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ED 143

A Vênus de Urbino

Ticiano · 1538 · Óleo sobre tela

A Vênus de Urbino

A murta na janela e o cachorro adormecido

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Uma folha de papel de trapo dobrada em quatro, escrita com tinta ferrogálica e lacrada com cera, saiu de Camerino rumo a Veneza na primavera de 1538. Quem assinava tinha vinte e quatro anos, herdaria um ducado meses depois e estava sem dinheiro no bolso naquele mês. A carta pedia ao agente que segurasse o pintor na cidade até a encomenda ficar pronta.

Dentro da carta, a obra não tem nome. Ela aparece como la donna nuda, a mulher nua, sem título, sem deusa, sem programa mitológico, do jeito que alguém descreve um móvel que ainda não chegou. O mesmo remetente escreveu à mãe pedindo o dinheiro para pagar a peça, porque o cofre pessoal não cobria o preço.

O batismo veio depois da morte de todo mundo envolvido. O nome de deusa só aparece colado à tela num inventário da coleção familiar feito quase trinta anos mais tarde, quando ninguém mais precisava explicar ao pintor o que estava encomendando.

Três séculos e meio depois, um escritor americano de bigode entrou na sala do museu em Florença onde a tela estava pendurada, olhou para ela e ficou vermelho de raiva. Ele publicou em 1880 um livro de viagem em que classificou aquela superfície de pouco mais de um metro por um e meio como a pintura mais suja que o mundo possui, e reclamou que romances eram censurados enquanto aquilo ficava exposto para meninas de colégio.

Entre a carta de um rapaz sem dinheiro e a página furiosa de um turista vitoriano, a mesma tela mudou de estatuto três vezes: mercadoria doméstica, deusa de catálogo, escândalo público. Nenhuma dessas mudanças alterou um centímetro de pigmento.

Vale começar pelo que está pintado ali, na ordem em que o olho encontra as coisas, antes de qualquer história de encomenda.

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I  O Que Você Vê

A mão esquerda e o cachorro adormecido

Óleo sobre tela, cento e dezenove centímetros de altura por cento e sessenta e cinco de largura, um retângulo deitado que na parede fica quase na altura dos olhos de quem passa.

Uma mulher jovem ocupa a diagonal inteira do quadro, deitada de costas sobre lençóis brancos amassados que cobrem um colchão vermelho escuro. Os pés apontam para a direita, a cabeça repousa em dois travesseiros à esquerda, e o corpo faz uma curva longa que atravessa o pano de ponta a ponta.

Ela olha para fora. A cabeça está levemente inclinada, o queixo baixo, e o eixo dos olhos sai da tela e encontra quem está de pé diante dela, sem susto e sem convite declarado.

O cabelo castanho dourado desce solto pelo ombro direito e escorre até o peito. Na orelha há um brinco de pérola em gota, no pulso direito uma pulseira fina, e num dedo da mão esquerda um anel discreto de aro liso.

A mão direita segura um pequeno buquê de rosas, quatro botões abertos, apoiado sobre o quadril. A mão esquerda repousa sobre o colo, dedos entreabertos, cobrindo o sexo sem esconder que está ali de propósito.

Aos pés dela, enrolado no lençol, dorme um cachorrinho de pelo branco e marrom, focinho enfiado entre as patas. O bicho não vigia nada e ninguém o acordou.

O fundo é cortado ao meio por uma cortina verde escura, pendurada na vertical, que fecha a metade esquerda e deixa a direita aberta para outro cômodo.

Nessa metade aberta, o piso vira ladrilho de mármore em quadrados claros e escuros e a perspectiva recua uns bons metros. Duas criadas trabalham em torno de uma arca de casamento entalhada, dessas que guardavam o enxoval da noiva.

Uma delas está ajoelhada com o tronco enfiado dentro da arca, procurando alguma peça no fundo. A outra, de pé, carrega um vestido pesado dobrado sobre o ombro e olha para baixo, para a companheira.

Mais ao fundo, uma coluna divide uma janela. No parapeito, um vaso com um arbusto de murta recorta o céu do fim de tarde, com nuvem baixa e luz alaranjada.

A luz principal entra pela esquerda e cai inteira sobre a pele. O corpo é a única superfície clara e contínua do quadro, e ele brilha contra o vermelho do colchão, o verde da cortina e o marrom da penumbra.

Não há nuvem, concha, cupido, arco ou qualquer sinal de céu mitológico. A cena inteira acontece num quarto de casa rica de Veneza, com serviço doméstico funcionando ao fundo enquanto a dona da casa está deitada na frente.

Para o duque de Urbino pintou uma Vênus jovem, deitada, com flores e panos finos ao redor.

Giorgio Vasari, Vidas dos Artistas, 1568

 
 

II  A História Por Trás

A carta que pedia a mulher nua

O comprador nasceu em 1514 e era filho do duque de Urbino. Em 1538 ele governava Camerino pelo casamento e ainda dependia da renda da família, situação que aparece nas próprias cartas dele quando fala em pagar o pintor.

O casamento tinha sido acertado quando a noiva era criança. Ela nasceu em 1523, foi prometida aos dez anos e em 1538 tinha quinze, idade em que já administrava a casa de um marido de vinte e quatro.

O pintor tinha cerca de cinquenta anos e era o retratista mais disputado da Europa. Ele trabalhava em Veneza, atendia imperador, papa e duques, e cobrava conforme a fila de espera na porta do ateliê.

