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O reboco que escondeu o Juízo Final de Autun por 71 anos

Gislebertus, Juízo Final, c. 1130, Catedral de Saint-Lazare, Autun

Tímpano do Juízo Final de Autun: Cristo ao centro, de braços abertos, cercado por anjos, salvos e condenados

Gislebertus, tímpano de Autun, c. 1130

▼

Três palavras latinas gravadas numa faixa estreita de pedra calcária, logo abaixo dos pés de um Cristo esculpido em tamanho maior que um homem: GISLEBERTUS HOC FECIT (Gislebertus fez isto). Elas provam que, por volta de 1130, alguém quis que o nome ficasse preso à obra para sempre.

A faixa está no tímpano (o painel semicircular de pedra acima da porta principal) da Catedral de Saint-Lazare, em Autun, na Borgonha, centro-leste da França. A cena é o Juízo Final: Cristo no meio, os salvos subindo para um lado, os condenados arrastados para o outro, e os mortos saindo das tumbas na faixa de baixo.

Em 1766, os cônegos da catedral (os padres que administravam a igreja) olharam para aquela pedra e não gostaram. O gosto da época pedia linhas clássicas, proporção grega, figuras calmas. As figuras de Gislebertus eram compridas demais, retorcidas demais, com demônios de costela à mostra. Para o cabido (o conselho dos cônegos), a escultura parecia tosca, obra de um tempo sem regra.

A decisão foi cobrir tudo. Os pedreiros espalharam uma camada de reboco de cal sobre o tímpano inteiro e deixaram a superfície lisa. Para a massa assentar plana, a cabeça de Cristo, que saltava da parede, foi arrancada.

Durante 71 anos, quem entrou pela porta oeste de Autun passou por baixo de um semicírculo branco e liso. Ninguém via a balança das almas, os demônios nem a assinatura.

Foi a camada de cal que fez o tímpano chegar inteiro ao século XIX. Em 1793, no auge da Revolução Francesa, grupos revolucionários quebraram estátuas de santos e reis em igrejas de toda a França. As fachadas de pedra exposta perderam cabeças às centenas. Em Autun, o reboco escondia o Juízo Final, e a parede lisa não chamou ninguém.

A primeira parte da edição sobe os olhos pela pedra que voltou à luz, figura por figura.

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I  O Que Você Vê

Um juiz de braços abertos

Cristo ocupa o centro do tímpano de Gislebertus, sentado, de frente, com os dois braços abertos para os lados. Ele é a maior figura da cena com folga: os anjos e os mortos ao redor chegam à altura dos joelhos dele.

O corpo está dentro de uma mandorla (moldura oval em forma de amêndoa que, na arte medieval, marca a glória divina). Quatro anjos seguram a moldura pelas bordas, como quem carrega um escudo.

A roupa cai em pregas finas e paralelas, gravadas na pedra como sulcos de um arado. Os joelhos ficam abertos para os lados e os pés descansam lado a lado, apoiados logo acima da faixa da assinatura.

A pesagem das almas

À direita de quem olha, a cena muda de tom. Um anjo e um demônio disputam uma balança de pratos. O anjo é o arcanjo Miguel, que segundo a tradição cristã pesa as almas no dia do julgamento.

O demônio tem pernas finas como gravetos, peito de costelas aparentes e boca aberta. Ele força um dos pratos para baixo, tentando roubar no peso. Ao lado, pequenas figuras humanas, as almas, se encolhem à espera da sentença.

Mais adiante, uma boca enorme de monstro engole os condenados. Um par de mãos gigantes sai do alto e aperta a cabeça de um homem pelos lados. É a figura do tímpano que mais gente fotografa.

Na pedra não sobra cor nenhuma. O calcário aparece cinza-claro, com manchas escuras nos sulcos mais fundos, e a luz que bate de lado na fachada é o que separa uma figura da outra.

Os salvos e os peregrinos

À esquerda de quem olha, o movimento é de subida. Anjos ajudam as almas a entrar numa construção com arcos, a Jerusalém celeste. Uma alma pequena chega a ser empurrada para cima por uma janela.

Na faixa de baixo, o lintel (a viga de pedra horizontal que sustenta o tímpano), os mortos se levantam das tumbas. Dois deles carregam bolsas de viagem: uma marcada com cruz, a outra com uma concha. São peregrinos, a cruz de quem foi a Jerusalém, a concha de quem andou até Santiago de Compostela.

Uma inscrição em latim corre na borda do lintel, sob os condenados: “Terreat hic terror quos terreus alligat error” (Que este terror assuste aqueles que o erro terreno prende). A frase é o recado da porta inteira.

 
 

II  A História Por Trás

Da cal à luz

A Catedral de Saint-Lazare foi construída para abrigar relíquias atribuídas a Lázaro, o amigo que Jesus, segundo o Evangelho de João, chamou de volta da tumba. O papa Inocêncio II consagrou a igreja em 1130, e os ossos foram transferidos para lá em 1146.

