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Esta pauta venceu a urna de 21/09.
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Uma faixa de linho que só anda para a direita
Bordado anônimo, por volta de 1070 · Lã sobre linho, 68 metros
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A conquista normanda de 1066, bordada em lã
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Uma tira de linho cru com cerca de 50 centímetros de altura e quase 70 metros de comprimento, montada com nove peças de pano costuradas ponta com ponta. O Museu da Tapeçaria de Bayeux, na Normandia, registra 68,38 metros, e a peça ocupa ali uma vitrine comprida em forma de ferradura, numa sala mantida na penumbra.
A peça se chama Tapeçaria de Bayeux, e o título engana. Tapeçaria é tecido feito no tear, com o desenho nascendo da própria trama dos fios. Aqui a imagem foi posta depois, com agulha e lã tingida, por cima de um pano que já estava pronto. Tecnicamente, trata-se de um bordado.
A lã aparece em poucas cores: terracota, amarelo mostarda, alguns verdes, um azul bem escuro e um azul claro acinzentado. Nenhum fio de ouro, nenhuma seda. O fundo de linho ficou exposto na maior parte da superfície, e é ele que faz o papel de céu, de chão e de mar.
O assunto é a conquista normanda da Inglaterra. Guilherme, duque da Normandia, atravessa o Canal da Mancha com uma frota, enfrenta Haroldo Godwinson, rei dos ingleses, perto de Hastings, e fica com a coroa. A peça conta os dois anos que levaram até essa batalha e a própria batalha, cena por cena, como uma tira de quadrinhos sem os quadros.
Quem desenrola a faixa lê da esquerda para a direita, nunca ao contrário. Barcos, cavalos e exércitos seguem essa direção quase sem exceção, e o olho de quem acompanha a vitrine anda com eles.
Ninguém assinou o trabalho, e nenhum documento da época registra quem bordou. A data também é estimada: os historiadores situam a execução pouco depois de 1066, provavelmente antes de 1077.
Primeiro a superfície: como a lã foi presa no linho, o que corre nas margens e como as letras se misturam às figuras.
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I O Que Você Vê
Lã deitada, bichos nas margens, letras sobre as cabeças
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A faixa se divide em três andares. No meio, mais alta, corre a história principal. Em cima e embaixo, duas margens estreitas, separadas da cena por linhas finas bordadas, carregam uma procissão própria de figuras.
As figuras do andar central são desenhadas por contorno. Um fio mais escuro marca o perfil de um rosto, a curva de um escudo ou a borda de uma vela, e o interior é preenchido com lã de outra cor. Os rostos quase não têm preenchimento: ficam no linho claro, com olho, nariz e boca feitos só de linha.
O preenchimento usa uma técnica chamada couchure, palavra francesa para o ponto de fios deitados. A bordadeira estende fios de lã lado a lado, rentes, e depois os prende com pontos curtos que atravessam essa camada em intervalos regulares. O resultado é uma superfície de listras finas, com relevo leve, que pega luz de forma diferente do linho em volta.
A cor não segue a natureza. Um cavalo pode ter o corpo azul e as pernas do lado de lá em terracota, porque a troca de cor serve para separar a pata da frente da pata de trás, e não para imitar o pelo do animal. Um cabelo pode ser verde. O código é de leitura, não de retrato.
Os barcos aparecem de perfil, com casco curvo, proa e popa altas terminando às vezes em cabeça de animal, e velas listradas em duas cores. Os homens de armas usam cota de malha, uma túnica de argolas de ferro, que o bordado indica com um padrão de pequenos círculos, capacete cônico com uma barra descendo sobre o nariz e escudo comprido em forma de gota invertida.
As cenas não têm moldura. O que separa um episódio do seguinte é quase sempre uma árvore estilizada, com galhos que se enrolam como fita, ou a fachada de um prédio visto de lado.
Acima das cabeças correm letras em latim, bordadas em lã escura, em maiúsculas. São os tituli (legendas explicativas), frases curtas que dizem quem é quem e o que acontece. Uma delas, perto de um grupo de homens apontando para o céu, diz ISTI MIRANT STELLA, que significa "estes admiram a estrela". Acima deles aparece a estrela: um corpo com rastro de chamas, o cometa que passou pelo céu europeu na primavera de 1066 e que hoje se identifica como o cometa Halley.
As margens têm vida própria. Na maior parte da faixa, leões, grifos (bichos com corpo de leão e cabeça de águia), aves e cães aparecem aos pares, separados por barras diagonais. Algumas cenas trazem ilustrações de fábulas antigas, como a raposa e o corvo. Na parte da batalha, a margem de baixo deixa de ser decoração: enche-se de corpos caídos, escudos largados e homens tirando a cota de malha de quem ficou no chão.
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II A História Por Trás
Um bispo, um juramento e agulhas inglesas
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A história que a faixa conta começa antes da guerra. Eduardo, o Confessor, rei da Inglaterra, sem filhos, aparece no trono conversando com Haroldo Godwinson, o homem mais poderoso do reino depois dele. Em seguida Haroldo embarca para o continente, e o vento o joga na costa de Ponthieu, onde é capturado pelo conde local.
Guilherme da Normandia manda buscar o prisioneiro, recebe Haroldo como convidado e o leva numa campanha militar na Bretanha. A cena seguinte é o centro político da obra: Haroldo, com as duas mãos estendidas, toca dois relicários (caixas que guardavam restos de santos) e faz um juramento a Guilherme. O bordado não escreve o conteúdo do juramento. A versão normanda, registrada por Guilherme de Poitiers na Gesta Guillelmi, por volta de 1071, diz que ele prometeu apoiar Guilherme como herdeiro da coroa inglesa.
Eduardo sai de cena em janeiro de 1066, e Haroldo é coroado logo depois. Para os normandos, um perjuro (quem quebra juramento feito sobre objeto sagrado) tinha tomado o trono. O cometa surge nessa altura, anunciando desgraça. Guilherme manda derrubar árvores, construir barcos, carregar cavalos, vinho e armas, e atravessa o canal.
A batalha, travada em 14 de outubro daquele ano perto de Hastings, ocupa a parte final da faixa. Cavaleiros normandos atacam uma parede de escudos inglesa, e a inscrição mais citada da peça aparece sobre um grupo de guerreiros: HIC HAROLD REX INTERFECTUS EST, "aqui o rei Haroldo foi abatido". Sob a palavra Harold, um homem segura uma flecha perto do olho. Logo ao lado, outro cai golpeado por uma espada.
Qual dos dois é Haroldo continua em aberto, e a razão é concreta. A flecha passou por restaurações no século 19, e desenhos feitos antes delas mostram a haste em posição diferente. Os historiadores ainda discordam se a legenda aponta para um homem, para o outro ou para os dois momentos da mesma queda.
Quem encomendou a obra tem resposta mais firme. Odo, bispo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme e depois conde de Kent, aparece bordado três vezes e com nome, o que é raro para um personagem secundário. A catedral de Bayeux, que ele reconstruiu, foi consagrada em 1077, e a hipótese mais aceita é que a faixa foi feita para aquela nave.
Quem costurou, porém, segue sem registro. A grafia de alguns nomes nas legendas segue o inglês antigo, e os desenhos lembram manuscritos iluminados de Cantuária, que ficava no condado de Odo. Daí a maior parte dos estudiosos aposta em bordadeiras inglesas. Nenhum contrato, recibo ou nome de oficina sobreviveu para confirmar.
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