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A encomenda veio de Jean de Bilhères de Lagraulas, cardeal francês e embaixador do rei Carlos VIII junto ao papa. Ele queria uma estátua para o próprio túmulo, na capela de Santa Petronila, um mausoléu ao lado da antiga basílica de São Pedro.
O contrato foi assinado em 27 de agosto de 1498. O fiador foi o banqueiro romano Jacopo Galli, que já colecionava obras do jovem florentino. O preço combinado: 450 ducados de ouro papais, com prazo de um ano para a entrega.
Galli escreveu no documento uma garantia rara: a estátua seria a mais bela obra de mármore de Roma, e nenhum mestre vivo faria melhor. Ele apostava num escultor de 23 anos.
O ano em Carrara e em Roma
Michelangelo passou meses nas pedreiras de Carrara escolhendo o bloco. O transporte até Roma foi por mar e pelo rio Tibre. O trabalho começou nos últimos meses de 1498 e terminou em 1499, dentro do prazo.
O cardeal não viu a obra pronta. Jean de Bilhères morreu em agosto de 1499, e a estátua foi instalada no túmulo dele, na capela que pediu.
A noite do cinzel
Vasari conta a cena nas Vidas dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos, na edição de 1568. Um grupo de lombardos (gente da Lombardia, a região de Milão) parou diante da Pietà e perguntou quem a tinha feito. Um deles respondeu: “o nosso Gobbo, de Milão”.
O Gobbo era o apelido de Cristoforo Solari, escultor milanês ativo na época. Michelangelo, segundo Vasari, ficou calado. Naquela noite entrou na capela com uma lanterna e as ferramentas e cavou o próprio nome na faixa do peito da Virgem.
Vasari é a única fonte da cena, e escreveu quase setenta anos após o fato. O episódio não aparece na biografia de Condivi. A assinatura, essa sim, está na pedra, e qualquer visitante a vê.
O arrependimento
Uma tradição oral, repetida por guias do Vaticano, diz que ele se arrependeu do gesto, por vaidade, e jurou não repetir. Nenhum documento da época confirma o juramento; a única certeza vem das obras, todas sem nome, até a última, a Pietà Rondanini, deixada inacabada em 1564, ano em que ele morreu aos 88 anos.
A mudança de lugar
A capela de Santa Petronila foi demolida no século XVI, durante a construção da nova basílica de São Pedro. A Pietà passou por outros pontos do templo até chegar, em 1749, à primeira capela à direita de quem entra, onde está até hoje.
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