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Provérbios Flamengos
Pieter Bruegel o Velho · 1559 · Óleo sobre painel de carvalho
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A mulher cobre o marido com a capa azul
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Um manto de lã azul, comprido o bastante para cobrir um homem do ombro ao joelho, segurado no alto por duas mãos de mulher. O tecido prova que o quadro inteiro funciona por gesto: o homem que recebe a capa está de costas para ela, com a cabeça já entrando no pano, e não vê quem o cobre.
Ela está de vestido vermelho e olha para baixo, para a nuca dele. Ele veste manto escuro e mantém os braços junto ao corpo, parado. A dupla ocupa a parede clara de uma casa, na metade esquerda da tábua, na altura dos olhos de quem se aproxima.
Ao redor dessa parede, a aldeia inteira está ocupada. Homens e mulheres em roupa camponesa fazem, cada um no seu canto, um gesto absurdo executado com total seriedade: um bate a cabeça contra tijolo, outro derrama um cesto sobre porcos, um terceiro atravessa a água na direção contrária à corrente. Nenhum deles olha para o vizinho.
A cena não é de aldeia nenhuma. Cada figura encena ao pé da letra uma frase feita dos Países Baixos do século XVI, pintada como se fosse acontecimento real, e o painel junta mais de cem delas no mesmo terreno, do telhado ao rio do fundo.
Pieter Bruegel o Velho assinou e datou a tábua em 1559, em Antuérpia, quando o mercado de estampas da cidade vendia coleções de ditados como produto popular. O primeiro nome pelo qual a obra circulou não citava provérbio nenhum: era A Capa Azul, tirado exatamente daquela mulher de vermelho e do manto que ela levanta.
O que ela faz ali tinha tradução imediata para quem via o quadro na época, e a tradução não era elogio. Cobrir o marido com a capa azul era dizer, sem escrever, que a mulher o traía, e que ele andava pela aldeia sem saber.
Vale começar pela superfície: o tamanho da tábua, o material, a divisão do terreno e seis gestos nomeados um por um, na ordem em que o olho os encontra.
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I O Que Você Vê
A capa azul, os porcos e a cabeça na parede
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Óleo sobre painel de carvalho, cento e dezessete centímetros de altura por cento e sessenta e três de largura, na Gemäldegalerie, em Berlim. O suporte é tábua, não tecido, e o formato horizontal cabe numa parede de sala, com as figuras menores que uma mão fechada.
O terreno se divide em três faixas. Embaixo e à esquerda, o pátio de terra batida na frente das casas. No meio, a fachada clara com telhado de palha e torre. No alto e à direita, a margem, a água e o mar aberto, com um navio pequeno na linha do horizonte.
O primeiro gesto é o da capa azul, no centro da faixa esquerda. A mulher de vestido vermelho e touca branca ergue o manto com as duas mãos e o baixa sobre a cabeça do homem de casaco escuro. Ele está de perfil, olhos abertos, sem reagir.
O segundo fica logo acima, numa parede de tijolo aparente. Um homem de calça clara e gibão vermelho inclina o tronco e bate a testa contra a alvenaria, com as duas mãos abertas apoiadas na parede. Perto dele, outra figura veste couraça e traz uma faca na cintura, armada da cabeça aos pés, com um sino na mão.
O terceiro está mais à direita, junto de um cocho. Um homem de túnica clara despeja o conteúdo de um recipiente raso sobre dois porcos que comem no chão. O que cai da mão dele pega luz e brilha: são pérolas jogadas aos porcos, o ditado pintado sem metáfora.
O quarto mora na água, na diagonal que leva ao fundo. Uma figura nada de braçada com o tronco voltado para a esquerda, contra o sentido em que a correnteza arrasta a espuma. Nenhuma margem está perto dele nos dois lados.
O quinto é o peixe. Perto da margem, um homem de faca na mão abre a barriga de um peixe grande e de dentro dela saem peixes menores, inteiros, escorrendo pela abertura. O peixe grande come o peixe pequeno, e aqui o pequeno reaparece por fora.
