pintura de história não registra o passado. Ela registra o que uma época decidiu que o passado deveria parecer, e a distância entre a data pintada e a data de execução é o dado mais informativo que a tela oferece.

O intervalo aqui é de trezentos e sessenta anos. Entre a missa na praia e o pincel em Paris houve colonização, tráfico de pessoas escravizadas, independência e a montagem de um império que precisava se explicar para si mesmo e para as cortes europeias.

A escolha da cena diz o que aquele projeto queria contar. Não é o desembarque armado, não é a tomada de posse do território, não é o escambo de pau-brasil. É uma cerimônia religiosa, pacífica, com os dois grupos no mesmo espaço e nenhuma arma em uso.

O desenho da luz completa a mensagem. O grupo europeu está iluminado e ajoelhado, o grupo indígena está em penumbra e observando, e a composição atribui a cada lado uma posição fixa: quem celebra e quem assiste.

A pesquisa histórica mudou vários detalhes desde então. A cerimônia de 26 de abril de 1500 aconteceu na ilha da Coroa Vermelha, celebrada por frei Henrique de Coimbra, e o próprio Caminha menciona uma primeira missa anterior, no dia 26, além do encontro do dia 1º de maio, quando a cruz foi fincada.

A tela não corresponde a nenhuma dessas descrições em detalhe. O número de pessoas, a disposição do altar, a floresta densa ao fundo e a fisionomia dos participantes são construções de ateliê, e nenhuma delas pode ser conferida contra documento.

A tela não vira fraude por causa dessas invenções. Pintura de história do século XIX operava assim em toda parte, com o mesmo método de leitura de crônica, empréstimo de composição alheia e modelo vivo em estúdio, e o público entendia o gênero.

O problema aparece quando a imagem troca de função. Reproduzida em livro escolar ao lado de um texto informativo, a tela deixa de ser interpretação e passa a ser ilustração de fato, e o leitor de dez anos não tem como saber que a floresta foi inventada em Paris.

O caso ganhou uma resposta dentro da própria arte brasileira. Em 1948, Cândido Portinari pintou sua versão da mesma cena, e em 1971 Glauber Rocha reencenou o quadro em filme, movimentos que só fazem sentido porque a composição de 1860 já era, ela mesma, a memória oficial do episódio.

O quadro segue exposto no Rio, na parede para a qual foi comprado. Diante dele, um visitante tem duas leituras defensáveis à disposição. Tratar a tela como documento do século XIX, ler nela o que o Império queria que a fundação do país parecesse e usar a penumbra do lado direito como evidência dessa escolha. Ou tratar a tela como imagem de 1500, aceitar a cena como reconstituição de boa-fé feita a partir da única testemunha escrita disponível e olhar a carta de Caminha através dela. As duas leituras cabem na mesma sala, e cada uma devolve um quadro diferente.

 
 

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Segundo o texto, a estrutura de composição de 'A Primeira Missa no Brasil' foi baseada em qual quadro anterior?

AO Juramento dos Horácios, de Jacques-Louis David
BA Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix
CUma missa celebrada na Cabília, pintada por Horace Vernet em 1854
DA Balsa da Medusa, de Théodore Géricault

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