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A Catedral de Saint-Lazare foi construída para abrigar relíquias atribuídas a Lázaro, o amigo que Jesus, segundo o Evangelho de João, chamou de volta da tumba. O papa Inocêncio II consagrou a igreja em 1130, e os ossos foram transferidos para lá em 1146.
O bispo Étienne de Bâgé comandava Autun nesses anos. Uma catedral com relíquias atraía peregrinos, e peregrino trazia ofertas. O portal oeste, voltado para a praça, era a entrada de quem chegava de fora.
O gosto de 1766
O século XVIII francês julgava a arte medieval com dureza. A palavra “gótico” ainda servia de ofensa, sinônimo de bárbaro, e o românico, mais antigo, era tratado como pior. Cônegos de várias catedrais mandaram raspar pinturas, trocar altares e cobrir esculturas.
Em Autun, o cabido não se contentou com o reboco. Na mesma reforma, o portal norte foi desmontado, e o lintel com uma Eva deitada entre folhagens, também atribuído a Gislebertus, acabou usado como pedra de construção numa casa da cidade.
A cabeça de Cristo, cortada para nivelar a superfície, sumiu. Nenhum documento da reforma registra o destino dela.
O abade que raspou o reboco
Em 1837, o abade Devoucoux, cônego da própria catedral, mandou retirar a camada de cal. Por baixo apareceu o tímpano quase completo, com as figuras protegidas por 71 anos de cobertura. Faltava a cabeça de Cristo.
A França daquela época começava a olhar a Idade Média com outros olhos. Em 1830, o governo tinha criado o cargo de inspetor-geral dos monumentos históricos, e Prosper Mérimée, o escritor de Carmen, passou a ocupá-lo em 1834, percorrendo o país para listar igrejas medievais em risco.
A Eva do portal norte foi encontrada em 1866, quando a casa onde servia de pedra foi demolida. Hoje está no Museu Rolin, em Autun.
A cabeça que voltou
A cabeça de Cristo foi a última peça a reaparecer. Em 1948, o padre Denis Grivot, cônego e estudioso da catedral, identificou entre as pedras guardadas no Museu Rolin uma cabeça que encaixava no pescoço da figura central. Ela foi recolocada no tímpano.
Grivot publicou em 1961, com o historiador inglês George Zarnecki, o livro Gislebertus, Sculptor of Autun (Gislebertus, escultor de Autun), que fotografou cada capitel e cada figura da catedral e fez do nome gravado sob os pés de Cristo um dos poucos escultores românicos conhecidos pelo público.
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