|
Montmartre, 1876. A colina ainda tinha vinha, horta e moinho de pé, e a cidade fechada só começava no pé da ladeira.
O moinho do baile, chamado Blute-fin, é do século dezessete. A família Debray comprou o negócio nas primeiras décadas do século dezenove e moía trigo para os padeiros do bairro.
Com o tempo a farinha virou coadjuvante. Os Debray passaram a vender galette com um copo de vinho e abriram o terreiro para a dança de domingo.
A entrada era barata, moça entrava de graça, e a orquestra tocava da metade da tarde até quase meia-noite.
Em maio de 1876 o pintor decidiu levar aquela tarde para a tela. O primeiro problema era logístico: ele morava longe demais do moinho.
A solução foi alugar a casa da rua Cortot, com o jardim enorme atrás. No mesmo quintal ele pintou A Balança. Hoje o endereço abriga o Museu de Montmartre.
O segundo problema era carregar o quadro. Rivière, funcionário público e escritor, e os pintores Pierre-Franc Lamy e Norbert Goeneutte serviam de carregadores e depois posavam.
Rivière contou décadas mais tarde, no livro de memórias sobre o pintor e o grupo de amigos, que a tela foi trabalhada no próprio local, com o vento ameaçando derrubar tudo a cada rajada.
A modelo preferida dele, Jeanne, de dezesseis anos, foi convidada para o papel principal e recusou, ocupada com um namorado do bairro.
Quem sentou no banco foi a irmã, Estelle, no vestido listrado de azul e rosa que abre o primeiro plano.
No meio do salão, de calça listrada, dança o pintor cubano Pedro Vidal de Solares y Cárdenas com Margot, apelido de Marguerite Legrand.
Margot achava o cubano formal demais e passou o verão puxando ele para a polca e ensinando canção de gíria do bairro.
Entre os dançarinos do fundo estão ainda Henri Gervex, Eugène Pierre Lestringuez e Paul Lhote, todos do círculo do ateliê.
Em abril de 1877 o quadro apareceu na terceira exposição do grupo impressionista, numa sala alugada na rua Le Peletier.
Rivière fundou um jornal de quatro páginas durante a mostra, L'Impressionniste, para responder aos críticos edição por edição.
Existe uma segunda versão do baile, menor, de setenta e oito por cento e catorze centímetros, quase idêntica e de pincelada mais solta.
Em 1879 a tela grande foi para Gustave Caillebotte, pintor de família rica que sustentava o grupo comprando quadro de quem ninguém comprava.
Em 1894 a coleção dele passou para o Estado francês, que discutiu dois anos o que aceitar. O baile entrou, foi para o Museu do Luxemburgo, depois para o Louvre e, em 1986, para o Orsay.
A versão pequena tomou outro rumo. Em 17 de maio de 1990, num leilão da Sotheby's em Nova York, ela saiu por setenta e oito milhões de dólares, um dos dois maiores valores já pagos por um quadro até aquela data.
O comprador japonês entrou em dificuldade financeira anos depois e a tela mudou de mãos numa venda privada. Acredita-se hoje que esteja com um colecionador na Suíça.
|