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ED 160

As botas sem dono na tela de Arles

Vincent van Gogh, 1888 · Óleo sobre tela

Par de botas de couro gastas pintado por Van Gogh em 1888

O couro gasto, sem pé dentro

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Um par de botas de couro marrom, cano baixo de pouco mais de um palmo, cadarços frouxos e biqueiras gastas viradas para quem olha, ocupa a faixa central da superfície pintada. Nenhum pé está dentro delas.

Vincent van Gogh pintou a cena em 1888, óleo sobre tela, no sul da França. A tela pertence hoje ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que libera a imagem em domínio público.

O que entra no quadro cabe em duas linhas. O par de calçados, apoiado num piso de ladrilhos claros, e o mesmo ladrilhado ocupando todo o campo atrás deles, sem virar parede, mesa ou horizonte. Nenhum móvel, nenhuma janela, nenhuma paisagem ao redor.

Falta ali a coisa que o olho procura primeiro num quadro de museu: gente. Nenhum rosto, nenhuma mão, nenhuma silhueta de costas atravessando o fundo. O calçado ficou sozinho no centro da tela, e o corpo que o usava foi deixado de fora da moldura.

A ausência tem consequência direta sobre o sentimento que a tela devolve. Um retrato entrega feição, idade e roupa, e quem olha julga a pessoa. Um par de botas vazias entrega só o estrago: o couro arqueado onde o dedão empurrou, a costura aberta, o barro seco na sola. Quem olha precisa imaginar o dono, e a imaginação enche o vazio com a própria experiência de cansaço.

O par já apareceu em texto de filósofo, em ensaio de historiador da arte e em polêmica acadêmica que atravessou quatro décadas, sempre pela mesma pergunta: de quem são aqueles sapatos. A resposta muda o que o quadro significa, e vamos chegar lá.

Antes disso, a superfície. O que exatamente a tela mostra, como o pintor construiu o couro, de onde vem a luz e o que o fundo se recusa a informar.

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I  O Que Você Vê

Couro arqueado, cadarço solto, chão de terra

O par ocupa o centro do quadro e deixa faixas largas de ladrilho livres nas laterais. A bota da esquerda está de pé, virada de três quartos, com a boca aberta para cima. A da direita também está de pé, um pouco atrás, com o cano tombado para o lado e a biqueira voltada para quem olha.

O couro é marrom com passagens de ocre e de um tom quase preto nas dobras. Na altura dos dedos, a superfície está arqueada para cima, marcada por vincos fundos que acompanham a curva do pé que já esteve ali dentro. Nenhuma parte do calçado está lisa.

Os cadarços não estão amarrados. As pontas soltas caem para fora do cano, e um deles escorrega até o chão, pintado com uma linha clara de tinta quase sem diluição. Os ilhoses aparecem como pequenos pontos escuros alinhados em duas fileiras.

A biqueira gasta traz a marca de uso mais evidente do quadro. A borda da sola está irregular, escurecida de um lado, e o couro tem manchas de tom terroso que contrastam com o ladrilho claro onde o par está apoiado. A costura que prende a sola ao corpo do calçado aparece em pontos curtos de tinta clara.

O chão é um ladrilhado de peças grandes em tons claros de creme e cinza-rosado, construído com pinceladas curtas em várias direções. Não há tábua, tapete ou grama: o piso de ladrilho põe o par dentro de casa.

O ladrilhado se estende atrás das botas em tons claros, entre o creme e o cinza-rosado, aplicados em pinceladas paralelas inclinadas. Linhas avermelhadas marcam as juntas das peças, e por isso o par aparece apoiado num piso que se afasta em diagonal.

A luz vem de cima e da esquerda, fraca, sem fonte visível. Ela clareia o cano das duas botas, acende os ilhoses e deixa o interior do calçado num preto fechado. A sombra projetada no chão é alongada e feita de hachuras azuis, bem mais escuras que o ladrilho.

A tinta foi aplicada grossa, em relevo, e as marcas de cerda ficam visíveis dentro de cada pincelada. Em algumas partes do couro, o traço tem a espessura de um dedo e o pigmento forma cristas que pegam luz de verdade quando a tela é vista de perto.

Nenhum outro objeto entra no campo pintado. Nenhuma meia, nenhum banco, nenhum pedaço de roupa, nenhum bicho. O quadro inteiro é feito de dois calçados, um chão e um fundo, e nada disso pede uma segunda leitura para ser identificado.

 
 

II  A História Por Trás

Um par comprado no mercado de pulgas de Paris

Vincent Willem van Gogh nasceu em Zundert, no sul dos Países Baixos, em 1853, filho de pastor protestante. Trabalhou como aprendiz de marchand na firma Goupil, tentou o seminário, pregou entre mineiros na Bélgica e só começou a pintar por profissão aos 27 anos, sem formação de academia.

Em março de 1886 mudou para Paris, onde morou com o irmão Theo van Gogh, marchand da mesma Goupil, num apartamento da rua Lepic, em Montmartre. Ali conheceu os pintores que trabalhavam com cor pura e abandonou a paleta escura que tinha trazido da Holanda.

Foi nesse período parisiense que os calçados viraram assunto recorrente. Van Gogh pintou pelo menos cinco telas com o mesmo motivo entre 1886 e 1888, com variação de ângulo, de fundo e de número de pares em cena.

