A resposta de ontem Onde foi parar a primeira versão da tela de Leutze? A primeira versão foi atingida por um incêndio no ateliê de Leutze, em Düsseldorf, em 1850. Restaurada, foi comprada pela Kunsthalle Bremen, museu da cidade alemã de Bremen, e ficou lá até 1942, quando um bombardeio britânico da Segunda Guerra destruiu a tela. Sobraram só fotografias. |
O Vaso Portland, peça de vidro camafeu romano guardada no Museu Britânico, tem 24,5 centímetros de altura e 17,7 de diâmetro na parte mais larga, segundo a ficha do próprio museu. O corpo é de vidro azul-cobalto, tão escuro que parece preto sob a luz fraca da sala.
Por cima do azul corre uma camada de vidro branco opaco. O artesão a desbastou até deixar só as figuras, como num camafeu (relevo esculpido numa pedra de duas cores, em que a camada de cima vira desenho e a de baixo vira fundo).
Onde a camada branca ficou grossa, as figuras parecem sólidas. Onde ela foi raspada quase até o fim, o azul aparece por baixo e dá sombra ao corpo, à dobra do pano, ao tronco da árvore. O efeito lembra uma grisalha (pintura feita só em tons de cinza), mas saiu de lima, roda de esmeril e muita paciência.
Sete figuras em volta do vaso
O relevo dá a volta inteira no vaso e se divide em duas cenas, uma de cada lado, separadas pelas alças. Somadas, são sete figuras humanas, além de um Eros (o deus do amor, menino e alado) voando com um arco na mão.
Numa das cenas, um homem jovem sai de um portal e avança para uma mulher sentada, que segura um animal marinho de corpo de serpente. Na outra, uma mulher deitada sobre rochas segura uma tocha virada para baixo, entre um homem e outra mulher sentados.
Árvores de copa baixa, pedras e colunas completam o cenário. Nas duas alças, também de vidro azul, aparecem rostos barbudos em relevo, presos onde a alça encontra o ombro do vaso.
Uma cena sem legenda
Nenhuma das figuras traz nome escrito, e estudiosos discutem há mais de quatro séculos quem são. A leitura mais repetida liga a primeira cena ao casamento de Peleu, herói grego, com Tétis, ninfa do mar; o animal marinho seria o sinal da noiva vinda da água.
Outras leituras veem ali o imperador Augusto e a família dele, ou cenas de luto. O próprio Museu Britânico, na descrição da peça, deixa a identificação em aberto. Sem legenda, o vaso guarda o tema e mostra só o ofício.
O vaso chegou ao século 19 com um disco de vidro camafeu colado no fundo, com um jovem de barrete frígio (gorro de ponta dobrada para a frente), associado ao príncipe troiano Páris. O disco é antigo, mas veio de outra peça. Depois de 1845, os conservadores o separaram, e hoje ele fica exposto à parte.
A ponta inferior do vaso também foi cortada ainda na Antiguidade. A forma original provavelmente terminava em bico, como uma ânfora (jarro de duas alças usado para vinho e azeite), e alguém aparou e aplainou o fundo, talvez depois de uma quebra antiga.
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O primeiro registro seguro do vaso aparece em Roma, em 1601. O estudioso francês Nicolas-Claude Fabri de Peiresc o viu na coleção do cardeal Francesco Maria del Monte, o mesmo protetor do pintor Caravaggio.
Uma história contada desde o século 17 diz que o vaso saiu de um túmulo no Monte del Grano, nos arredores de Roma, dentro de um sarcófago de mármore. Não há documento da escavação, e a origem real segue sem prova.
Com a morte do cardeal, em 1626, a peça passou à família Barberini, a do papa Urbano VIII. Ficou mais de 150 anos no palácio dela e ganhou o nome de Vaso Barberini.
De mão em mão
No fim do século 18, a princesa Cornelia Barberini-Colonna precisou de dinheiro para pagar dívidas de jogo e vendeu o vaso ao escocês James Byres, comerciante de antiguidades em Roma. Byres o revendeu ao diplomata inglês Sir William Hamilton, embaixador em Nápoles.
Hamilton levou a peça para Londres e, em 1784, a vendeu a Margaret Cavendish Bentinck, duquesa de Portland, colecionadora de conchas, fósseis e raridades. Ela morreu no ano seguinte, e o filho, o terceiro duque de Portland, arrematou o vaso no leilão do espólio da mãe. Daí o nome atual.
A cópia de Wedgwood
O duque emprestou o vaso a Josiah Wedgwood, o ceramista inglês. Wedgwood passou quatro anos tentando reproduzi-lo em jaspe (cerâmica fosca, sem verniz, tingida na própria massa), com figuras brancas sobre fundo escuro.
A primeira cópia aprovada saiu em 1790. Wedgwood exibiu as reproduções em Londres e vendeu exemplares a colecionadores pela Europa. Durante décadas, muita gente conheceu o Vaso Portland só pela versão em cerâmica.
A noite da escultura
Em 1810, o quarto duque de Portland emprestou o original ao Museu Britânico. Foi lá, numa vitrine da sala de antiguidades, que William Lloyd o encontrou trinta e cinco anos depois. O nome verdadeiro dele, segundo jornais da época, era William Mulcahy, estudante vindo de Dublin.
A escultura usada por Lloyd era uma peça de basalto, exposta perto da vitrine. Depois do golpe, ele ficou parado na sala e não tentou fugir. No interrogatório, disse apenas ter passado a semana inteira bebendo.
O processo terminou na multa pela vitrine. O quarto duque decidiu não processar Lloyd na esfera civil, e o caso se encerrou ali, com o rapaz solto e o vaso numa caixa de cacos.
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