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Teodora em San Vitale, a igreja que ela nunca visitou

Mosaicistas bizantinos, Teodora e sua corte, 547, Basílica de San Vitale, Ravena

Mosaico de San Vitale: o imperador Justiniano de coroa e auréola dourada, com manto roxo preso por um broche no ombro

Justiniano, detalhe do mosaico de San Vitale, 547

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Um cálice de ouro do tamanho de um palmo, montado com tesselas (cubinhos de vidro e pedra) de menos de um centímetro cada. Ele prova que a mulher que o segura sabia exatamente como queria ser vista, mesmo de muito longe.

O cálice está nas mãos de Teodora, imperatriz de Bizâncio, num mosaico da Basílica de San Vitale, em Ravena, no norte da Itália. A igreja foi consagrada em 547 pelo bispo Maximiano, e o painel ocupa uma das paredes da abside (o recuo semicircular atrás do altar). Quem assentou as peças não assinou: é obra de mosaicistas anônimos, provavelmente formados nas oficinas de Constantinopla.

Teodora nunca esteve em Ravena. Nenhum documento registra a viagem, nem dela nem do marido, o imperador Justiniano, que aparece na parede em frente segurando uma bandeja de ouro com pão. Os dois governavam de Constantinopla, a semanas de viagem por mar.

Ravena tinha voltado às mãos do império em 540, quando o general Belisário tomou a cidade dos godos. O mosaico chegou sete anos mais tarde como presença substituta: a corte que não vinha mandava o retrato, e o retrato ficava no ponto mais visível da igreja.

Na barra do manto roxo da imperatriz, bordados em ouro, caminham três homens carregando presentes. São os reis magos, os que levaram ouro, incenso e mirra ao menino Jesus. Ela leva um cálice ao altar, e o manto lembra a quem olha que outros já levaram presentes a Deus antes dela.

Atrás do brilho há uma biografia que os cronistas da época trataram com desprezo: filha de um tratador de ursos, atriz antes de imperatriz. O painel apaga essa história e põe outra no lugar. A primeira parte da edição lê a parede peça por peça.

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I  O Que Você Vê

Uma imperatriz sob a concha

Teodora está no centro do painel, de frente, mais alta que todas as figuras ao lado. Atrás da cabeça, um nimbo (auréola) dourado contorna o rosto, o mesmo sinal que o mosaico dá aos santos.

A coroa é um aro de ouro cravejado de pedras, e dela descem pingentes curtos de pérolas ao lado do rosto. No ombro, um broche grande prende o manto, com uma pedra vermelha no centro, pérolas em volta e três pingentes em forma de gota.

Acima dela, só o fundo de tesselas douradas, assentadas em arcos que acompanham a auréola. O círculo separa a cabeça do resto da cena e funciona como uma moldura dentro da moldura.

O cálice nas duas mãos

Ela segura o cálice com as duas mãos, à frente do corpo, como quem está a caminho. A taça é de ouro, larga, com pedras na borda. O olhar não vai para o cálice: os olhos grandes encaram quem está diante da parede.

O objeto tem função na missa. É nesse tipo de taça que vai o vinho da comunhão. Na parede em frente, Justiniano segura a patena (bandeja do pão consagrado). Os dois painéis formam a procissão da oferta: o pão numa parede da abside, o vinho na outra.

Os magos na barra

O manto é roxo, a cor reservada à família imperial. Na barra, sobre fundo dourado, três figuras de túnica curta avançam inclinadas, cada uma com um presente nas mãos. São os magos do Evangelho de Mateus, vestidos à moda persa, com calças coloridas.

O bordado liga duas cenas. Os magos levaram presentes a Cristo; Teodora leva o cálice à igreja. A roupa diz em que papel ela se coloca.

A corte em volta

À esquerda de quem olha estão dois homens de túnica branca. O mais próximo da borda afasta uma cortina pendurada numa porta, como se abrisse passagem para a imperatriz. Logo abaixo, uma pequena fonte jorra água de uma coluna.

À direita de quem olha, sete mulheres em fila. As duas mais próximas de Teodora vestem mantos de estampa rica e véu sobre a cabeça; as outras repetem padrões de flores e losangos. Nenhuma delas tem identificação escrita no mosaico.

O fundo é verde embaixo e dourado em cima. Não há horizonte, sombra nem profundidade: as figuras parecem flutuar num plano de ouro, como em quase todo mosaico bizantino do século VI.

 
 

II  A História Por Trás

Da arquibancada ao trono

Teodora nasceu por volta de 497. O pai, Acácio, cuidava dos ursos da facção Verde no Hipódromo de Constantinopla (o estádio das corridas de biga). Quando ele morreu, a mãe levou as filhas pequenas à arena para pedir proteção. Os Verdes recusaram; a facção rival, os Azuis, acolheu a família.

