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Óleo sobre tela, um metro e noventa e nove de altura por dois metros e cinquenta e quatro de largura, em formato horizontal.
A cena acontece num cômodo fechado. As paredes têm forro escuro de desenho miúdo, nenhuma janela aparece, e o chão inteiro está coberto por um tapete de fundo vermelho.
No centro, dois corpos formam um único bloco inclinado. O quadro não mostra o golpe: mostra o segundo seguinte, com um homem velho de joelhos segurando um rapaz que acabou de cair.
O pai está sentado sobre a própria perna, o tronco torcido para a frente. A mão direita dele aperta a têmpora do filho, e o sangue passa entre os dedos e desce pela lateral do rosto do rapaz.
O braço esquerdo passa por baixo das costas do filho e fecha o abraço. É o gesto de quem embala uma criança, feito por um homem de barba grisalha e mãos ossudas.
O rosto do velho é o ponto mais claro da metade esquerda. Os olhos estão arregalados até o limite, com branco em volta da íris por todos os lados, e a boca ficou aberta no meio do movimento.
Ele não olha para o filho. O olhar sai pela frente do quadro, um pouco acima da linha de quem está diante da tela, e não encontra nada.
O rapaz está de lado, o corpo mole, um joelho dobrado sob o peso. A cabeça pende para trás, apoiada no braço do pai, e a mão direita dele ainda toca o tapete.
A cara do filho é o contrário da do pai. Os olhos estão semiabertos, a boca relaxada, as sobrancelhas sem tensão. Não há acusação nenhuma naquele rosto.
A roupa separa os dois em cor. O pai veste um manto escuro, quase preto, de gola alta. O filho usa um cáftan cor de framboesa, bordado em fio dourado, e botas de cano alto.
Embaixo dos dois, o tapete vermelho recebe uma poça mais escura, com brilho, que avança na direção da borda inferior da tela.
À esquerda, largado no chão, está o cajado. É uma haste comprida, de ponta metálica e cabeça trabalhada, o objeto que explica a cena inteira e que o pintor deixou fora do centro.
Atrás do cajado aparece uma poltrona derrubada, com a almofada no chão e um banco deslocado. A sala guarda o rastro do movimento que acabou de acontecer.
No fundo, à direita, há uma porta escura e um trecho de parede com estampa dourada. Nenhum guarda, nenhum criado, nenhuma testemunha entrou na composição.
A luz vem de baixo e da esquerda, rasante, e escolhe três coisas: o rosto do pai, o rosto do filho e a mão que aperta a cabeça dele. O resto da sala afunda num marrom avermelhado.
O título completo que o pintor deu à obra traz uma data: 16 de novembro de 1581. A tela não se apresenta como invenção, e sim como registro de um dia com número no calendário.
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Trabalhava como enfeitiçado. Havia momentos em que sentia medo. Eu virava o quadro de costas e o escondia.
Ilya Repin, Longe e Perto, livro de memórias, 1937
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