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ED 120

O Semeador ao Pôr do Sol

Vincent van Gogh · 1888 · Óleo sobre tela

O Semeador ao Pôr do Sol

O braço aberto no fim do gesto de semear

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Em 20 de fevereiro de 1888, um pintor holandês de trinta e quatro anos desceu do trem em Arles, no sul da França, e encontrou a cidade coberta de neve.

Quatro meses depois, o mesmo homem atravessava a planície da Crau carregando tela e cavalete debaixo de um sol que ele descrevia nas cartas por nome de tinta, e não por adjetivo.

Junho foi o mês da colheita. Em pouco mais de uma semana ele pintou uma sequência de telas com ceifeiros, medas e carroças, fincando o cavalete no chão para o mistral não derrubar o trabalho.

No meio daquela sequência ele parou e voltou a um motivo velho. Um homem sozinho, de perfil, atravessando terra lavrada com o braço aberto, jogando semente.

O motivo não era dele. Vinha de um quadro de Jean-François Millet pintado em 1850, que ele nunca viu de perto e conhecia por gravura, copiada e recopiada desde os primeiros cadernos de desenho.

Millet tinha resolvido a cena em terra escura e céu apagado, quase sem cor. A ideia agora era refazer a mesma figura em cor cheia, com o contraste mais duro que a caixa de tintas permitia.

A escolha caiu sobre duas famílias de tinta. Amarelo de cromo em cima, no céu e no trigo maduro. Violeta embaixo, nos torrões revirados pelo arado.

Entre as duas metades ele pendurou um disco. O sol aparece baixo, grande demais para a distância, com as pinceladas do céu saindo dele em volta como os raios de uma auréola.

O semeador continua no quadro, encostado na borda direita, de chapéu de palha e braço estendido. Só que a tela deixou de girar em torno dele.

A leitura começa pelo que está pintado: o braço aberto no meio do gesto, a faixa estreita de trigo maduro logo atrás e o disco amarelo apoiado na linha do horizonte.

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I  O Que Você Vê

O braço aberto e o disco no horizonte

Óleo sobre tela, cerca de sessenta e quatro centímetros de altura por oitenta de largura, em formato horizontal.

A linha do horizonte corta a tela alto, a mais ou menos um quarto do topo. Acima dela fica o céu. Abaixo, a terra.

O céu é amarelo puxado para o verde, pintado em pinceladas curtas que se abrem em leque a partir de um ponto só.

Esse ponto é o sol. Um disco de amarelo pálido, quase branco no miolo, apoiado logo acima do horizonte e deslocado para a esquerda do centro.

O contorno é fechado, como o de uma moeda, e a mancha ocupa mais espaço na tela do que a cabeça e o tronco do semeador somados.

Entre o céu e a terra corre uma faixa estreita de trigo maduro em pé, ocre com laranja, as hastes marcadas uma a uma em traços verticais.

No horizonte à esquerda aparece uma casa pequena, de paredes claras e telhado laranja, com arbustos escuros ao lado e uma planta fina que sobe mais alto que o telhado.

À direita, na mesma linha, há uma fileira baixa de moitas em azul e violeta.

Todo o resto, cerca de três quartos da tela, é campo arado, pintado em pinceladas curtas e grossas, encostadas umas nas outras, em azul, violeta, rosa e laranja, sem um único trecho de cor lisa.

A tinta está empastada. Os torrões têm relevo de verdade, e a luz que chega neles projeta sombra na própria superfície do quadro.

Os sulcos do arado seguem em diagonal, da borda de baixo para o meio da tela, e empurram o olho na direção da figura.

O semeador aparece de corpo inteiro, de perfil, avançando para a esquerda do quadro com as pernas abertas em passo longo.

Ele usa chapéu de palha, blusão claro puxado para o verde oliva e calça azul, com botas escuras riscadas de laranja.

O braço da frente desce aberto, a mão espalmada na altura do quadril, no fim do gesto de espalhar a semente.

O outro braço segura contra a barriga o saco de semente, um volume claro preso na dobra do cotovelo.

O rosto não tem feição. São dois riscos escuros sob a aba do chapéu, e o queixo se resolve numa mancha só.

O sol está atrás dele e mesmo assim o corpo não vira silhueta preta: o chapéu, o ombro e a mão ficam claros contra o campo escuro.

Na terra, à esquerda, dois pássaros pousados aparecem em duas pinceladas escuras, do tamanho de uma unha.

No canto de baixo à esquerda a tinta muda de assunto e vira restolho seco, em amarelo pálido e verde acinzentado.

Nenhuma linha preta fecha o contorno das formas. O corpo se separa da terra pela cor, não pelo desenho.

Grande campo de torrões de terra lavrada, na maior parte francamente violeta. Campo de trigo maduro num tom de ocre amarelo com um pouco de carmim. O céu amarelo de cromo, quase tão claro quanto o próprio sol.

Vincent van Gogh, carta a Émile Bernard, Arles, por volta de 19 de junho de 1888

 
 

II  A História Por Trás

A gravura que ele copiava desde o começo

Barbizon, 1850. Jean-François Millet manda para o Salão de Paris um camponês de passo largo jogando semente numa encosta escura, tela de pouco mais de um metro de altura.