O sexto e o sétimo dividem o pátio. No chão do primeiro plano, dois cães de porte médio disputam um osso, com os focinhos baixos e os corpos em arco. Ao lado, uma mulher agachada tenta recolher com a mão um mingau branco derramado no chão, que já escorreu entre as pedras.
O oitavo está pendurado. Um globo escuro com uma cruz no topo aparece de ponta-cabeça, preso na fachada, com a cruz apontando para o chão. O mundo virado ao contrário fica ali, na altura da porta, entre as outras cenas e sem nenhuma moldura que o destaque.
A luz é uniforme e vem de cima, sem foco único. Nenhuma das figuras é maior, mais iluminada ou mais central que as outras, e o vermelho e o azul se repetem em roupas espalhadas pelas quatro pontas da tábua.
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Todos os provérbios, o mais das vezes, contêm tanto de sabedoria quanto de brevidade.
Erasmo de Roterdã, Adágios, 1500
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II A História Por Trás
Antuérpia, 1559, e a tábua que virou catálogo
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Pieter Bruegel o Velho nasceu por volta de 1525, provavelmente no ducado de Brabante, e morreu em Bruxelas em 1569. Não sobrou diário, carta longa nem tratado escrito por ele: o que se sabe da vida dele vem de registros de guilda, de contratos com impressores e do relato do biógrafo Karel van Mander, publicado em 1604.
Em 1551 ele entrou na guilda de São Lucas, a corporação de pintores de Antuérpia. Antes de viver de pintura de cavalete, trabalhou desenhando para o impressor Hieronymus Cock, dono da editora de estampas Aux Quatre Vents, que vendia gravuras em série para um público urbano e alfabetizado.
A tábua traz a assinatura BRVEGEL e o ano 1559 na parte de baixo. O pintor tinha trinta e poucos anos e assinava, naquele período, sem o H que a família usava antes.
O assunto não era invenção dele. Erasmo de Roterdã publicou os Adágios em 1500, uma coleção comentada de ditados antigos que virou best-seller europeu, e a caça a provérbios entrou na moda entre gente culta e entre impressores. Em 1558, o gravador Frans Hogenberg publicou uma estampa reunindo dezenas de ditados flamengos encenados por figuras pequenas.
Bruegel pegou a mesma ideia e mudou o suporte e a escala. Onde a gravura alinhava as cenas em fileiras, a tábua de 1559 monta uma aldeia com pátio, casa, estrada, margem e mar, e distribui as figuras por um espaço que funciona como lugar, com chão, sombra e distância.
O primeiro nome registrado da obra vinha de uma figura só, a mulher que cobre o marido com o manto: De Blauwe Huyck, A Capa Azul. Inventários e catálogos antigos usavam esse título, e o nome atual, Provérbios Flamengos, é rótulo de museu aplicado depois.
A escolha do título velho tem lógica. Cobrir o marido com a capa azul era a acusação de adultério dita em gesto, e a cena aparece grande, clara e no ponto em que o olho pousa primeiro. Quem via a tábua na sala de um comerciante de Antuérpia reconhecia a frase antes de contar as outras.
A obra deixou herdeiros imediatos. Pieter Brueghel o Jovem, filho mais velho do pintor, montou em Antuérpia uma oficina de cópias e produziu mais de uma dezena de versões desta mesma composição ao longo do início do século XVII. A tábua original entrou no acervo público de Berlim em 1914, sob a direção de Wilhelm von Bode.
O ponto que o pintor não entregou é a legenda. Não existe inscrição, numeração, filactera nem chave escrita na tábua dizendo qual frase cada figura encena. Todo o mapeamento que os museus publicam hoje foi reconstruído depois, cruzando a pintura com coleções de ditados impressas na mesma época.
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Ele fez muitas peças espirituosas e estranhas, e há poucas obras suas que o espectador consiga olhar com seriedade e sem rir.
Karel van Mander, O Livro dos Pintores, 1604
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