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Os Filhos de Eduardo
Paul Delaroche · 1830 · Óleo sobre tela
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O cão de orelhas viradas para a porta fechada
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Um livro aberto, encadernado em couro escuro, pouco maior que duas mãos juntas, deitado sobre a colcha com as páginas voltadas para cima. Ninguém está lendo. O que o objeto prova é que a leitura parou no meio: o volume ficou escancarado onde caiu, sem fita, sem marcador e sem a mão que o virava.
Aos pés da cama, um cão pequeno de pelo claro levanta a cabeça do chão e gira as duas orelhas para a porta fechada do quarto. O animal é o único corpo da cena virado para a saída. Os dois meninos olham para outro lado, e é o cachorro que avisa ao visitante que existe alguém do lado de fora.
Os dois estão sentados juntos sobre a cama, de camisa clara e pernas cobertas pela colcha. O menor encosta o ombro e a cabeça no irmão mais velho, que mantém o tronco ereto e o olhar fixo num ponto fora do quadro. Nenhum dos dois toca o livro.
A luz entra pela esquerda, baixa e amarelada, acende as duas camisas claras e morre antes de chegar à parede do fundo. O quarto não mostra janela aberta, saída nem corredor: a única passagem visível é a porta que o cão encara.
Os dois meninos têm nome, idade e endereço. O mais velho é Eduardo V da Inglaterra, nascido em Westminster em 2 de novembro de 1470, proclamado rei em abril de 1483 e nunca coroado. O menor é Ricardo de Shrewsbury, duque de Iorque, nascido em 17 de agosto de 1473. No verão de 1483, os dois estavam alojados na Torre de Londres, a fortaleza real onde os reis ingleses esperavam a própria coroação.
Paul Delaroche pintou a tela em 1830 e escolheu não pintar a entrada dos guardas. Ele escolheu o minuto anterior, quando o livro já foi abandonado, o cachorro já ouviu o barulho e nenhum dos dois meninos se levantou.
Vale começar pela superfície: o tamanho da tela, o corte do quarto, a posição das mãos, a cor da colcha e o ponto exato em que a luz acaba.
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I O Que Você Vê
O cão, a porta e o livro que ninguém fecha
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Óleo sobre tela, cento e oitenta e um centímetros de altura por duzentos e quinze de largura, no Museu do Louvre, em Paris. O formato é horizontal e curto, de quarto, não de palácio: o cenário tem mais ou menos a largura de um dormitório real.
O quarto aparece cortado de perto. Há a cama, o dossel de tecido pesado caindo da armação, um degrau de madeira ao lado e uma porta de madeira escura, fechada, encostada na parede do fundo. Não há mesa posta, trono, mapa, brasão nem objeto de cerimônia.
A cama ocupa o centro do quadro e fica alta, com a colcha descendo até quase o chão em dobras grossas. O tecido é pintado em vermelho escurecido e ocre, com brilho de cera nas quinas das dobras e sombra quase preta nos vãos.
Os dois irmãos estão sentados de lado, lado a lado, com as costas apoiadas na cabeceira. O mais velho mantém os ombros para trás, a cabeça levantada e o queixo levemente virado para a direita do quadro. O menor deixa o corpo cair contra ele, com a testa na altura do ombro do irmão.
As mãos contam a divisão do peso. O menor mantém as duas mãos fechadas sobre o colo, dedos entrelaçados. O mais velho deixa a mão direita aberta sobre a colcha, palma para baixo, sem agarrar nada, e esconde a mão esquerda atrás do corpo do menor.
As duas camisas são claras, de tecido fino com brilho de seda lavada, abertas no colo e sem gola rígida. É a roupa de dentro de casa, não a de aparecer: nenhum dos dois veste manto, capa, cinto, corrente ou coroa.
O livro está aberto sobre a colcha, à esquerda do menor, perto da borda da cama. As páginas pegam luz direta e formam a mancha mais clara da metade de baixo da tela, mais clara até que as camisas.
O cão fica no primeiro plano, abaixo da linha da cama, com as patas dianteiras esticadas no chão e a cabeça erguida. O corpo aponta para a cama e as orelhas apontam para a porta, num desencontro que coloca o animal em duas direções ao mesmo tempo.
A luz da esquerda é baixa e quente, de fim de tarde ou de chama. Ela bate na lateral do rosto do mais velho, atravessa as camisas, acende as páginas do livro e a lombada do cão, e deixa a porta do fundo na penumbra, visível apenas pelo contorno.
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Tão sábio e tão jovem, dizem, nunca vive muito.
William Shakespeare, Ricardo III, 1593
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II A História Por Trás
Dois herdeiros entregues à Torre em 1483
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Eduardo IV da Inglaterra governou até abril de 1483 e deixou dois filhos homens. O mais velho, Eduardo V, tinha doze anos e foi proclamado rei de imediato. O menor, Ricardo de Shrewsbury, tinha nove, e completou dez em agosto daquele ano.
O tio dos meninos, Ricardo, duque de Gloucester, assumiu a proteção do sobrinho rei como regente. Em maio de 1483, Eduardo V foi instalado na Torre de Londres, que nessa época era residência real e ponto de partida do cortejo de coroação, não prisão comum.
Em 16 de junho, o irmão menor deixou o abrigo de Westminster, onde estava com a mãe, Isabel Woodville, e foi levado para a Torre com o argumento de acompanhar a cerimônia do irmão. A coroação estava marcada para 22 de junho.
A coroação não aconteceu. O tio apresentou o casamento dos pais dos meninos como inválido, o que tornava os dois ilegítimos e fora da linha de sucessão, e foi coroado rei Ricardo III em 6 de julho de 1483.
Depois do verão de 1483, nenhum documento inglês registra os dois meninos de novo. Eles não aparecem em lista de casa real, em pagamento, em carta diplomática nem em cerimônia. O rastro escrito simplesmente termina.
Thomas More, advogado e funcionário do reino, escreveu por volta de 1513 a narrativa que fixou a versão mais repetida, construída sobre depoimento de terceiros e escrita trinta anos depois dos fatos. Shakespeare pegou esse material e montou a peça Ricardo III, encenada em 1593.
Paul Delaroche tinha trinta e três anos quando pintou a tela. Nascido em Paris em 17 de julho de 1797, ele havia construído a carreira justamente com cenas de história inglesa e francesa tratadas em escala doméstica, com figura em tamanho quase natural e cenário de interior.
A escolha dele, aqui, foi recusar o episódio. Não há guarda entrando, arma levantada, corpo caído nem tio apontando ordem. O pintor montou o quarto fechado, pôs os dois irmãos juntos na cama e deixou a ação inteira do lado de fora da porta.
Essa recusa tem método. O espectador de 1830 conhecia o assunto pela peça de Shakespeare e pela narrativa de More, e sabia o que vinha depois. Ao cortar a cena no minuto anterior, Delaroche transferiu o desfecho da tela para a memória de quem olha.
A tela foi exposta no Salão de Paris de 1831 e deu a Delaroche o lugar de pintor de história mais discutido da geração dele. A crítica francesa do período tratou esse realismo de quarto fechado como caminho oposto ao heroísmo de palco das telas anteriores.
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Relatarei o fim doloroso daqueles meninos, não de todas as maneiras que ouvi, mas daquela que ouvi de tais homens e por tais meios que me parece difícil não ser verdade.
Thomas More, História do Rei Ricardo III, cerca de 1513
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