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ED 162

Mulher Tapuia de Eckhout venceu a urna de 22/09. Sai em 25/09.

A tinta que caiu com o pintor ainda vivo

Leonardo da Vinci, 1495 a 1498 · Têmpera e óleo sobre reboco seco

Treze figuras a uma mesa comprida, pintadas por Leonardo da Vinci entre 1495 e 1498

Treze figuras numa mesa de refeitório

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Uma parede de refeitório com 4,60 metros de altura e 8,80 metros de largura, coberta por uma camada de têmpera, que é pigmento amassado com ovo e cola, assentada sobre gesso seco e acabada com pinceladas de óleo. Ela tem cerca de meio milímetro de espessura e agarra o reboco por contato, como verniz sobre madeira.

A pintura é A Última Ceia, no refeitório, a sala de refeições dos frades, do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Leonardo da Vinci trabalhou nela entre 1495 e 1498, por encomenda de Ludovico Sforza, duque de Milão. A obra está no lugar onde nasceu, e nunca saiu dali.

A técnica normal para parede naquele século era o afresco, que significa pintar sobre reboco ainda molhado. A cal do reboco seca e prende o pigmento dentro da própria pedra, o que dá uma cor que dura séculos. O preço é a pressa: o pintor só pode cobrir o pedaço de reboco que consegue terminar enquanto a superfície ainda cede, e depois de seca não existe correção, apenas raspagem e reinício.

Leonardo recusou esse acordo. Ele escolheu pintar a seco, com têmpera e óleo sobre um reboco já curado, porque assim podia parar, olhar, voltar dias depois e mexer num rosto, numa mão, na dobra de uma toalha. A liberdade que ele comprou foi a de corrigir sem limite.

O que ele pagou apareceu rápido. A camada seca não pertencia à parede, apenas descansava sobre ela, e a umidade que subia do solo e das cozinhas vizinhas começou a empurrar a tinta para fora. Descamações apareceram ainda em vida do pintor, e cada geração seguinte encontrou menos pintura do que a anterior.

Primeiro a cena que aparece nessa parede: as figuras, os objetos sobre a mesa, a direção das mãos e a luz que entra pelo fundo.

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I  O Que Você Vê

Treze homens, três janelas, uma toalha listrada

A mesa atravessa a pintura na horizontal, paralela a quem olha, e ocupa quase toda a largura da cena. Sobre ela cai uma toalha branca comprida, com vincos de dobra ainda marcados no tecido e duas faixas azuis lavradas correndo perto das bordas.

Treze homens estão do mesmo lado da mesa, nenhum de costas. No centro, um homem de túnica vermelha e manto azul mantém a cabeça inclinada para a direita dele e os olhos baixos. Os dois braços estão abertos sobre a toalha, a mão esquerda virada para cima com a palma exposta, a mão direita pousada com a palma para baixo, os dedos soltos.

Os outros doze aparecem repartidos em quatro grupos de três, dois grupos de cada lado. Cada grupo forma uma pequena pirâmide de cabeças e braços, e nenhum deles encosta na figura central: um vão de toalha vazia separa o homem do meio dos vizinhos mais próximos.

À esquerda de quem olha, um homem de barba escura recua o tronco e apoia o cotovelo na mesa, com uma bolsa fechada apertada na mão direita e o rosto na sombra. Ao lado dele, um homem grisalho avança o corpo e segura uma faca junto ao quadril, com a lâmina virada para trás. Um terceiro, imberbe e de cabelo claro, inclina a cabeça para o próprio ombro, com as mãos entrelaçadas sobre a toalha.

À direita, um homem de barba branca abre as duas palmas para cima, em gesto de quem pergunta. Perto dele, outro levanta o dedo indicador da mão direita na vertical, sozinho no ar. Na ponta desse mesmo lado, três figuras conversam entre si, uma com a mão espalmada na altura do peito e outra virada de perfil para a borda da pintura.

Sobre a toalha há pratos rasos, pães pequenos partidos, copos de vidro com pouco líquido e travessas com pedaços de peixe. Um dos copos ficou tombado perto da beirada, e o conteúdo escorreu num fio escuro sobre o tecido.

O fundo mostra uma sala fechada com quatro tapeçarias escuras de cada lado, penduradas em paralelo, e um teto de caixotões que diminui em direção ao centro. Três vãos abertos na parede do fundo deixam ver uma paisagem pálida de colinas, água e céu esbranquiçado, e o vão do meio, maior, fica exatamente atrás da cabeça da figura central.

A luz vem dos três vãos e também da esquerda, bate nas testas, nos dorsos das mãos e nas dobras altas da toalha, e deixa sombra curta sob os queixos.

O estado da superfície aparece sem disfarce. Correm fissuras finas pelo reboco, há manchas de cor mais fria onde a tinta original sumiu, e no rodapé central falta um pedaço da parede: uma abertura em arco, tapada e nivelada, come a base da mesa e os pés das figuras do meio.

 
 

II  A História Por Trás

A parede seca que ele escolheu para poder voltar

A encomenda veio de Ludovico Sforza, que governou Milão de 1494 a 1499 e usava Santa Maria delle Grazie como igreja de família. O refeitório dos dominicanos recebia obra nova, e a parede do topo, onde ficava a mesa dos frades, coube a Leonardo da Vinci. O trabalho ocupou os anos de 1495 a 1498.

O método que a parede pedia era o afresco. O pintor manda assentar uma camada de reboco de cal fresca, pinta com pigmento diluído em água e a reação química da cal ao secar prende a cor dentro da superfície. A pintura vira pedra colorida. Em troca, o pintor vive num relógio: cada jornada cobre só a área que endurece naquele dia, e a emenda entre duas jornadas fica visível para sempre.

