|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
Esta pauta venceu a urna de 29/09.
|
O livro de 258 pinturas desmontado folha por folha
Sultan Muhammad, A Festa de Sada, Shahnameh de Shah Tahmasp, Tabriz, c. 1525
|
A Festa de Sada, Sultan Muhammad, c. 1525
|
| ▼ |
|
|
|
|
Em 1994, no aeroporto de Viena, duas cargas trocaram de mão. De um lado vinha uma pintura moderna americana, uma mulher de pinceladas violentas. Do outro, caixas com folhas de um livro persa de quatro séculos e meio.
A tela era Woman III, pintada por Willem de Kooning em 1953. As folhas eram 118 pinturas do Shahnameh de Shah Tahmasp, o exemplar mais luxuoso já feito do Livro dos Reis, o poema épico nacional do Irã.
Os dois lados vinham de lugares que mal conversavam. O governo iraniano não mantinha relações diplomáticas com os Estados Unidos desde 1980. O intermediário era um marchand, e a troca só aconteceu em território neutro, com cada parte conferindo a mercadoria antes de soltar a sua.
Para entender por que um país inteiro topou abrir mão de um De Kooning, é preciso saber o que era aquele livro. Ele nasceu na corte de Tabriz, na década de 1520, e ocupou por anos os melhores pintores de um império.
O resultado tinha 759 folhas, 258 pinturas e uma encadernação à altura de um presente de Estado. Durante quatro séculos, ficou inteiro. Passou por um sultão otomano, por uma biblioteca em Istambul e pela família Rothschild, em Paris.
Em 1959, foi parar nas mãos de um americano. Em menos de duas décadas, ele cortou o volume em páginas soltas, doou uma parte a um museu e vendeu outras em leilão, uma a uma, para compradores espalhados pelo mundo.
Hoje, uma pintura do livro pode estar num museu de Nova York, outra numa coleção particular em Genebra e outra num cofre de Teerã. Nenhuma biblioteca guarda o volume completo, e ninguém espera ver o livro reunido de novo.
O caminho para entender a perda começa por uma folha só, que ficou em Nova York e que qualquer pessoa pode ver hoje na tela do celular.
Continue lendo ↓
|
|
I O Que Você Vê
O fogo no meio da corte
|
|
A Festa de Sada, pintada por Sultan Muhammad em Tabriz na década de 1520, é a folha 22v do Shahnameh de Shah Tahmasp. Ela está no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que a recebeu em 1970 e hoje a publica em acesso aberto.
A página mostra uma fogueira acesa perto do centro da composição. As chamas sobem em línguas alaranjadas e douradas contra um fundo de pedra e vegetação.
Em torno do fogo, dezenas de figuras pequenas ocupam a folha inteira. Há homens de turbante, de pé e sentados, e um personagem com coroa que se destaca pelo lugar que ocupa na cena.
A cena do poema
O episódio vem do próprio Shahnameh. O rei Hushang, um dos primeiros soberanos da história mítica do Irã, atira uma pedra contra uma serpente. A pedra erra o bicho, bate em outra rocha e solta uma faísca.
Da faísca nasce o fogo. Hushang manda festejar a descoberta, e a festa ganha nome: Sada, a celebração do fogo que os iranianos mantinham no inverno desde antes do islã.
O poema foi escrito por Abolqasem Ferdowsi, que o terminou em 1010, depois de três décadas de trabalho. São cerca de 50 mil dísticos (pares de versos) que contam a história do Irã desde o primeiro rei até a conquista árabe.
Cor que não se lava
A paleta da folha é densa. O céu recebe azul e ouro, as rochas vêm em tons de rosa, lilás e ocre, e as roupas das figuras variam entre vermelho, verde e branco.
Os pigmentos eram minerais moídos à mão. O azul intenso vinha do lápis-lazúli, pedra trazida das montanhas do atual Afeganistão, e o ouro era aplicado em folha ou em pó misturado a goma.
A escala engana. A página inteira cabe numa mesa de leitura, e os rostos das figuras são tão pequenos que a expressão de cada um só aparece de perto. O pintor trabalhava com pincéis finíssimos, de poucos fios, e lupa nenhuma.
Na imagem, nada fica vazio. Onde não há gente, há pedra pintada em camadas, arbustos e pequenos detalhes que pedem uma segunda olhada. A regra da pintura persa da corte era encher a página até a borda, e Sultan Muhammad seguia a regra com gosto.
Quem abria o livro não via a folha na parede de um museu. Via-a no colo, virando página por página, com o texto do poema escrito em caligrafia no bloco abaixo da cena e no quadro que interrompe a pintura no alto.
|
|
II A História Por Trás
De Tabriz a um leilão em Londres
|
|
O livro foi encomendado pela dinastia safávida, que governava o Irã desde 1501. O fundador, Shah Ismail I, queria um Shahnameh digno da corte. O filho, Tahmasp, subiu ao trono em 1524, ainda menino, e herdou o projeto.
Tahmasp tinha estudado pintura na juventude. Na corte de Tabriz, reuniu os melhores artistas do reino: Sultan Muhammad, Mir Musavvir, Aqa Mirak, Dust Muhammad e dezenas de assistentes que preparavam papel, pigmento e ouro.
O elogio de um pintor
Um desses artistas deixou por escrito o que achava do trabalho do colega. É o registro mais antigo sobre a obra.
"Embora tenha mil olhos, o céu não viu nada igual." (Dust Muhammad, prefácio do álbum de Bahram Mirza, 1544, sobre a pintura A Corte de Gayumars, de Sultan Muhammad)
O entusiasmo durou pouco. Nas décadas seguintes, Tahmasp se voltou para a religião, perdeu o interesse pela pintura e dispensou parte dos artistas, que foram trabalhar na Índia, na corte do imperador mogol Humayun.
Em 1568, o xá mandou o livro como presente ao sultão otomano Selim II, em Istambul, junto com outros tesouros, para selar a paz entre os dois impérios. O volume ficou na biblioteca imperial otomana por mais de três séculos.
O colecionador americano
No começo do século 20, o livro apareceu na coleção do barão Edmond de Rothschild, em Paris. Como ele saiu de Istambul é uma lacuna: nenhum documento conhecido registra a data nem o vendedor.
Em 1959, o americano Arthur Houghton Jr., herdeiro da fábrica de vidros Corning e colecionador de livros raros, comprou o volume inteiro. Em 1970, doou 78 folhas ao Metropolitan, onde presidia o conselho de curadores.
O resto ele vendeu aos poucos. A partir de 1976, casas de leilão em Londres ofereceram pinturas avulsas, e cada página seguiu para um dono diferente. Houghton alegou que pagava impostos altos sobre a coleção e que o livro inteiro não tinha comprador.
Os historiadores Stuart Cary Welch e Martin Dickson, da Universidade Harvard, publicaram em 1981 o catálogo completo, The Houghton Shahnameh (O Shahnameh de Houghton), com fotografias de todas as páginas. O estudo registrou o livro inteiro justo quando ele deixava de existir como livro.
|
|