|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
Esta pauta venceu a urna de 02/10.
|
O imperador feito de frutas
Giuseppe Arcimboldo, Vertumnus, c. 1591, Castelo de Skokloster, Suécia
|
Vertumnus, Giuseppe Arcimboldo, c. 1591
|
| ▼ |
|
|
|
|
Uma pera madura, pintada a óleo sobre um painel de madeira de 70 por 57 centímetros. Ela ocupa o centro exato de um rosto, no lugar do nariz, e prova que um imperador aceitou ser retratado como uma cesta de feira.
Em volta da pera, nada é pele. As bochechas são maçãs vermelhas, o queixo é fruto, a testa é uma abóbora de gomos e casca rugosa. O cabelo é feito de cachos de uva, espigas de trigo e cerejas. O peito é uma pilha de legumes, e no ombro se abre um ramo de flores.
O homem por trás da colheita era Rodolfo II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, rei da Boêmia e da Hungria. Ele governava a partir de Praga, num castelo lotado de relógios, astrólogos, alquimistas e animais exóticos.
O pintor era Giuseppe Arcimboldo, nascido em Milão por volta de 1526. Ele tinha servido a três imperadores da mesma família, os Habsburgo, durante mais de vinte anos. Quando pintou a cabeça de frutas, já tinha voltado para a Itália e trabalhava de longe.
O quadro não é uma caricatura feita às escondidas. Foi uma encomenda, ou ao menos um presente aceito, e o imperador gostou. Pouco depois, Arcimboldo recebeu dele um título de nobreza.
A tela tem nome de deus. Chama-se Vertumnus, como a divindade romana das estações e das colheitas, aquela que mudava de forma conforme o ano andava. O imperador aparece fantasiado de deus, e o deus aparece fantasiado de horta.
Hoje o painel não está em Praga, nem em Viena, nem em Milão. Está pendurado num castelo de pedra branca à beira de um lago, ao norte de Estocolmo, na Suécia. Chegou lá como despojo de guerra, no último ano de um conflito que durou três décadas.
Antes de seguir a viagem do quadro, vale olhar de perto o que cada fruta faz naquele rosto, peça por peça, da testa ao peito.
Continue lendo ↓
|
|
I O Que Você Vê
Um rosto de colheita
|
|
Visto a três metros, o Vertumnus parece um retrato comum de meio corpo. Um homem de rosto largo olha para a esquerda de quem vê, com expressão tranquila e um leve sorriso. Só quando o olho chega mais perto o rosto se desmancha em frutas.
Arcimboldo trabalhou com essa distância dupla. De longe, o conjunto forma um homem. De perto, cada peça é um estudo preciso de botânica, com folha, casca e semente no lugar certo.
A colheita de um ano inteiro
A escolha das peças segue uma regra. Há frutas da primavera, do verão, do outono e até do inverno no mesmo rosto. Cerejas e morangos convivem com uvas, castanhas, abóboras e cebolas.
Nenhuma horta real produz tudo ao mesmo tempo. O quadro junta as quatro estações numa cabeça só, e esse é o argumento: o imperador seria o senhor de um tempo sem falta, em que a colheita nunca acaba.
A orelha é uma espiga de milho. O detalhe tinha peso no século 16. O milho tinha chegado da América poucas décadas antes, e na Europa ainda era planta de coleção, vista em jardins de príncipes e em livros de botânica.
Olhos, boca e barba
As pálpebras são vagens de ervilha, abertas o suficiente para mostrar os grãos. Os olhos ficam entre elas, escuros e vivos, e dão ao rosto a sensação de estar acordado.
A boca é formada por frutas pequenas e vermelhas. A barba e o queixo saem de castanhas e de frutos espinhosos. O bigode é feito de espigas finas, que caem dos dois lados como num retrato de corte.
No ombro à esquerda de quem vê, flores abertas fazem o papel da gola de renda. No peito, abóboras, cebolas e alhos-porós ocupam o lugar da armadura que o imperador usaria em outro retrato oficial.
A técnica por baixo da piada
O efeito só funciona porque a pintura é séria. Cada maçã tem o brilho de fruta recém-colhida, e cada folha tem as nervuras desenhadas uma a uma. Arcimboldo tinha passado anos copiando plantas e animais para as coleções dos Habsburgo.
O fundo é escuro e liso, sem paisagem. A luz vem da esquerda e modela as frutas como modelaria pele, com sombra nas cavidades e reflexo nas superfícies redondas. O rosto ganha volume.
Fica de pé uma dúvida que o pintor deixou de propósito: a pessoa diante do quadro está vendo um imperador ou uma natureza-morta? As duas leituras são corretas, e o olho troca de uma para a outra sem conseguir parar.
|
|
II A História Por Trás
De Milão a Praga, de Praga a Estocolmo
|
|
Giuseppe Arcimboldo começou desenhando vitrais para a catedral de Milão, ao lado do pai, também pintor. Em 1562 foi chamado à corte de Viena pelo imperador Fernando I e ficou a serviço da família por mais de 25 anos.
Serviu depois a Maximiliano II e, por fim, a Rodolfo II, que levou a corte para Praga. Além de retratos, Arcimboldo desenhava figurinos para festas, desfiles e torneios, e ajudava a comprar peças para a coleção imperial.
O gabinete de maravilhas
Rodolfo II reuniu em Praga uma das maiores coleções da Europa. A Kunstkammer, ou gabinete de maravilhas, guardava quadros, relógios, pedras, conchas, chifres, instrumentos científicos e animais empalhados.
O imperador recebia na corte o astrônomo Johannes Kepler e o dinamarquês Tycho Brahe. Gostava de tudo que fosse raro, híbrido ou difícil de classificar. Um retrato feito de frutas cabia nesse gosto.
Arcimboldo já tinha pintado, em Viena, as séries das Quatro Estações e dos Quatro Elementos, cabeças compostas de flores, peixes, animais e chamas. O Vertumnus fecha essa linha de trabalho e a leva para o próprio rosto do soberano.
O poema que acompanhou o quadro
Em 1587, Arcimboldo pediu licença e voltou para Milão. Foi de lá que pintou o Vertumnus, por volta de 1591, e mandou o painel para Praga. O imperador respondeu em 1592 com o título de conde palatino.
O escritor Gregorio Comanini descreveu o quadro no diálogo Il Figino, publicado em Mântua em 1591. O texto traz um poema em que o próprio Vertumnus fala ao leitor e explica que, embora pareça monstruoso, carrega dentro dele um rei.
"Mudo de forma conforme a estação, e em cada uma sou o mesmo." (síntese do mito em Ovídio, Metamorfoses, livro XIV, c. 8 d.C.)
O saque de 1648
Rodolfo II saiu de cena em 1612. A coleção ficou em Praga, cada vez mais desfalcada, até a Guerra dos Trinta Anos chegar à cidade. Em julho de 1648, tropas suecas tomaram o bairro do castelo.
Os soldados embalaram quadros, estátuas, livros e instrumentos e mandaram tudo para Estocolmo, a pedido da rainha Cristina. A paz de Vestfália foi assinada meses depois, em outubro, com o saque já feito.
O Vertumnus terminou nas mãos do conde Per Brahe, o Jovem, e só entre 1828 e 1845 foi levado para o Castelo de Skokloster, à beira do lago Mälaren. O painel continua lá até hoje.
|
|