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Vaso Portland: a multa de 3 libras pela vitrine

Oficina romana, Vaso Portland, c. 1 a 25 d.C., Museu Britânico, Londres

Vaso Portland: vidro azul-escuro com figuras brancas em relevo

Vaso Portland, vidro camafeu romano

▼

Um vaso de vidro azul-escuro, com 24 centímetros de altura e duas alças, coberto por figuras brancas mais finas do que uma unha. Ele prova como a lei inglesa de 1845 sabia proteger o vidro comum de uma vitrine e não sabia proteger o vidro raro guardado nela.

O vaso fica no Museu Britânico, em Londres, na sala de arte romana. Leva o nome de Vaso Portland por causa da família de duques ingleses dona dele por mais de 150 anos, e saiu de uma oficina de Roma nas primeiras décadas depois de Cristo.

Em 1845, no dia 7 de fevereiro, um rapaz entrou na sala onde o vaso ficava exposto. Tinha passado a semana bebendo, segundo contou depois à polícia. Pegou uma escultura pesada de pedra, exposta perto da vitrine, e a atirou contra o vidro.

A vitrine se partiu, e o vaso dentro dela também. Os guardas recolheram do chão perto de duzentos fragmentos azuis e brancos, alguns do tamanho de um grão de arroz.

O rapaz deu o nome de William Lloyd. No tribunal, o magistrado procurou a lei aplicável e encontrou um limite: a regra contra dano a bens só valia para objetos de até cinco libras. O vaso valia muitas vezes mais. Pela letra da lei, ele estava fora do alcance do juiz.

A vitrine, não. O vidro da caixa custava três libras, e por ele o magistrado aplicou a multa, com a alternativa de dois meses de trabalhos forçados. Lloyd não tinha o dinheiro e foi para a cadeia.

Poucos dias depois, alguém pagou as três libras e ele saiu. O nome de quem pagou não ficou nos registros do caso, e até hoje ninguém sabe ao certo quem foi.

Antes de chegar ao chão daquela sala, o vaso tinha atravessado dezesseis séculos inteiro. A primeira parte desta edição olha para ele de perto, camada por camada, para mostrar o tamanho do estrago.

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I  O Que Você Vê

Duas camadas de vidro

A resposta de ontem

Onde foi parar a primeira versão da tela de Leutze?

A primeira versão foi atingida por um incêndio no ateliê de Leutze, em Düsseldorf, em 1850. Restaurada, foi comprada pela Kunsthalle Bremen, museu da cidade alemã de Bremen, e ficou lá até 1942, quando um bombardeio britânico da Segunda Guerra destruiu a tela. Sobraram só fotografias.

O Vaso Portland, peça de vidro camafeu romano guardada no Museu Britânico, tem 24,5 centímetros de altura e 17,7 de diâmetro na parte mais larga, segundo a ficha do próprio museu. O corpo é de vidro azul-cobalto, tão escuro que parece preto sob a luz fraca da sala.

Por cima do azul corre uma camada de vidro branco opaco. O artesão a desbastou até deixar só as figuras, como num camafeu (relevo esculpido numa pedra de duas cores, em que a camada de cima vira desenho e a de baixo vira fundo).

Onde a camada branca ficou grossa, as figuras parecem sólidas. Onde ela foi raspada quase até o fim, o azul aparece por baixo e dá sombra ao corpo, à dobra do pano, ao tronco da árvore. O efeito lembra uma grisalha (pintura feita só em tons de cinza), mas saiu de lima, roda de esmeril e muita paciência.

Sete figuras em volta do vaso

O relevo dá a volta inteira no vaso e se divide em duas cenas, uma de cada lado, separadas pelas alças. Somadas, são sete figuras humanas, além de um Eros (o deus do amor, menino e alado) voando com um arco na mão.

Numa das cenas, um homem jovem sai de um portal e avança para uma mulher sentada, que segura um animal marinho de corpo de serpente. Na outra, uma mulher deitada sobre rochas segura uma tocha virada para baixo, entre um homem e outra mulher sentados.

Árvores de copa baixa, pedras e colunas completam o cenário. Nas duas alças, também de vidro azul, aparecem rostos barbudos em relevo, presos onde a alça encontra o ombro do vaso.

Uma cena sem legenda

Nenhuma das figuras traz nome escrito, e estudiosos discutem há mais de quatro séculos quem são. A leitura mais repetida liga a primeira cena ao casamento de Peleu, herói grego, com Tétis, ninfa do mar; o animal marinho seria o sinal da noiva vinda da água.

Outras leituras veem ali o imperador Augusto e a família dele, ou cenas de luto. O próprio Museu Britânico, na descrição da peça, deixa a identificação em aberto. Sem legenda, o vaso guarda o tema e mostra só o ofício.

O vaso chegou ao século 19 com um disco de vidro camafeu colado no fundo, com um jovem de barrete frígio (gorro de ponta dobrada para a frente), associado ao príncipe troiano Páris. O disco é antigo, mas veio de outra peça. Depois de 1845, os conservadores o separaram, e hoje ele fica exposto à parte.

A ponta inferior do vaso também foi cortada ainda na Antiguidade. A forma original provavelmente terminava em bico, como uma ânfora (jarro de duas alças usado para vinho e azeite), e alguém aparou e aplainou o fundo, talvez depois de uma quebra antiga.

