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Andrei Rublev nasceu entre 1360 e 1370, em data que nenhum registro guardou. Foi monge e pintor de ícones (imagens sagradas pintadas em madeira, usadas no culto ortodoxo). Em 1405, trabalhou com o mestre grego Teófanes na Catedral da Anunciação, no Kremlin de Moscou.
Em 1408, pintou com o colega Daniil Chorny os afrescos da Catedral da Dormição, em Vladimir. Morreu em 1428 no mosteiro Andronikov, em Moscou, onde viveu os últimos anos.
O mosteiro da Trindade
A encomenda veio do abade Nikon de Radonezh, que dirigia o mosteiro fundado por Sérgio de Radonezh, a 70 quilômetros de Moscou. Sérgio tinha falecido em 1392, e Nikon ergueu sobre o túmulo dele uma catedral de pedra dedicada à Trindade.
Sérgio escolheu a Trindade como patrona porque via nela um modelo de união. A Rússia do século 14 vivia dividida entre principados rivais e pagava tributo à Horda de Ouro, o império mongol das estepes. Três pessoas num só Deus serviam de exemplo de concórdia.
Um texto russo do século 17 sobre os pintores de ícones registra que Nikon pediu a Rublev uma imagem da Trindade “em louvor do pai Sérgio”. O ícone foi para a iconóstase (a parede de ícones que separa o altar da nave) da catedral nova.
A cena que Rublev cortou
A cena vem do Gênesis, capítulo 18. Três viajantes aparecem diante da tenda de Abraão, perto do carvalho de Mamre. Abraão lava os pés deles, serve pão e um bezerro, e os visitantes anunciam que Sara, já idosa, terá um filho.
Os ícones anteriores, chamados de Hospitalidade de Abraão, mostravam o casal servindo, um criado matando o bezerro e a mesa cheia de pratos. Rublev apagou Abraão, Sara e o criado. Ficaram os três visitantes, uma taça e os três sinais atrás.
Com o corte, a cena deixou de contar um episódio e passou a mostrar uma presença. Os cristãos ortodoxos liam os três visitantes como imagem de Deus em três pessoas, e Rublev pintou só o que servia a essa leitura.
O concílio e a capa
Em 1551, o Concílio dos Cem Capítulos (Stoglav, em russo), convocado pelo czar Ivan, o Terrível, decidiu que a Trindade devia ser pintada “como pintou Andrei Rublev”. O ícone virou modelo oficial para os pintores de toda a Rússia.
Meio século depois veio a capa de Boris Godunov. Ela protegeu a madeira do toque dos fiéis e escondeu as cores. Em 1929, já depois da restauração de Grabar, o governo soviético tirou o ícone do mosteiro e o levou para a Galeria Tretyakov, em Moscou.
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