As cartas de março de 1538 são o documento central. O jovem duque escreve ao agente da família em Veneza pedindo que o mestre não deixe a cidade antes de terminar duas peças, e uma delas é descrita apenas como a mulher nua.

O dinheiro atrasou. O mesmo remetente escreve à mãe pedindo a quantia para quitar a encomenda e cogita empenhar peças para levantar o valor, o que mostra que a compra foi vontade pessoal, não despesa de Estado.

A obra também tem uma avó. Por volta de 1510, um pintor veneziano morreu deixando inacabada uma tela com uma mulher nua adormecida numa paisagem aberta, e coube ao autor da nossa tela terminar o céu e o pano daquele quadro, hoje em Dresden.

Vinte e oito anos depois, o mesmo homem repetiu a pose e mudou tudo ao redor. A mulher saiu do campo aberto e entrou num quarto com piso, cortina e criadagem, fechou os pés no lençol e abriu os olhos para quem olha.

Os objetos do fundo têm função de contrato. Arcas de enxoval, murta e cachorro pertencem ao vocabulário do casamento italiano do século XVI: a planta é atributo de Vênus e sinal de amor duradouro, o cão fica pelo hábito de representar fidelidade doméstica, e o enxoval é o dote saindo da arca.

As rosas trabalham do mesmo lado. Flor de Vênus, colhida e já aberta, entregue na mão de uma mulher deitada num quarto de núpcias, funciona como assinatura do tema conjugal sem precisar de nenhuma inscrição.

A identidade da modelo nunca foi documentada. Não há contrato, recibo ou carta que nomeie quem posou, e as tentativas de reconhecer ali a esposa adolescente do comprador esbarram na idade e na ausência de qualquer registro.

O batismo mitológico chegou por inventário. Numa listagem da coleção ducal feita em 1567, a tela aparece com o nome da deusa, e o rótulo pegou: a partir dali catálogos, guias e gravuras repetiram Vênus, apagando a mulher nua sem título das cartas.

O percurso físico terminou em Florença. A herdeira da família levou a coleção para a corte dos Médici no início do século XVIII, e a tela está pendurada na galeria que ocupa o antigo prédio de escritórios do governo da cidade.

Não deixe o mestre partir de Veneza antes que a mulher nua esteja acabada.

Guidobaldo della Rovere, carta ao agente em Veneza, 1538

 
 

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III  Por Que Importa

O escândalo que Twain assinou em 1880

Importa porque a tela documenta o mercado, e não só o gosto. Uma carta apressada, um pedido de dinheiro à mãe e um apelido cru provam que obras que hoje sustentam a história da arte nasceram como encomenda particular de gente jovem e endividada.

Importa porque o título é uma camada posterior. O nome de deusa foi colado décadas depois, por escrivão de inventário, e desde então empurra a leitura para a mitologia quando o documento original falava de um corpo dentro de um quarto.

Importa pelo olhar frontal. A modelo devolve o olhar de quem a observa, e essa escolha tira o público do papel confortável de quem espia sem ser notado, um mecanismo que a pintura europeia levaria séculos para explorar de novo.

Importa pelo cenário doméstico. O quarto, o piso de mármore, as criadas e a arca de enxoval instalam a nudez numa casa concreta, com serviço funcionando ao fundo, e não num Olimpo que dispensaria explicação moral.

Importa pela descendência direta. Um pintor francês copiou essa tela no museu de Florença em meados do século XIX e, em 1863, remontou a mesma pose com uma criada negra, um gato preto e uma modelo parisiense, provocando o maior escândalo de sala de exposição do século.

Importa pela reação vitoriana. O escritor americano que a atacou em 1880 não estava sozinho: algumas reproduções da época circulavam com o corpo coberto por um lençol acrescentado na gravura.

Importa pelo argumento que a fúria escondia. O mesmo autor reclamava que romances eram cortados pela censura enquanto a pintura passava livre, e a queixa expõe a régua dupla que a cultura aplicava a texto e a imagem.

Importa pela permanência da pose. Corpo deitado na diagonal, cabeça à esquerda, um braço sustentando, a mão sobre o colo: esse arranjo virou molde e reaparece em pintura, fotografia publicitária e capa de revista até hoje.

Importa pela leitura conjugal que quase sumiu. A murta, o cachorro adormecido e as arcas de casamento apontam para uma peça sobre matrimônio, encomendada por um recém casado, e essa camada foi soterrada pela fama de escândalo.

Importa por como se olha para a pintura de nu hoje. Saber o preço, o comprador, a idade dele e o apelido usado na carta transforma a tela num objeto com dono e data, e o visitante para de ver uma deusa e passa a ver uma transação com pincel.

A pintura mais suja, mais vil e mais obscena que o mundo possui.

Mark Twain, A Tramp Abroad, 1880

Diante do quadro, dá para sustentar duas leituras com a mesma evidência na parede. Chamar a cena de retrato de casamento, com a murta na janela, o cão dormindo e o enxoval saindo da arca, ou chamar de encomenda de quarto de um rapaz de vinte e quatro anos que pedia a mulher nua pelo correio e pagou com dinheiro da mãe. As duas leituras cabem inteiras dentro do mesmo pano vermelho.

 
 
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No texto, como o duque de Urbino se referia à tela nas cartas de março de 1538, ao pedir que o agente segurasse o pintor em Veneza?

AA Vênus reclinada
BO retrato da esposa
CA mulher nua
DA deusa do amor

Resultado da última edição: 71% acertaram.

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