A crítica se divide na hora. Um resenhista vê ali um estudo enérgico e cheio de movimento; Théophile Gautier despacha a pintura como raspas de espátula.

O incômodo tinha tamanho. O trabalhador vem grande demais, ocupando quase toda a altura da tela, numa escala que a pintura reservava a figuras nobres.

Existem versões do mesmo motivo, uma no Museu de Belas Artes de Boston, outra no Japão.

O pintor holandês nunca viu nenhuma delas de perto. Conheceu a cena por reprodução impressa, do jeito que quase toda a França conhecia Millet naquela altura.

Em 1880, aos vinte e sete anos, depois de fracassar como negociante de arte e como pregador leigo numa região de minas de carvão na Bélgica, ele decidiu desenhar.

O método de estudo foi copiar. Ele copiou Millet a lápis, folha atrás de folha, e o semeador esteve entre as primeiras figuras a sair da mão dele.

O motivo nunca mais saiu. Entre desenhos e telas, o semeador reaparece mais de trinta vezes ao longo de dez anos de trabalho.

Em fevereiro de 1888 ele trocou Paris pelo sul, atrás de luz forte e de cor limpa, e alugou quartos em Arles.

Entre 17 e 28 de junho ele montou o semeador, no meio da mesma temporada de campo.

Na carta a Émile Bernard, por volta do dia 19, ele descreve o quadro como quem lê uma receita, tinta por tinta, e informa até o formato: tela número vinte e cinco.

Na mesma carta ele entrega o método. Conta que espalhou muito amarelo por baixo do violeta da terra e admite, com todas as letras, que a veracidade da cor pouco lhe importava.

Uma semana depois, em carta ao irmão, o relatório é outro. Ele conta que trabalhou dois dias seguidos no semeador e refez a tela por inteiro: o céu ficou amarelo e verde, a terra roxa e laranja.

Ainda assim o assunto não fechou. Em novembro do mesmo ano ele pintou o semeador de novo, em tela maior, com um tronco de árvore cortando a cena na diagonal e o sol ainda maior atrás da figura.

Essa segunda versão ele deu por boa e assinou no canto, coisa que fazia com pouquíssimas telas.

Em 1890 o acervo passou ao irmão Theo e, no ano seguinte, à viúva dele, Johanna van Gogh-Bonger, que gastou décadas expondo aquelas telas na Europa.

A tela de junho seguiu para a Holanda. Entrou na coleção que Helene Kröller-Müller montou nas primeiras décadas do século vinte e hoje fica em Otterlo, no museu que leva o nome dela.

O acervo dela é o segundo maior do mundo em obras do pintor: quase noventa telas e mais de cento e oitenta desenhos.

Millet tinha morrido em 1875, em Barbizon. Nunca soube que um holandês copiaria o semeador dele por dez anos para devolver a figura ao mundo pintada de amarelo e violeta.

 
 

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III  Por Que Importa

O sol no lugar da auréola

Importa pela regra que está sendo testada. Amarelo e violeta são cores complementares: uma ao lado da outra, cada uma parece mais forte do que estaria sozinha.

Importa pela origem da regra. Ele tinha aprendido a lei das complementares lendo teoria da cor e textos sobre Delacroix, anos antes de aplicá-la num campo arado da Provença.

Importa porque a tela é um experimento de um par só. Não há verde contra vermelho nem azul contra laranja disputando espaço, e o quadro inteiro se resolve entre o alto amarelo e o baixo violeta.

Importa porque ele avisou que não estava atrás da cor verdadeira. A terra de Arles não é violeta, e a carta diz sem rodeio que a veracidade da cor pouco lhe importava.

Importa pela posição do sol. Ele não está no alto do céu, onde a paisagem costumava colocá-lo, e sim pousado na linha do horizonte, no mesmo plano da figura que trabalha.

Importa pelo desenho do disco. Contorno fechado e raios curtos em volta formam a figura que a pintura europeia usou durante séculos para marcar santo: a auréola.

Importa por quem pintou. Antes de virar pintor, ele passou uma temporada entre mineiros belgas como pregador leigo, e o semeador é figura de parábola antes de ser figura de campo.

Importa pelo que ele escreveu semanas depois, em carta ao irmão. Dizia querer pintar homens e mulheres com aquele quê de eterno que a auréola simbolizava, alcançado agora pela radiância da própria cor.

Importa pelo trigo atrás do semeador. Semear e colher acontecem em meses diferentes, e a tela junta os dois momentos no mesmo campo.

Importa pela espessura da tinta. O campo foi construído em massa, quase em relevo, e os torrões existem como volume antes de existirem como cor.

Importa porque ele não deu o trabalho por encerrado. Refez a tela em dois dias, insistiu no motivo em novembro e voltou a ele nos anos seguintes.

Importa pelo que ficou. O par amarelo e violeta e o disco baixo no horizonte voltam nas telas de trigo dos dois últimos anos de vida do pintor.

Importa pela troca de figura central. O homem que trabalha continua lá, cumprindo o gesto, mas quem organiza a tela inteira é o círculo de tinta amarela pendurado sobre o trigo.

Diante da obra, comece pelo braço aberto do semeador. Suba até o disco de sol, siga a faixa de trigo maduro até a casa de telhado laranja e desça para os torrões de tinta grossa do primeiro plano.

 
 
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ALaranja e azul
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CVermelho e verde
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