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Vasos retrato moche: o rosto de Lábio Cortado

Vaso retrato moche, cerâmica moldada e pintada, costa norte do Peru, anos 100 a 700, Metropolitan Museum of Art

Garrafa de cerâmica moche em forma de cabeça humana, com alça-estribo no alto, Metropolitan Museum of Art

Vaso retrato moche, Peru, anos 100 a 700

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Uma garrafa de barro cozido com cerca de 30 centímetros de altura, oca, com o rosto de um homem moldado no corpo e uma cicatriz que racha o lábio superior. Ela prova que um povo sem escrita guardou a cara de uma pessoa real por anos a fio.

A peça é um vaso retrato, feito pelos moche, o povo que ocupou os vales da costa norte do Peru entre os anos 100 e 700. Os peruanos chamam essas peças de huacos retrato (huaco, do quíchua, objeto sagrado ou de sepultura).

O rosto não segue um molde de beleza. O oleiro registrou a pálpebra que cai, a bochecha funda, a verruga ao lado do nariz e o nariz torto de quem levou uma pancada. Cada cabeça tem idade, humor e marcas próprias.

Os moche não deixaram livros. Deixaram pirâmides de adobe (o tijolo de barro cru seco ao sol), canais de irrigação que levavam a água dos Andes ao deserto, ourivesaria e uma produção de cerâmica sem par nas Américas antigas.

Dentro dessa produção, os retratos são raros e estranhos. Os arqueólogos conhecem cerca de 900 deles, segundo o levantamento de Christopher Donnan, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, publicado em 2004.

Donnan comparou os rostos um a um, com fotos tiradas do mesmo ângulo. Achou o mesmo homem em vasos diferentes, às vezes jovem, às vezes maduro, com as mesmas cicatrizes no mesmo lugar.

O caso mais conhecido é o do homem que ele apelidou de Lábio Cortado, pela fenda acima da boca. O rosto dele aparece em mais de 40 vasos, do rapaz de bochecha cheia ao adulto de testa marcada.

O nome real dele se perdeu, como a língua que os moche falavam no dia a dia. Sobrou a cara, repetida em barro, e a pergunta de por que um povo inteiro gastou tanto trabalho com um homem só.

A resposta passa primeiro pela forma da garrafa e pelo jeito como o oleiro a fazia, antes de chegar ao destino de Lábio Cortado.

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I  O Que Você Vê

Um rosto no corpo da garrafa

A resposta de ontem

Quem comandou os homens na casa de al-Mughira em 976?

Muhammad ibn Abi Amir, então administrador dos bens do pequeno Hisham II, cercou a casa com seus soldados a mando do vizir al-Mushafi. Anos depois, com o título de al-Mansur (o vitorioso), ele governou al-Andalus de fato até 1002, com o califa reduzido a figura de palácio.

A peça do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, é uma cabeça humana em tamanho um pouco menor que o natural. O corpo da garrafa é a própria cabeça: o barro forma testa, olhos, nariz e boca, e o oco por dentro guardava líquido.

No alto sai a alça-estribo (o gargalo em forma de estribo de cavalo), um arco de barro que se abre em dois braços e se junta num bico só. É a marca da cerâmica moche e aparece em quase toda garrafa de luxo desse povo.

O que o barro mostra

O rosto foi feito para ser olhado de frente. Os olhos são amendoados, a boca fica fechada, e as maçãs do rosto saltam com sombra embaixo, como num homem vivo.

O oleiro cobriu a peça com engobe (uma camada de barro líquido que dá cor antes da queima). As tintas ficam entre o creme e o vermelho de terra, os dois tons de quase toda a cerâmica moche.

Na cabeça vai um toucado, a faixa ou turbante que cobre o cabelo. Nos vasos retrato, o desenho do toucado muda de peça para peça e parece indicar posto, família ou função.

Como se faziam

Os moche usavam moldes de duas metades, frente e costas. O oleiro apertava o barro dentro de cada metade, juntava as duas e alisava a emenda.

O molde permitia tirar várias cópias do mesmo rosto. Depois, cada cópia recebia retoque à mão: uma ruga mais funda, um brinco, uma pintura no rosto. Por isso dois vasos da mesma forma podem sair com expressões levemente diferentes.

A queima era feita em fogo aberto ou em fornos simples. O resultado era uma cerâmica fina e leve, de parede regular, que chegou inteira até hoje em boa parte das tumbas.

As marcas da vida

Nos vasos retrato aparecem lábios rachados, olhos vazados, cicatrizes na bochecha e nariz desviado. Há também rostos com pintura facial em faixas e pontos, desenho que muda de um homem para outro.

Nenhum desses traços embeleza o retratado. O oleiro tratou a cicatriz como dado de identidade, do jeito que um documento de hoje registra sinais particulares.

Vale lembrar que a imagem do email mostra uma garrafa retrato do Met, não necessariamente um vaso de Lábio Cortado. A forma e a técnica são as mesmas da série que Donnan estudou.