O pintor francês François Gauzi, colega de ateliê de Van Gogh em Paris, contou na memória que publicou em 1954 que o holandês comprou um par de botas velhas num mercado de pulgas da cidade. O calçado ainda estava limpo demais para o gosto dele, e Van Gogh saiu com ele num dia de chuva, caminhou até sujar o couro de lama e só então armou a tela.

Em fevereiro de 1888 deixou Paris e desceu para Arles, na Provença, atrás de luz forte e de aluguel barato. Alugou quatro cômodos de uma casa de fachada amarela na praça Lamartine e montou ali o ateliê onde pintou a tela do Metropolitan, além dos girassóis e do próprio quarto.

A correspondência com Theo é a maior fonte sobre o período, e ela é enorme: mais de 650 cartas do pintor para o irmão sobreviveram, muitas com desenho a bico de pena no meio do texto. Em nenhuma delas Van Gogh explica de quem eram os sapatos pintados, nem por que voltou tantas vezes ao mesmo objeto.

A tela de 1888 seguiu na família depois da morte do pintor, em 1890, passou por colecionadores e chegou ao Metropolitan Museum of Art em 1992, pela doação de Walter Annenberg. Está catalogada como óleo sobre tela e aparece na coleção aberta do museu, que libera o arquivo de imagem sem restrição de uso.

Fora dos museus, o par ganhou vida própria em outro terreno. O filósofo alemão Martin Heidegger usou uma tela de sapatos de Van Gogh como exemplo central no ensaio A Origem da Obra de Arte, de 1936, e descreveu o calçado como pertencente a uma camponesa, com a terra do campo grudada na sola e o cansaço da lida marcado no couro.

Trinta e dois anos depois, o historiador da arte Meyer Schapiro, da Universidade Columbia, respondeu por escrito. Ele foi atrás das telas, comparou as versões, lembrou que Van Gogh morava em cidade grande quando pintou o motivo e escreveu que o filósofo tinha projetado na pintura uma cena de campo que a pintura não traz.

 

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III  Por Que Importa

O dono que ficou fora da moldura

São os sapatos do artista, que a essa altura era um homem da cidade.

Meyer Schapiro, A Natureza-Morta como Objeto Pessoal, 1968

A disputa entre os dois textos não é briga de rodapé. Se o calçado pertence a uma camponesa, o quadro fala de trabalho no campo e de uma classe inteira. Se pertence ao próprio pintor, o quadro vira autorretrato sem rosto, feito por um homem que andou a pé de Paris a Arles com pouco dinheiro no bolso.

Um terceiro leitor entrou na conversa em 1978. O filósofo francês Jacques Derrida escreveu sobre o caso no livro A Verdade em Pintura e levantou uma dúvida que nenhum dos dois tinha posto na mesa: a tela não prova sequer que os dois calçados formam um par. Podem ser dois pés esquerdos, dois objetos que só a moldura junta.

O que sustenta a discussão inteira é a ausência do corpo. Num retrato, a pessoa está ali e encerra o assunto. Num par de botas vazias, quem decide o dono é quem olha, e cada leitor põe no lugar vago a sua própria ideia de quem anda com o calçado naquele estado.

O gesto se repete em outras telas do pintor. No último trigal pintado em Auvers, a estrada entra no campo e termina sem saída, e o efeito de solidão vem justamente do que falta na cena, não do que está pintado nela. A tela de 1888 opera pelo mesmo mecanismo com um objeto no lugar da paisagem.

Existe muito que não se sabe, e a lacuna é documental. Van Gogh não deixou registro dizendo de quem eram aqueles sapatos, se eram os dele de caminhar, se eram a compra de mercado de pulgas contada por Gauzi, ou se eram um objeto qualquer usado como exercício de pintura. Quem afirma qualquer uma das três está completando um vazio de arquivo.

A data exata da tela do Metropolitan também depende de leitura de estilo. O museu registra 1888, com base na pincelada e na paleta do período de Arles, e não existe carta datada em que o pintor descreva aquela tela específica em produção.

Sobre a memória de Gauzi, vale a mesma cautela. O texto foi publicado em 1954, mais de sessenta anos depois do convívio dos dois em Paris, e nenhum documento da época confirma a caminhada na lama. A história circula como testemunho tardio de uma pessoa só.

Diante da tela, restam duas maneiras de ler o que está pendurado ali. Chamar o quadro de autorretrato sem rosto, o registro de um homem que se pintou pelo estrago do próprio calçado e deixou o corpo de fora de propósito, e aceitar que o assunto é a vida dele. Ou chamar o quadro de natureza-morta de um objeto qualquer, um estudo de couro, luz e tinta grossa em que o dono não importa e qualquer par serviria. As duas leituras cabem no mesmo cadarço solto, e nenhum documento conhecido escolhe por quem olha.

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Autorretrato sem rosto ou estudo de couro e luz em que o dono não importa: qual das duas leituras você escolhe para o par de botas?

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Segundo o relato de um colega de ateliê, o que Van Gogh fez com as botas velhas compradas num mercado de pulgas de Paris antes de começar a pintar?

ADeixou o par exposto ao sol por semanas até o couro rachar
BRaspou a sola com uma pedra para deixá-la mais gasta
CSaiu com elas num dia de chuva e caminhou até sujá-las de lama
DTrocou os cadarços por outros mais claros para destacar o par

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