Quase tudo que se sabe da juventude dela vem de uma fonte só: a História Secreta, de Procópio de Cesareia, escrita por volta de 550 e só publicada séculos mais tarde. Procópio era secretário de Belisário e detestava a imperatriz. Ele a descreve como atriz e prostituta, com detalhes que os historiadores leem com cautela.

Justiniano a conheceu quando ainda era sobrinho e herdeiro do imperador Justino. A lei proibia homens de posição senatorial de casar com atrizes. Justino mudou a lei por volta de 524, o casamento saiu logo em seguida e, em 527, os dois subiram juntos ao trono.

A frase da revolta

Em janeiro de 532, a revolta de Nika (do grego “vence”, o grito das torcidas no Hipódromo) incendiou boa parte de Constantinopla. Justiniano tinha navios prontos para fugir. Segundo Procópio, Teodora se levantou no conselho e recusou a fuga.

“A realeza é uma boa mortalha”, escreve Procópio, pondo a frase na boca dela, na História das Guerras, livro I, publicada por volta de 551. Mortalha é o pano que envolve o corpo no enterro: ela preferia acabar no trono a viver exilada. Justiniano ficou, e Belisário esmagou a revolta dentro do próprio Hipódromo.

Quem pagou a igreja

San Vitale foi começada pelo bispo Eclésio por volta de 526, quando Ravena ainda era a capital dos ostrogodos, o povo germânico que governava a Itália. O dinheiro veio de Juliano Argentário (argentarius, em latim, quer dizer banqueiro).

O cronista Agnelo de Ravena, no Liber Pontificalis (Livro dos Bispos), do século IX, anotou o custo da obra: 26 mil sólidos de ouro. A construção terminou sob o bispo Maximiano, homem de confiança de Justiniano, e os retratos imperiais são dessa fase final, com a cidade já bizantina.

Um ano de mosaico

Teodora morreu em 28 de junho de 548, em Constantinopla, cerca de um ano após a consagração da igreja. O bispo e cronista Vítor de Tununa registrou a causa: um câncer que tomou o corpo inteiro. Ela não viu o painel, nem por desenho, segundo tudo que os documentos guardam.

Justiniano governou sem ela até 565 e não se casou outra vez.

O mosaico sobreviveu à imperatriz e também às guerras que vieram. Ravena passou aos lombardos em 751, depois ao papado e a Veneza, e nenhum dos novos donos arrancou o casal imperial da abside.

 

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III  Por Que Importa

O retrato que governa à distância

O painel de San Vitale é o único retrato de Teodora feito em vida que se identifica sem dúvida. Uma cabeça de mármore guardada no Castello Sforzesco, em Milão, é atribuída a ela, mas os especialistas não chegaram a acordo sobre a identificação.

Em Bizâncio, a imagem do soberano valia por ele. Retratos imperiais chegavam às cidades das províncias e eram recebidos com velas e incenso. Em Ravena, o casal ausente ficou ao lado do altar, presente em cada missa, diante do bispo, do clero e dos fiéis.

A leitura do bordado

Nenhum texto da época explica por que os magos foram parar no manto. A leitura mais aceita vem da própria imagem: o bordado põe a oferta de Teodora na linha das ofertas sagradas, e a imperatriz aparece como doadora da igreja, papel que ela de fato cumpria em Constantinopla, onde financiou mosteiros e hospícios.

A auréola soma ao recado. Não declara Teodora santa; marca o poder que, para a corte bizantina, vinha de Deus. Justiniano tem o mesmo círculo dourado na parede em frente.

As mulheres da fila não ganharam nome. Há estudiosos que veem nas duas mais próximas Antonina, esposa de Belisário, e a filha dela, Joanina, mas nenhuma inscrição confirma, e a identidade das sete segue desconhecida.

O que a imagem cala

A Teodora do mosaico não tem passado. Não há Hipódromo, nem palco, nem a facção dos Azuis. A atriz de Procópio desaparece e no lugar dela fica a imperatriz coroada, de manto roxo, com a corte em fila.

O painel também cala uma briga religiosa. Teodora apoiava os miafisitas (cristãos que defendiam uma só natureza em Cristo, divina e humana unidas), condenados pela Igreja oficial do marido. Ela chegou a abrigar monges perseguidos dentro do palácio de Hormisdas, em Constantinopla. Nada disso aparece na parede.

Ravena hoje

Em 1996, a UNESCO pôs oito monumentos cristãos antigos de Ravena na lista do Patrimônio Mundial, San Vitale entre eles. As tesselas douradas têm uma folha de ouro presa entre duas camadas de vidro. Assentadas em ângulos levemente diferentes, refletem a luz de forma desigual, e o fundo do painel cintila quando o visitante caminha pela nave.

Diante do cálice, a escolha fica com quem olha: ver na parede o retrato fiel de uma mulher que mandava de fato em Constantinopla, ou uma peça de propaganda feita para uma cidade recém-conquistada, por uma corte que nunca entrou ali. As duas leituras estão no mesmo mosaico.

 
 

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