Leonardo trabalhava no contrário desse relógio. Matteo Bandello, frade no convento quando menino e depois autor das Novelle, de 1554, descreveu a cena: o pintor subia no andaime ao amanhecer e pintava até a luz sumir, sem lembrar de comer, e em outros dias chegava, olhava as figuras durante horas, dava duas pinceladas e ia embora.

Um método desse tipo é incompatível com reboco úmido. A saída foi pintar a seco: deixar a parede curar, preparar a superfície com camadas de vedação e aplicar têmpera de ovo com acabamento de óleo, como quem pinta um painel de madeira. Assim a tinta espera. Ela aceita retoque na semana seguinte, aceita que um rosto inteiro seja refeito e aceita que a expressão de uma mão mude de ideia.

O defeito da escolha é físico e simples. No afresco, a cor e a parede viram um corpo só. Na pintura a seco, existem dois corpos encostados: uma película de tinta e uma parede de tijolo e argamassa. Água que atravessa o tijolo chega à divisa entre as duas e empurra a película, que estufa, racha e cai em escamas.

O refeitório reunia tudo que piora esse processo. A parede norte da sala encosta em terreno úmido, as cozinhas do convento ficavam contíguas e soltavam vapor, e a sala não tinha aquecimento nem ventilação controlada. O ciclo de molhar e secar se repetia a cada inverno.

Os sinais chegaram cedo. Antonio de Beatis, secretário do cardeal Luís de Aragão, visitou o refeitório em 1517 e anotou que a obra, embora excelente, começava a estragar. Leonardo morreu em 1519, e a deterioração já corria sozinha na parede.

 

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III  Por Que Importa

Vinte e um anos de restauro para uma parede de três

Nela não se vê mais do que uma mancha ofuscada.

Giorgio Vasari, Le Vite, 1568

Vasari visitou o refeitório e registrou essa frase menos de setenta anos depois que Leonardo largou o andaime. Ela descreve um quadro em que as figuras já não se distinguiam, e serve de marco: no meio do século 16 a pintura tinha deixado de funcionar como imagem legível.

O tratamento que o convento deu à parede piorou a conta. Em 1652, para encurtar o caminho entre o refeitório e a cozinha, os frades abriram uma porta na parede pintada e destruíram o trecho inferior central, com a base da mesa e os pés da figura do meio. A porta foi fechada depois, e o rasgo continua visível como zona lisa e escura.

As tentativas de conserto vieram em ondas, e quase todas acrescentaram tinta nova. Michelangelo Bellotti repintou a superfície inteira a óleo em 1726 e cobriu tudo com verniz. Giuseppe Mazza raspou parte desse trabalho em 1770 e repintou por cima. Stefano Barezzi tentou em 1821 arrancar a pintura da parede para transferi-la, método que funcionava em afresco e que ali arrancou fragmentos originais antes de ser interrompido.

A guerra quase encerrou a história. Em agosto de 1943 uma bomba atingiu Santa Maria delle Grazie e derrubou o teto e a parede leste do refeitório. A parede da pintura ficou de pé porque tinha sido protegida com sacos de areia e uma estrutura de madeira, e passou meses exposta à chuva sob uma cobertura improvisada de lona.

O restauro decisivo começou em 1978, sob responsabilidade de Pinin Brambilla Barcilon, e terminou em 1999. Vinte e um anos de trabalho para uma pintura que Leonardo executou em três, com a superfície dividida em quadrados examinados um a um, solventes aplicados em área mínima e microscópio para separar tinta original de repintura antiga.

O resultado divide opinião até hoje, e a divisão é honesta. A remoção das repinturas devolveu cores que estavam soterradas, como o azul do manto central e o vermelho escuro das tapeçarias, e revelou detalhes de mesa e de rosto que nenhuma geração recente tinha visto. Ela também mostrou o tamanho da perda: onde nada de original sobrou, a equipe preencheu com aquarela em tom neutro, reversível e reconhecível de perto.

A sala virou um aparelho. O refeitório recebe visitantes em grupos pequenos e com hora marcada, depois de uma antecâmara que filtra poeira, com temperatura e umidade controladas contra o ciclo que destruiu a tinta.

Existe ainda a via paralela das cópias. Giampietrino, discípulo de Leonardo, pintou por volta de 1520 uma réplica a óleo em tamanho quase igual ao original, hoje da Royal Academy of Arts, em Londres, e essa tela mostra trechos que sumiram da parede, inclusive os pés que a porta de 1652 levou.

Então a escolha fica com quem lê, e ela muda o que se vê. Ir a Milão, entrar nos quinze minutos marcados e aceitar que boa parte do que está diante de você é reconstituição de restaurador sobre a sombra de Leonardo, em troca da escala real e da parede no lugar certo. Ou ficar com a cópia de Giampietrino e com as reproduções em alta resolução, que entregam o desenho completo e as cores que a parede perdeu, em troca de nunca ver a obra do pintor com os próprios olhos. As duas opções mostram A Última Ceia, e nenhuma delas mostra a pintura de 1498.

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Quiz da edição

Segundo o texto, por que Leonardo recusou pintar A Última Ceia a fresco?

APorque o convento não conseguiu reboco de cal fresca disponível naquele ano
BPorque queria liberdade para parar, olhar e corrigir detalhes durante meses, o que o afresco não permitia
CPorque Ludovico Sforza exigiu uma técnica que custasse menos
DPorque a têmpera de ovo secava mais rápido que a cal do afresco

Resultado da última edição: 40% acertaram.

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