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Sarcófago dos Esposos: a mulher no banquete

Sarcófago dos Esposos, cerca de 520 a.C., terracota pintada, Cerveteri, Museu do Louvre, Paris

Casal etrusco de terracota reclinado num leito de banquete, tampa do Sarcófago dos Esposos do Museu do Louvre, em Paris

Sarcófago dos Esposos, Cerveteri, cerca de 520 a.C.

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Uma tampa de barro cozido com cerca de 1,9 metro de comprimento, moldada em duas metades e pintada depois do forno. Em cima dela, um homem e uma mulher estão deitados lado a lado no mesmo leito, apoiados no cotovelo, e a mulher está na frente.

A peça foi feita por volta de 520 antes de Cristo em Cerveteri, cidade etrusca a cerca de 45 quilômetros de Roma, que os gregos chamavam de Agylla e os romanos de Caere. Os etruscos ocupavam a região entre os rios Arno e Tibre, no centro da Itália, séculos antes de Roma mandar na península.

O objeto é um sarcófago, mas provavelmente nunca guardou um corpo inteiro. O espaço oco da caixa serviria para as cinzas de um morto cremado, segundo a leitura mais aceita pelos arqueólogos que o estudaram.

O casal reclina como os convidados de um banquete. Era a postura dos ricos à mesa no Mediterrâneo daquele tempo: deitado sobre almofadas, o peso no braço esquerdo, a mão livre para o copo, a comida e o gesto.

Na Grécia da mesma época, a mulher casada não se deitava ali. Quem reclinava ao lado dos homens no simpósio (a rodada de vinho depois do jantar) eram as hetairas, acompanhantes pagas, e as tocadoras de flauta.

Em Cerveteri, o escultor pôs a esposa no mesmo colchão do marido, na mesma altura, com o mesmo sorriso e as mãos tão ocupadas quanto as dele. O braço do homem passa por trás das costas dela.

As mãos dos dois seguram o ar. Os objetos que elas apertavam se perderam, e a explicação mais repetida para o gesto da mulher é um frasco de perfume, que ela verteria na palma do companheiro.

Há dois sarcófagos quase gêmeos, um em Roma e outro no Louvre, em Paris. A imagem desta edição é a do Louvre, e é nela que vale começar.

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I  O Que Você Vê

Dois rostos sobre a mesma almofada

A resposta de ontem

O que María disse ao pai ao ver os bisões, em 1879?

Ela disse "Mira, papá, bueyes", que quer dizer "Olha, papai, bois". A frase vem do relato da família Sautuola, repetido por Henri Breuil e pelo Museu Nacional de Altamira: aos 8 anos, María confundiu os bisões com o gado da Cantábria, e o pai, que olhava o chão atrás de ossos, só então levantou a lamparina.

Na imagem, a mulher ocupa a frente do leito, com o tronco erguido e o rosto voltado para quem olha. O homem fica atrás, um pouco mais alto, com o peito nu e o braço por trás dos ombros dela.

Os dois têm olhos amendoados, maçãs do rosto altas e um sorriso fechado nos cantos da boca. Os historiadores da arte chamam essa expressão de sorriso arcaico, a mesma das estátuas gregas do século 6 antes de Cristo.

Ela usa um gorro alto e arredondado, o tutulus (o barrete cônico das etruscas de família rica), e duas tranças compridas descem sobre o peito. Ele tem barba pontuda e o cabelo também cai em mechas pelos ombros.

O barro e a cor

Toda a peça é de terracota, a argila cozida no forno. A cor que sobra na superfície é pouca e gasta, mas a diferença entre os dois ainda aparece: a pele dele puxa para o vermelho, a dela é mais clara.

A convenção vinha do Egito e da Grécia. Homem trabalhava ao sol e se pintava escuro; mulher ficava em casa e se pintava pálida. O escultor de Cerveteri seguiu a regra das cores e quebrou a regra dos lugares.

O colchão e as pernas

O leito tem um colchão grosso, dobrado na ponta como uma almofada, e as pernas dos dois somem debaixo de um pano. Nos pés da mulher aparecem sapatos de bico virado para cima, os calcei repandi (calçados de ponta revirada), moda da Etrúria naquele século.

Os corpos não seguem a anatomia. Da cintura para baixo, eles achatam e quase desaparecem, enquanto as cabeças, os ombros e as mãos ganham todo o volume. O artista queria o rosto e o gesto, e economizou no resto.

As mãos vazias

A mão da mulher que fica mais à frente está curvada, com os dedos fechados em concha. Do lado do homem, a mão aberta se estende como se fosse receber alguma coisa.

Nenhuma das duas segura nada hoje. Os arqueólogos propõem um alabastro (frasco estreito para óleo perfumado), um ovo, uma romã ou um pão. Nos dois exemplares, o de Roma e o de Paris, o objeto se perdeu, e o gesto só se interpreta, sem prova.

