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Os 304 anos da Trindade de Rublev sob o ouro

Andrei Rublev, A Trindade, entre 1411 e 1427, têmpera sobre madeira

A Trindade de Andrei Rublev: três anjos alados sentados em volta de uma mesa com uma taça dourada

Andrei Rublev, A Trindade, entre 1411 e 1427

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Uma tábua de tília com 142 centímetros de altura e 114 de largura, coberta por camadas finas de têmpera (tinta de pigmento moído misturado com gema de ovo). Ela prova que um monge de Moscou do século 15 conseguiu pintar três figuras e uma mesa com tanta calma que a cena parece parada no ar.

O monge era Andrei Rublev, e a tábua é a Trindade, pintada entre 1411 e 1427. Nenhum documento da época fixa o ano. Rublev não assinava os ícones, e a autoria chegou até nós pela tradição do mosteiro e por textos russos do século 16.

Durante mais de três séculos, quase ninguém viu a pintura inteira. Em 1600, o czar Boris Godunov mandou cobrir o ícone com um oklad (capa de metal trabalhado) de ouro, com pedras preciosas, recortado para mostrar só os rostos e as mãos. O resto ficou sob o metal.

Por baixo da capa, o tempo trabalhou. A fumaça das velas e o verniz de óleo de linhaça, que escurece com os anos, deixaram a superfície marrom. Pintores do mosteiro retocaram o ícone várias vezes, sempre por cima da camada anterior, para avivar o que tinha escurecido.

Em 1904, uma comissão organizada pelo pintor e colecionador Ilya Ostroukhov tirou a capa. O restaurador Vasily Guryanov começou a raspar as repinturas com bisturi e solvente. Embaixo, apareceram azuis claros, um verde de folha nova, um vermelho escuro e um ouro que vinha da tinta, sem nenhum metal.

A limpeza de Guryanov ficou pela metade, e o ícone voltou a escurecer em poucos anos. Só a restauração de 1918, conduzida pela comissão do pintor Igor Grabar, tirou o que restava das camadas tardias e devolveu as cores de Rublev.

Primeiro, a tábua como ela aparece sem a capa: três anjos, uma mesa e uma taça no centro.

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I  O Que Você Vê

Três anjos e uma taça

Na Trindade de Andrei Rublev, três anjos estão sentados em volta de uma mesa baixa e clara. Cada um tem asas douradas, uma auréola (o disco de luz em volta da cabeça) e um bastão fino na mão, o cajado dos viajantes.

O anjo da esquerda é o mais ereto. Veste azul por baixo e, por cima, um manto rosado e claro, quase transparente. A cabeça dele se inclina pouco.

O anjo do centro usa uma túnica vermelho-escura, com uma faixa dourada no ombro, e um manto azul forte. A cabeça pende para a esquerda de quem olha, na direção do primeiro anjo.

O anjo da direita veste azul e um manto verde. Também inclina a cabeça para a esquerda, e o corpo inteiro se curva para o centro da mesa.

A taça sobre a mesa

Na mesa há uma taça só, dourada, com um conteúdo escuro dentro. A mão direita do anjo do centro paira acima dela, com dois dedos estendidos, no gesto de bênção da igreja ortodoxa.

Os três rostos são quase iguais: nariz longo e fino, boca pequena, olhos baixos. Rublev diferenciou os anjos pela roupa e pela postura, e manteve os rostos parecidos o bastante para parecerem um só, repetido três vezes.

Na face da mesa voltada para quem olha, um pequeno retângulo escuro se abre na madeira. A leitura mais comum o liga ao nicho onde os altares ortodoxos guardavam relíquias. Rublev não deixou texto sobre o detalhe, e não há documento que confirme a leitura.

Três sinais atrás

Atrás de cada anjo há um elemento. À esquerda, uma casa com colunas. No centro, uma árvore de copa escura. À direita, uma rocha inclinada. Na tradição dos ícones, são a casa de Abraão, o carvalho de Mamre e a montanha.

Os degraus e os pés da mesa seguem a perspectiva inversa (linhas que se abrem conforme se afastam, ao contrário da perspectiva do Renascimento). O tampo parece inclinado para fora, como se a mesa se oferecesse a quem está diante dela.

Os contornos dos dois anjos laterais desenham uma curva fechada. Quem segue com o dedo a linha das costas do anjo da esquerda, passa pelas três cabeças e desce pelas costas do anjo da direita fecha um círculo quase perfeito, com a taça perto do centro.

Não há sombra no chão. A luz vem do fundo dourado e das próprias roupas, e as figuras parecem não ter peso sobre os bancos.

 
 

II  A História Por Trás

Um ícone para Sérgio

Andrei Rublev nasceu entre 1360 e 1370, em data que nenhum registro guardou. Foi monge e pintor de ícones (imagens sagradas pintadas em madeira, usadas no culto ortodoxo). Em 1405, trabalhou com o mestre grego Teófanes na Catedral da Anunciação, no Kremlin de Moscou.

