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Esta pauta venceu a urna de 24/09.
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O rosto de cera que encara quem ficou vivo
Pintor anônimo, Egito romano, cerca de 90 a 120 d.C. · Encáustica sobre tília
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Jovem de Vermelho, Fayum, c. 90 a 120 d.C.
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Uma jovem olha de frente e não desvia. Os olhos são grandes, escuros, abertos demais para um retrato comum, e a boca está fechada. Ela veste vermelho e tem ouro no pescoço e nas orelhas. Tudo cabe numa tábua estreita de madeira, mais alta que larga.
A peça se chama Retrato de Jovem Mulher de Vermelho. O Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que a guarda desde 1909, data a pintura entre 90 e 120 d.C. O pintor não assinou. Ninguém registrou quem ele era, nem quem era a moça.
A tinta é cera de abelha derretida e misturada a pigmento, aplicada ainda quente. A técnica tem nome grego, encáustica (pintura com cera queimada), e deixa na superfície um brilho parecido com o da pele. Por essa razão o rosto parece úmido, quase respirando.
O retrato não foi feito para enfeitar sala. Ele ia amarrado entre as faixas de linho de uma múmia, bem em cima da cabeça do corpo embalsamado. Quem entrava no túmulo não via o cadáver: via a jovem de olhos abertos, encarando os vivos.
Tábuas assim são chamadas de retratos de Fayum, por causa do oásis a sudoeste do Cairo onde muitas apareceram no século 19. Foram pintadas quando o Egito era província de Roma, e juntam três mundos numa superfície só: o costume egípcio da múmia, a técnica grega da pintura, a moda romana do cabelo e da joia.
A moça de vermelho levanta três perguntas. O que exatamente o pintor pôs na tábua, por que um rosto tão vivo foi parar sobre um morto e por que esse olhar ainda prende quem passa diante dele num museu. As respostas vêm na ordem, começando pela superfície da cera.
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I O Que Você Vê
Ouro, carmim e um olhar que não pisca
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O rosto do Retrato de Jovem Mulher de Vermelho ocupa quase toda a tábua. Está de frente, sem inclinar a cabeça, e os olhos apontam direto para fora da pintura. Não há paisagem, cadeira ou mão à vista: só a cabeça, o pescoço e o começo dos ombros.
Os olhos são o centro. A íris escura é grande, o branco aparece pouco, e um toque claro no globo faz o reflexo de luz. As sobrancelhas são escuras e marcadas. O nariz é longo e reto, a boca pequena e fechada.
A sombra da pele não vem de contorno chapado. O pintor pôs tons mais escuros de ocre sob o queixo e ao lado do nariz, e tons mais claros na testa e nas maçãs do rosto. O volume nasce da cor, sem linha preta em volta.
O vermelho e o ouro
A roupa é vermelha, de um tom forte, perto do carmim. Cobre os ombros e o peito; no quarto de baixo da tábua a pintura acaba e aparece a madeira nua. É a cor que dá título ao retrato no catálogo do museu.
No pescoço e nas orelhas brilha ouro. Joias pintadas assim marcavam posição social: quem encomendava um retrato de múmia queria ser lembrado com o que tinha de melhor. O ouro na tábua funciona como declaração de classe, feita para durar no túmulo.
O cabelo é escuro e emoldura a testa. Detalhe pequeno, mas decisivo, porque é pelo penteado que os especialistas conseguem datar tábuas como esta, como a terceira parte mostra.
Como a cera vira pele
A encáustica pede pressa. O pintor derretia a cera, misturava o pigmento e aplicava com pincel ou com uma espátula de metal aquecida, antes que a massa esfriasse. Cada toque endurece rápido e guarda a marca do instrumento.
Por essa razão a superfície tem textura. Em volta dos olhos e na testa, as camadas se sobrepõem em pequenas placas, como escamas finas de tinta. De longe, as placas se fundem e viram pele; de perto, mostram a mão trabalhando rápido.
A base é madeira fina de tília, segundo a ficha do Metropolitan. Tábuas finas curvavam sem rachar, e por essa razão podiam ser dobradas de leve sobre o volume da cabeça enfaixada.
A cera resiste bem ao clima seco. Enterrada na areia do deserto egípcio, longe da umidade, a camada de pigmento chegou quase intacta, e a cor ainda parece fresca.
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II A História Por Trás
Um rosto grego sobre um corpo egípcio
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Em 30 a.C., depois da derrota de Cleópatra VII para Otaviano, o Egito virou província romana. A elite das cidades do vale do Nilo tinha raízes mistas: descendentes de gregos chegados com Alexandre, o Grande, em 332 a.C., casados havia gerações com famílias egípcias.
Essa gente falava grego, usava nomes gregos e seguia a moda de Roma. Na hora do enterro, porém, mantinha o rito egípcio: embalsamar o corpo, enrolar em linho e preparar a passagem para o além, onde o morto precisava reconhecer e ser reconhecido.
A máscara funerária tradicional era de cartonagem (camadas de linho e gesso moldadas), com rosto dourado e idealizado, sem traço individual. No Egito romano, parte das famílias trocou essa máscara pela tábua pintada, com um rosto que se parecia com o de quem estava ali dentro.
Pintado em vida ou perto do enterro
Quando o retrato era feito ainda divide os especialistas. Uma corrente defende que a tábua era pintada em vida e ficava pendurada em casa. O argumento vem de tábuas com as bordas de cima cortadas em diagonal, como se tivessem sido recortadas para caber na múmia.
Outra corrente aponta casos em que a idade do rosto pintado bate com a do esqueleto, examinado por tomografia, o que favorece pintura feita perto do enterro. Os dois cenários aparecem em peças diferentes, e nenhum texto da época diz qual era a regra.
Para a moça de vermelho, a dúvida fica aberta por falta de prova: o Metropolitan guarda só a tábua, sem o corpo, e sem corpo não há idade de esqueleto para comparar com o rosto.
O oásis revirado em 1887
Os retratos passaram mais de 1.700 anos na areia. Em 1887, camponeses cavando no cemitério de er-Rubayat, no Fayum, acharam dezenas deles. O comerciante vienense Theodor Graf comprou o lote e o levou a exposições na Europa e nos Estados Unidos, onde os rostos causaram espanto.
No ano seguinte, o arqueólogo inglês Flinders Petrie escavou em Hawara, também no Fayum, e retirou retratos ainda presos às múmias, anotando o local de cada um. Graças a esse registro, dá para saber como a tábua ficava encaixada no corpo.
Muitas outras tábuas saíram do chão sem anotação nenhuma, vendidas por comerciantes. O lugar exato de origem da moça de vermelho não consta de registro publicado, e por esse motivo ela é chamada de retrato de Fayum pelo tipo, sem cemitério conhecido.
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