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Píxide de al-Mughira: o marfim de 968 do príncipe

Píxide de al-Mughira, 968, marfim de elefante entalhado, Medina Azahara, Córdoba, Museu do Louvre, Paris

Caixa cilíndrica de marfim entalhado com tampa em cúpula, a Píxide de al-Mughira, Museu do Louvre

Píxide de al-Mughira, Medina Azahara, 968

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Uma caixa redonda de marfim de elefante com cerca de 15 centímetros de altura e 8 de diâmetro, cavada num único bloco de presa. Ela prova que a corte de Córdoba registrou o ano exato de um presente e não conseguiu proteger o rapaz que o recebeu.

O nome técnico do objeto é píxide (uma caixinha cilíndrica com tampa, usada para guardar perfume, unguento ou joias). Esta foi entalhada em 968 nas oficinas de Medina Azahara, a cidade-palácio que o califa (o soberano e chefe religioso) Abd al-Rahman III mandou erguer a oeste de Córdoba.

A data não vem de palpite de estilo. Ela está escrita em árabe na faixa que corre em volta da base da tampa, junto com o nome do dono: al-Mughira, filho caçula de Abd al-Rahman III e meio-irmão do califa que governava em 968, al-Hakam II.

Al-Mughira tinha dezoito ou dezenove anos quando ganhou a caixa. Vivia num palácio onde o marfim chegava da África em presas inteiras, trazido pelas rotas do Saara e pelos portos do Magrebe (o norte da África a oeste do Egito).

Cada presa rendia poucas peças. O entalhador serrava um cilindro, escavava o miolo até a parede ficar fina e então cobria a superfície de figuras, folhas e animais, sem deixar um palmo liso.

A píxide de al-Mughira é das mais elaboradas dessa produção. Em volta do corpo, quatro medalhões de oito lóbulos (os arcos em forma de pétala) guardam cenas de corte, de caça e de colheita, ligados por um emaranhado de folhagem, pássaros e bichos.

Oito anos depois do presente, o príncipe estava no centro da maior crise da dinastia. Quando al-Hakam II morreu, em 976, um grupo da corte quis pôr al-Mughira no trono no lugar do herdeiro, um menino de onze anos. Na mesma noite, al-Mughira foi estrangulado dentro de casa.

A caixa durou mil anos a mais do dono e hoje está no Louvre, em Paris. Antes de entender por que ela fala tanto daquele trono, convém olhar as quatro cenas cavadas no marfim.

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I  O Que Você Vê

Quatro medalhões em volta do marfim

A píxide tem duas partes: o corpo, um cilindro reto, e a tampa em forma de cúpula baixa. As duas foram cobertas por relevo profundo, cavado de modo a deixar as figuras saltadas sobre um fundo escuro de sombra.

O marfim ganhou com os séculos um tom de mel. Nas partes mais altas do relevo, onde mãos tocaram a peça por gerações, a superfície ficou lisa e mais clara.

A cena do trono

Num dos medalhões, duas figuras estão sentadas lado a lado sobre um estrado, a plataforma elevada reservada ao soberano. Entre elas aparece um tocador de alaúde (o instrumento de cordas de braço curto, avô do violão).

É a imagem clássica da corte islâmica em festa: o senhor recebe música, bebida e homenagem. Estudiosos leem as duas figuras sentadas como príncipes, e há quem veja nelas o próprio al-Mughira.

A palmeira e os cavaleiros

Outro medalhão mostra dois cavaleiros, um de cada lado de uma palmeira. Montados, eles estendem os braços para os cachos de tâmaras do alto da árvore.

A palmeira tinha lugar especial na dinastia. Abd al-Rahman I, o fundador do ramo omíada na Península Ibérica, chegou de Damasco no século 8 e plantou em Córdoba uma palmeira trazida da Síria, como lembrança da terra perdida.

Leões contra touros

O terceiro medalhão é de luta. Dois leões cravam garras e dentes no dorso de dois touros, numa composição espelhada, cada fera repetindo o gesto da outra.

A cena vinha de longe. O leão atacando o touro aparece na arte da Pérsia antiga e da Mesopotâmia, onde marcava a força do rei e a vitória da ordem.

Os ninhos dos falcões

No quarto medalhão, dois homens sobem até ninhos de falcão e tiram de lá os ovos ou os filhotes. As aves adultas aparecem por perto, de asas abertas.

Em volta dos quatro medalhões, a folhagem enche cada espaço. Entre os ramos surgem pavões, cabras, cães e falcões, figuras pequenas que só se veem de perto, girando a caixa na mão.

Nenhuma figura se repete igual. O entalhador variou a posição das asas, o giro dos pescoços e o desenho das folhas, de modo a manter o olho ocupado em cada volta da caixa.

A inscrição da tampa

A faixa escrita usa o cúfico, a caligrafia árabe de traços retos e ângulos firmes. Ela corre em volta da tampa como um anel e fecha o círculo exatamente onde começa.