Em 1408, pintou com o colega Daniil Chorny os afrescos da Catedral da Dormição, em Vladimir. Morreu em 1428 no mosteiro Andronikov, em Moscou, onde viveu os últimos anos.

O mosteiro da Trindade

A encomenda veio do abade Nikon de Radonezh, que dirigia o mosteiro fundado por Sérgio de Radonezh, a 70 quilômetros de Moscou. Sérgio tinha falecido em 1392, e Nikon ergueu sobre o túmulo dele uma catedral de pedra dedicada à Trindade.

Sérgio escolheu a Trindade como patrona porque via nela um modelo de união. A Rússia do século 14 vivia dividida entre principados rivais e pagava tributo à Horda de Ouro, o império mongol das estepes. Três pessoas num só Deus serviam de exemplo de concórdia.

Um texto russo do século 17 sobre os pintores de ícones registra que Nikon pediu a Rublev uma imagem da Trindade “em louvor do pai Sérgio”. O ícone foi para a iconóstase (a parede de ícones que separa o altar da nave) da catedral nova.

A cena que Rublev cortou

A cena vem do Gênesis, capítulo 18. Três viajantes aparecem diante da tenda de Abraão, perto do carvalho de Mamre. Abraão lava os pés deles, serve pão e um bezerro, e os visitantes anunciam que Sara, já idosa, terá um filho.

Os ícones anteriores, chamados de Hospitalidade de Abraão, mostravam o casal servindo, um criado matando o bezerro e a mesa cheia de pratos. Rublev apagou Abraão, Sara e o criado. Ficaram os três visitantes, uma taça e os três sinais atrás.

Com o corte, a cena deixou de contar um episódio e passou a mostrar uma presença. Os cristãos ortodoxos liam os três visitantes como imagem de Deus em três pessoas, e Rublev pintou só o que servia a essa leitura.

O concílio e a capa

Em 1551, o Concílio dos Cem Capítulos (Stoglav, em russo), convocado pelo czar Ivan, o Terrível, decidiu que a Trindade devia ser pintada “como pintou Andrei Rublev”. O ícone virou modelo oficial para os pintores de toda a Rússia.

Meio século depois veio a capa de Boris Godunov. Ela protegeu a madeira do toque dos fiéis e escondeu as cores. Em 1929, já depois da restauração de Grabar, o governo soviético tirou o ícone do mosteiro e o levou para a Galeria Tretyakov, em Moscou.

 

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III  Por Que Importa

Uma mesa aberta para quem chega

Em 1919, o padre e matemático Pavel Florensky escreveu no ensaio “A Lavra da Trindade e a Rússia”: “Existe a Trindade de Rublev, portanto existe Deus.” Para ele, a beleza do ícone servia de prova, sem precisar de argumento.

A frase pesa mais pelo ano. Florensky escreveu dois anos depois da Revolução de 1917, quando o novo governo fechava mosteiros e tirava ícones das igrejas. Ele foi preso pelo regime em 1933 e fuzilado em 1937.

Quem é quem

Rublev não identificou os anjos, e os estudiosos se dividem até hoje. A leitura mais difundida vê no anjo da esquerda o Pai, no do centro o Filho e no da direita o Espírito Santo.

Nessa leitura, o vermelho da túnica central fala da humanidade e do sangue de Cristo, o azul do manto fala da natureza divina, e o verde do terceiro anjo fala da vida que se renova. A árvore atrás do anjo central lembra a cruz.

A outra leitura põe o Pai no centro, por ser a figura que ocupa o eixo e abençoa a taça. Os dois lados citam o mesmo ícone, e nenhum texto de Rublev decide a questão. Sem documento do pintor, a resposta fica em aberto.

O lugar vazio

A mesa tem três lados ocupados e um livre, o da frente. É o lado de quem olha. A perspectiva inversa abre a cena nessa direção, e o círculo dos três anjos fica incompleto até alguém se pôr diante dele.

Os ortodoxos chamam esse lado de lugar do fiel. A taça, posta no eixo, fica ao alcance de quem chega, e a mão do anjo central a abençoa na direção do espectador.

A tábua frágil

Em 1966, o cineasta Andrei Tarkovsky terminou o filme “Andrei Rublev”, rodado todo em preto e branco, com minutos de imagens coloridas dos ícones do pintor. A Trindade aparece por último. A Igreja Ortodoxa Russa declarou Rublev santo em 1988.

Em 2023, o governo russo decidiu entregar o ícone à Igreja. Os restauradores da Galeria Tretyakov protestaram por escrito: a tábua tem rachaduras antigas, e a camada de tinta reage a qualquer mudança de umidade. O ícone saiu do museu mesmo assim, e o estado dele desde a mudança não foi divulgado em laudo público.

Diante da tábua de tília, a escolha fica com quem olha: ler a Trindade como o concílio de 1551 mandou, retrato de Deus em três pessoas, ou como Rublev deixou na madeira, três viajantes cansados e uma mesa posta com um lugar livre na frente.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem mandou cobrir a Trindade de Rublev com uma capa de ouro em 1600?

AIvan, o Terrível
BBoris Godunov
CIlya Ostroukhov
DIgor Grabar

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