 
 

II  A História Por Trás

Do cardeal ao duque

O primeiro registro seguro do vaso aparece em Roma, em 1601. O estudioso francês Nicolas-Claude Fabri de Peiresc o viu na coleção do cardeal Francesco Maria del Monte, o mesmo protetor do pintor Caravaggio.

Uma história contada desde o século 17 diz que o vaso saiu de um túmulo no Monte del Grano, nos arredores de Roma, dentro de um sarcófago de mármore. Não há documento da escavação, e a origem real segue sem prova.

Com a morte do cardeal, em 1626, a peça passou à família Barberini, a do papa Urbano VIII. Ficou mais de 150 anos no palácio dela e ganhou o nome de Vaso Barberini.

De mão em mão

No fim do século 18, a princesa Cornelia Barberini-Colonna precisou de dinheiro para pagar dívidas de jogo e vendeu o vaso ao escocês James Byres, comerciante de antiguidades em Roma. Byres o revendeu ao diplomata inglês Sir William Hamilton, embaixador em Nápoles.

Hamilton levou a peça para Londres e, em 1784, a vendeu a Margaret Cavendish Bentinck, duquesa de Portland, colecionadora de conchas, fósseis e raridades. Ela morreu no ano seguinte, e o filho, o terceiro duque de Portland, arrematou o vaso no leilão do espólio da mãe. Daí o nome atual.

A cópia de Wedgwood

O duque emprestou o vaso a Josiah Wedgwood, o ceramista inglês. Wedgwood passou quatro anos tentando reproduzi-lo em jaspe (cerâmica fosca, sem verniz, tingida na própria massa), com figuras brancas sobre fundo escuro.

A primeira cópia aprovada saiu em 1790. Wedgwood exibiu as reproduções em Londres e vendeu exemplares a colecionadores pela Europa. Durante décadas, muita gente conheceu o Vaso Portland só pela versão em cerâmica.

A noite da escultura

Em 1810, o quarto duque de Portland emprestou o original ao Museu Britânico. Foi lá, numa vitrine da sala de antiguidades, que William Lloyd o encontrou trinta e cinco anos depois. O nome verdadeiro dele, segundo jornais da época, era William Mulcahy, estudante vindo de Dublin.

A escultura usada por Lloyd era uma peça de basalto, exposta perto da vitrine. Depois do golpe, ele ficou parado na sala e não tentou fugir. No interrogatório, disse apenas ter passado a semana inteira bebendo.

O processo terminou na multa pela vitrine. O quarto duque decidiu não processar Lloyd na esfera civil, e o caso se encerrou ali, com o rapaz solto e o vaso numa caixa de cacos.

 

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III  Por Que Importa

A lei e a cola

O conserto ficou com John Doubleday, restaurador do Museu Britânico. Ele colou os fragmentos um a um e devolveu o vaso à vitrine em setembro de 1845. De longe, a emenda saiu quase invisível.

Trinta e sete lascas pequenas sobraram na mesa dele, sem lugar encontrado. Ficaram guardadas numa caixa do museu por mais de um século.

Três restaurações

A cola do século 19 amarelou com o tempo. Em 1948, o restaurador J. W. R. Axtell desmontou o vaso e o colou de novo, encaixando parte das lascas deixadas por Doubleday.

Em 1988 e 1989, o conservador Nigel Williams, do próprio museu, refez o trabalho com um adesivo moderno e reversível, pensado para sair sem ferir o vidro numa restauração futura. Mais lascas antigas encontraram lugar.

Hoje, de perto, ainda se veem as linhas de fratura no azul. O museu decidiu mantê-las à vista: elas fazem parte da história do objeto.

Uma lei para o vaso

O caso Lloyd mostrou um buraco na lei. Ainda em 1845, o Parlamento britânico aprovou a Lei de Proteção de Obras de Arte e Coleções Científicas e Literárias, que passou a punir com prisão o dano a obras expostas em museus, galerias e igrejas, sem teto de valor.

A regra chegou tarde para Lloyd, mas mudou o tratamento dado na Inglaterra a quem quebra uma obra exposta ao público.

O Museu Britânico comprou o vaso da família Portland em 1945, cem anos depois do ataque. Ele segue exposto, agora numa vitrine reforçada.

A cópia em vidro

Wedgwood copiou o vaso em cerâmica. Reproduzi-lo em vidro camafeu, com a técnica dos romanos, levou quase um século a mais, e a tentativa veio de Stourbridge, cidade de fornos de vidro no centro da Inglaterra.

Lá, um industrial vidreiro encomendou a cópia a um gravador local, que trabalhou anos sobre a mesma peça de vidro azul e branco, com as mesmas ferramentas de lima e roda.

Diante do vaso colado, a escolha fica com quem olha: ver nas linhas de fratura um defeito a esconder na próxima restauração, ou a marca de 1845 a manter à vista, como o museu decidiu. As duas leituras estão na vitrine.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem fez em Stourbridge, em 1876, a primeira cópia do Vaso Portland em vidro camafeu, e quantos anos levou?

★ RARO

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Segundo o texto, por que o magistrado não multou William Lloyd pelo valor do vaso em si?

APorque ele provou que estava embriagado e sem intenção
BPorque a lei de dano a bens só valia para objetos de até cinco libras, e o vaso valia muito mais
CPorque o Museu Britânico retirou a queixa sobre o vaso
DPorque não havia perito para avaliar o preço do vaso

Resultado da última edição: 90% acertaram.

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