 
 

II  A História Por Trás

O príncipe do presente

Al-Mughira ibn Abd al-Rahman nasceu por volta de 949, filho do primeiro califa de Córdoba. Abd al-Rahman III tinha se proclamado califa em 929, rompendo com os califas de Bagdá e de Mahdia e declarando al-Andalus (o nome árabe da Península Ibérica muçulmana) um poder próprio.

O pai construiu Medina Azahara para mostrar essa grandeza. A obra começou em 936, e a cidade reunia salões de recepção, jardins, casa da moeda e as oficinas onde nasciam os marfins da corte.

O que diz a borda

A inscrição da tampa traz uma bênção. Em tradução livre, ela diz: "Bênção de Deus, favor, alegria e felicidade a al-Mughira, filho do Comandante dos Fiéis, que Deus tenha misericórdia dele, no ano de 357".

Comandante dos Fiéis era o título do califa, e a prece de misericórdia mostra que o pai já tinha morrido, em 961. O ano 357 conta pelo calendário da hégira (a era muçulmana, iniciada na fuga de Maomé para Medina, em 622) e corresponde a 967 e 968.

A inscrição não diz quem deu a caixa. O nome do entalhador também não aparece, e nenhum documento da época registra a encomenda. Quem pagou o presente continua desconhecido.

Um irmão no caminho

Al-Hakam II, meio-irmão mais velho de al-Mughira, governou de 961 a 976. Por anos ele não teve filho homem, e o caçula da família seguia como possível herdeiro.

Em 965 nasceu Hisham, filho de al-Hakam II com Subh, uma mulher de origem basca. A chegada do menino mudou o lugar de al-Mughira na corte: de sucessor provável, ele passou a obstáculo.

A noite de 976

Al-Hakam II morreu no começo de outubro de 976. Dois eunucos do palácio, Fa'iq e Jawdhar, propuseram pôr al-Mughira no trono, alegando a pouca idade de Hisham.

O vizir Jafar al-Mushafi, primeiro-ministro do califa morto, ficou com o menino. Antes de os conspiradores agirem, ele mandou soldados à casa de al-Mughira, sob o comando de um oficial da sua confiança.

O príncipe, com 27 anos, jurou lealdade ao sobrinho e pediu para viver. Os soldados o estrangularam ali mesmo, diante das mulheres da casa, e penduraram o corpo numa viga para simular suicídio.

Hisham II subiu ao trono com onze anos. Ele reinou de nome, fechado no palácio, enquanto o poder passava às mãos dos homens que tinham decidido aquela noite.

 

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III  Por Que Importa

Um recado gravado no marfim

Por muito tempo, as cenas da píxide foram lidas como decoração de luxo: festa, caça, colheita. Nos anos 1990, outra leitura ganhou peso entre os historiadores.

O historiador da arte Francisco Prado-Vilar publicou em 1997, na revista Muqarnas, o artigo "Circular Visions of Fertility and Punishment" (Visões circulares de fertilidade e castigo). Nele, defendeu a tese de que os marfins da corte carregavam recados políticos.

A leitura política

Para Prado-Vilar, a palmeira com as tâmaras falava da legitimidade omíada, a dinastia que trouxe da Síria a árvore e o direito ao trono. Os cavaleiros que colhem os frutos seriam os príncipes que disputam o que pertence à casa.

Os ninhos de falcão ganharam outra cor nessa leitura. Tirar filhotes de um ninho seria a imagem da usurpação, de quem rouba o herdeiro de outro.

Os leões contra os touros completariam o aviso: a força do poder legítimo caindo sobre quem o desafia. Lida assim, a caixa dizia a um jovem príncipe para se contentar com o lugar que tinha.

O destino da dinastia

O califado de Córdoba não durou muito depois daquela noite. Medina Azahara foi saqueada em 1010, durante a guerra civil entre pretendentes ao trono, e as oficinas de marfim se apagaram.

Em 1031, o califado acabou. Al-Andalus se partiu em reinos menores, as taifas (os pequenos Estados rivais governados por famílias locais), e a cidade-palácio virou pedreira por séculos.

As ruínas de Medina Azahara entraram na lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 2018. A píxide de al-Mughira atravessou esses séculos fora da Espanha, passou por coleções particulares e entrou no Louvre no fim do século 19.

Outros marfins da mesma oficina se espalharam pelo mundo. Há caixas de Medina Azahara no Victoria and Albert Museum, em Londres, e no Museu Arqueológico Nacional, em Madri, todas com o mesmo cuidado de relevo e inscrição na borda.

Presente ou aviso

Hoje ela fica nas salas de Artes do Islã do Louvre, perto de outros marfins de Córdoba. A etiqueta traz o nome do príncipe e o ano 968, as mesmas duas informações cavadas na borda.

Quem para diante da vitrine pode ver ali o presente de afeto a um rapaz de dezoito anos, com música, frutas e caça, ou um aviso entalhado contra a ambição de quem estava perto demais do trono. As duas leituras cabem nos mesmos quatro medalhões.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem comandou os homens enviados à casa de al-Mughira na noite de 976?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano as oficinas de Medina Azahara entalharam a píxide de al-Mughira?

A936
B961
C968
D976

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