 
 

II  A História Por Trás

Quem era Lábio Cortado

Christopher Donnan, arqueólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, passou décadas fotografando vasos moche em museus do Peru, da Europa e dos Estados Unidos. O resultado saiu no livro Moche Portraits from Ancient Peru (Retratos moche do Peru antigo), de 2004.

Ele identificou dezenas de indivíduos retratados mais de uma vez. Lábio Cortado é o que tem a série mais longa, e por ela dá para acompanhar a vida de um homem pelo barro.

Do rapaz ao guerreiro

Nos vasos mais antigos da série, Lábio Cortado é jovem, de rosto liso e lábio já partido. A cicatriz sobe da boca em direção ao nariz e mostra que ele a ganhou cedo, talvez num combate ou num acidente.

Em outras peças ele aparece adulto, de toucado elaborado e brincos de orelha largos, os ornamentos de quem tinha posição. A leitura de Donnan é de um homem de elite, guerreiro de prestígio na sociedade moche.

Os moche tinham combates rituais entre guerreiros da própria elite. A pintura dos vasos mostra lutas corpo a corpo com porretes, em que o vencido perdia as roupas e era levado amarrado pelo pescoço.

O último retrato

A série de Lábio Cortado termina de outro jeito. Nas últimas peças ele aparece nu, sentado, com uma corda no pescoço e as mãos atadas, na pose dos prisioneiros de guerra que a arte moche desenha em várias cenas.

Os prisioneiros moche iam para o sacrifício. Nas cenas pintadas, sacerdotes cortam a garganta do cativo e oferecem o sangue numa taça a uma figura de alto posto.

Os arqueólogos confirmaram os rituais no chão. Em Huaca de la Luna, perto de Trujillo, a equipe do arqueólogo canadense Steve Bourget escavou nos anos 1990 os restos de dezenas de homens jovens sacrificados numa praça do templo.

Ninguém sabe se Lábio Cortado foi sacrificado. Nenhum vaso mostra o fim dele, e não há tumba com o nome ou o rosto dele que diga como acabou. O que existe é a série de vasos, que para no prisioneiro amarrado.

Por que tantos retratos

Donnan defende que os vasos eram feitos enquanto o retratado vivia, para circular entre a elite ou para acompanhar mortos de alto posto. Muitos foram achados em tumbas, ao lado de outros objetos de valor.

A outra hipótese, de vários estudiosos, é que os retratos guardavam a memória de guerreiros capturados, e por isso a série termina no cativeiro. Os dois lados aceitam que o homem existiu e que o rosto é dele.

 

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III  Por Que Importa

O retrato antes da escrita

A maioria das artes antigas das Américas mostra deuses, animais e figuras de cerimônia. Os moche foram dos poucos a fazer retrato no sentido de hoje: um rosto que se reconhece como de uma pessoa só.

Esse traço põe os vasos moche ao lado dos bustos romanos e dos retratos de múmia do Egito romano, feitos na mesma época, sem contato nenhum entre esses povos.

O fim dos moche

A cultura moche entrou em crise por volta do ano 600. Um artigo de 1991 de Izumi Shimada e Lonnie Thompson, com dados de núcleos de gelo da geleira de Quelccaya, aponta secas longas e chuvas violentas nos Andes nesse período.

As cidades dos vales do sul foram abandonadas, e a produção dos vasos retrato parou antes do ano 800. Os herdeiros culturais do território vieram depois, entre eles os chimu, que ergueram a cidade de Chan Chan.

Onde estão hoje

Muitos vasos saíram das tumbas por saque, cavados por huaqueros (os ladrões de sítios arqueológicos) ao longo dos séculos 19 e 20. Por isso boa parte deles chegou aos museus sem registro de onde estava enterrada.

O Museu Larco, em Lima, guarda uma das maiores coleções de cerâmica moche do mundo. O Metropolitan Museum of Art, em Nova York, põe as próprias peças em acesso aberto, com fotos livres para qualquer pessoa.

O que se ganha olhando de perto

Um vaso retrato pede o mesmo olhar que se dá a uma foto de documento: buscar a marca que separa uma pessoa das outras. A cicatriz, a pálpebra, o nariz torto fazem esse trabalho.

O oleiro moche fazia retrato sem nome escrito. A identidade ficava toda no rosto, e quem via o vaso sabia de quem se tratava pela marca no lábio.

Diante da garrafa do Met, fica a escolha entre duas leituras. Uma homenagem a um guerreiro de prestígio, feita para durar com ele na tumba, ou o registro de um prisioneiro, guardado no barro antes do sacrifício? As duas usam a mesma cicatriz como prova.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em quantos vasos diferentes aparece o rosto do guerreiro apelidado Lábio Cortado?

ACerca de 900 vasos
BMais de 40 vasos
CCerca de 100 vasos
DMenos de 10 vasos

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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