 
 

II  A História Por Trás

Quatrocentos pedaços em Banditaccia

O sarcófago de Roma saiu da terra em 1881, na necrópole da Banditaccia, o grande cemitério de Cerveteri, onde os túmulos foram cavados na rocha e cobertos por montes de terra redondos.

Ele estava partido em cerca de 400 fragmentos, segundo o registro do Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia, que o recebeu e o remontou. Mede cerca de 1,14 metro de altura por 1,90 de comprimento.

O gêmeo do Louvre, o da imagem desta edição, tem história diferente. O marquês Giampietro Campana, colecionador e diretor do monte de penhores de Roma, escavou em Cerveteri na década de 1840 e achou um segundo casal quase idêntico, também quebrado.

Campana foi preso em 1857 por desviar dinheiro do banco para pagar a coleção. O governo do papa leiloou as peças, e Napoleão III comprou boa fatia delas em 1861. O sarcófago entrou no Louvre e está lá desde então.

A oficina de Cerveteri

Os dois sarcófagos saíram provavelmente da mesma oficina, com o mesmo molde para os rostos e mãos refeitas à mão em cada cópia. A argila foi cortada ao meio antes do forno, porque nenhum forno da época cabia uma peça daquele tamanho inteira.

O estilo mostra de onde vinha o ofício. Artesãos da Jônia, a costa grega da atual Turquia, fugiram para a Itália depois da conquista persa, no século 6 antes de Cristo, e trouxeram o sorriso, os olhos e as tranças.

O escândalo dos gregos

O banquete etrusco com esposas chegou aos gregos como fofoca. Teopompo de Quios, historiador do século 4 antes de Cristo, escreveu sobre ele num trecho que sobreviveu porque Ateneu de Náucratis o copiou no Banquete dos Sábios, por volta do ano 200 da nossa era.

“Entre os etruscos, as mulheres são comuns a todos; elas cuidam muito do corpo, se exercitam nuas com os homens e se deitam à mesa não ao lado dos próprios maridos, mas de quem estiver presente”, escreveu Teopompo, na tradução do livro 12 de Ateneu.

O exagero é dele. Teopompo nunca esteve na Etrúria que se saiba, e escrevia para leitores gregos que achavam a liberdade das etruscas um sinal de baixa moral. O sarcófago mostra outra cena: a mulher se deita, sim, mas ao lado do próprio marido.

O nome próprio delas

Os túmulos de Cerveteri e de Tarquínia trazem inscrições com o primeiro nome das mulheres: Larthia, Ramtha, Thanchvil. Em Roma, a filha recebia só o sobrenome do pai no feminino, e duas irmãs se chamavam Júlia as duas.

O historiador romano Tito Lívio, no livro 1 da História de Roma, conta que a etrusca Tanaquil, mulher do rei Tarquínio Prisco, lia o voo das águias e decidiu quem herdaria o trono. Para Lívio, uma esposa assim era coisa da Etrúria.

 

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III  Por Que Importa

A esposa reclinada e o leitor de hoje

A língua dos etruscos sobrevive em milhares de inscrições, quase todas curtas, gravadas em túmulos, vasos e espelhos. O alfabeto veio do grego, e as letras se leem sem esforço, mas boa fatia das palavras continua sem tradução.

Por isso os sarcófagos de Cerveteri pesam tanto. Onde o texto falha, a imagem informa: o casal de barro conta sem palavras que a mulher etrusca de família rica comia deitada, em público, ao lado do marido.

O banquete e o adeus

O leito do sarcófago repete o leito do banquete por um motivo funerário. Os etruscos imaginavam o além como uma festa contínua, e as paredes dos túmulos de Tarquínia mostram mesas, músicos e dançarinos pintados em volta do lugar do corpo.

Na Tumba dos Leopardos, em Tarquínia, pintada por volta de 470 antes de Cristo, casais reclinam em três leitos, e mulheres de pele clara dividem a almofada com homens de pele vermelha, como no barro de Cerveteri.

Se a mulher verte perfume na mão do marido, o gesto pode ser o da unção, o óleo passado no corpo para a passagem. Se segura um ovo ou uma romã, são símbolos do renascimento. Nenhuma das duas leituras tem prova, e o objeto perdido mantém a dúvida.

A igualdade de barro

O sarcófago virou cartaz da tese de que as etruscas viviam em pé de igualdade com os maridos. Arqueólogas como Larissa Bonfante, da Universidade de Nova York, que estudou a roupa e o corpo das etruscas, puseram freio nessa leitura.

A liberdade aparece nas peças de família rica, gente que podia pagar uma oficina de Cerveteri. A camponesa, a escrava e a mulher do artesão não deixaram sarcófago, e sobre elas o barro não diz nada.

O frasco e a mesa

Cada visitante de Villa Giulia ou do Louvre escolhe o que vê no gesto vazio da mulher: uma esposa servindo perfume ao marido, num ato de cuidado que repete o papel de sempre, ou uma convidada do banquete, deitada na altura dele, oferecendo o que quiser a quem ela escolheu. Os dois gestos cabem na mesma mão, e o objeto que decidiria entre eles está perdido.

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