O bispo Étienne de Bâgé comandava Autun nesses anos. Uma catedral com relíquias atraía peregrinos, e peregrino trazia ofertas. O portal oeste, voltado para a praça, era a entrada de quem chegava de fora.

O gosto de 1766

O século XVIII francês julgava a arte medieval com dureza. A palavra “gótico” ainda servia de ofensa, sinônimo de bárbaro, e o românico, mais antigo, era tratado como pior. Cônegos de várias catedrais mandaram raspar pinturas, trocar altares e cobrir esculturas.

Em Autun, o cabido não se contentou com o reboco. Na mesma reforma, o portal norte foi desmontado, e o lintel com uma Eva deitada entre folhagens, também atribuído a Gislebertus, acabou usado como pedra de construção numa casa da cidade.

A cabeça de Cristo, cortada para nivelar a superfície, sumiu. Nenhum documento da reforma registra o destino dela.

O abade que raspou o reboco

Em 1837, o abade Devoucoux, cônego da própria catedral, mandou retirar a camada de cal. Por baixo apareceu o tímpano quase completo, com as figuras protegidas por 71 anos de cobertura. Faltava a cabeça de Cristo.

A França daquela época começava a olhar a Idade Média com outros olhos. Em 1830, o governo tinha criado o cargo de inspetor-geral dos monumentos históricos, e Prosper Mérimée, o escritor de Carmen, passou a ocupá-lo em 1834, percorrendo o país para listar igrejas medievais em risco.

A Eva do portal norte foi encontrada em 1866, quando a casa onde servia de pedra foi demolida. Hoje está no Museu Rolin, em Autun.

A cabeça que voltou

A cabeça de Cristo foi a última peça a reaparecer. Em 1948, o padre Denis Grivot, cônego e estudioso da catedral, identificou entre as pedras guardadas no Museu Rolin uma cabeça que encaixava no pescoço da figura central. Ela foi recolocada no tímpano.

Grivot publicou em 1961, com o historiador inglês George Zarnecki, o livro Gislebertus, Sculptor of Autun (Gislebertus, escultor de Autun), que fotografou cada capitel e cada figura da catedral e fez do nome gravado sob os pés de Cristo um dos poucos escultores românicos conhecidos pelo público.

 

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III  Por Que Importa

A assinatura em disputa

Escultores românicos quase nunca assinavam. A obra era da igreja, do bispo, de Deus. Por esse detalhe, as três palavras sob os pés de Cristo viraram o centro da fama de Autun: um artista do século XII que pôs o nome no lugar mais visível da fachada.

Grivot e Zarnecki atribuíram a Gislebertus o tímpano, a Eva e boa parte dos capitéis (o bloco esculpido no alto das colunas) do interior. A leitura deles criou a figura de um mestre de oficina, com estilo próprio, que teria trabalhado em Autun por cerca de uma década.

Escultor ou benfeitor

Em 1999, a historiadora americana Linda Seidel, da Universidade de Chicago, publicou Legends in Limestone (Lendas em calcário). Ela propôs outra leitura da inscrição: Gislebertus podia ser o benfeitor que pagou o portal, não o homem do cinzel.

O argumento dela se apoia na posição da frase, no centro da cena, e no fato de que nenhum documento de Autun cita um escultor com aquele nome. Havia, porém, um conde Gislebertus na história da região, ligado às doações antigas à igreja.

Nenhuma prova fecha a questão. Não há contrato, recibo nem crônica que diga quem segurou a ferramenta. O que se sabe com certeza é só o que está gravado: um nome, um verbo e um pronome.

O que a cal ensinou

O caso de Autun virou exemplo em cursos de conservação: uma intervenção feita para esconder acabou servindo de proteção. O reboco não era tratamento de restauro, e quem o aplicou queria apagar a obra, não guardar.

A Revolução passou ao largo do tímpano porque ele estava invisível. Portais vizinhos na Borgonha, expostos, perderam rostos e mãos. Autun perdeu uma cabeça, e foi pela mão dos próprios cônegos.

A lição prática que os restauradores tiram do episódio vale até hoje: antes de remover qualquer camada posterior de uma obra, investigar o que está por baixo. Muitas pinturas e esculturas medievais foram achadas assim, sob cal, tinta ou madeira, em paredes que pareciam vazias.

O tímpano segue no lugar original, sobre a porta oeste da catedral, aberto a quem entra. Três anos depois da raspagem, em 1840, a catedral entrou na primeira lista oficial de monumentos históricos da França, a que Mérimée ajudou a montar.

Diante da parede reaberta, a escolha fica com quem olha: ler GISLEBERTUS HOC FECIT como a assinatura orgulhosa de um escultor que queria ser lembrado, ou como a marca de um benfeitor que pagou para ter o nome sob os pés do juiz. As duas leituras cabem nas mesmas três palavras.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem identificou a cabeça de Cristo entre as pedras do Museu Rolin, em 1948?

AProsper Mérimée
BÉtienne de Bâgé
CPadre Denis Grivot
DAbade Devoucoux

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