|
Christopher Donnan, arqueólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, passou décadas fotografando vasos moche em museus do Peru, da Europa e dos Estados Unidos. O resultado saiu no livro Moche Portraits from Ancient Peru (Retratos moche do Peru antigo), de 2004.
Ele identificou dezenas de indivíduos retratados mais de uma vez. Lábio Cortado é o que tem a série mais longa, e por ela dá para acompanhar a vida de um homem pelo barro.
Do rapaz ao guerreiro
Nos vasos mais antigos da série, Lábio Cortado é jovem, de rosto liso e lábio já partido. A cicatriz sobe da boca em direção ao nariz e mostra que ele a ganhou cedo, talvez num combate ou num acidente.
Em outras peças ele aparece adulto, de toucado elaborado e brincos de orelha largos, os ornamentos de quem tinha posição. A leitura de Donnan é de um homem de elite, guerreiro de prestígio na sociedade moche.
Os moche tinham combates rituais entre guerreiros da própria elite. A pintura dos vasos mostra lutas corpo a corpo com porretes, em que o vencido perdia as roupas e era levado amarrado pelo pescoço.
O último retrato
A série de Lábio Cortado termina de outro jeito. Nas últimas peças ele aparece nu, sentado, com uma corda no pescoço e as mãos atadas, na pose dos prisioneiros de guerra que a arte moche desenha em várias cenas.
Os prisioneiros moche iam para o sacrifício. Nas cenas pintadas, sacerdotes cortam a garganta do cativo e oferecem o sangue numa taça a uma figura de alto posto.
Os arqueólogos confirmaram os rituais no chão. Em Huaca de la Luna, perto de Trujillo, a equipe do arqueólogo canadense Steve Bourget escavou nos anos 1990 os restos de dezenas de homens jovens sacrificados numa praça do templo.
Ninguém sabe se Lábio Cortado foi sacrificado. Nenhum vaso mostra o fim dele, e não há tumba com o nome ou o rosto dele que diga como acabou. O que existe é a série de vasos, que para no prisioneiro amarrado.
Por que tantos retratos
Donnan defende que os vasos eram feitos enquanto o retratado vivia, para circular entre a elite ou para acompanhar mortos de alto posto. Muitos foram achados em tumbas, ao lado de outros objetos de valor.
A outra hipótese, de vários estudiosos, é que os retratos guardavam a memória de guerreiros capturados, e por isso a série termina no cativeiro. Os dois lados aceitam que o homem existiu e que o rosto é dele.
|