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Esta pauta venceu a urna de 04/10.
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A cacatua que Wright pôs sob o vidro em 1768
Joseph Wright of Derby, Experimento com um Pássaro na Bomba de Ar, 1768, National Gallery, Londres
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Pássaro na Bomba de Ar, Wright of Derby, 1768
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Uma tela de linho de 183 por 244 centímetros, pintada a óleo em 1768. Cabe numa parede inteira de sala. O tamanho, naquela época, era reservado a santos, reis e batalhas, e prova que o pintor quis dar a um experimento de física a mesma importância.
O autor é Joseph Wright, nascido em 1734 na cidade inglesa de Derby e conhecido como Wright of Derby (Wright de Derby) para não ser confundido com outros pintores de sobrenome igual. O quadro se chama Experimento com um Pássaro na Bomba de Ar e está hoje na National Gallery, em Londres.
A cena acontece à noite, numa sala de casa. Um homem de cabelo comprido e roupa vermelha comanda uma máquina sobre a mesa. Em cima dela há um globo de vidro, e dentro do globo uma cacatua branca, caída de lado, com as asas abertas.
A máquina é uma bomba de ar: ela puxa o ar de dentro do vidro até deixar quase nada. Sem ar, o pássaro perde as forças. Se o homem abrir a válvula no alto do globo, o ar entra de volta e a ave pode se recuperar. Se não abrir, ela não resiste.
Em volta da mesa, nove pessoas assistem. Cada uma reage à sua maneira, e é nessa variedade que Wright gastou a maior parte da tinta. Uma menina cobre os olhos com a mão. Outra olha para cima, apavorada. Um casal jovem só tem olhos um para o outro.
A luz vem de uma única vela, e ela não aparece. Está escondida atrás de um copo de vidro grande no centro da mesa. O que se vê é o brilho que ela joga nos rostos, de baixo para cima, com o resto da sala mergulhado no escuro.
O pintor não deixou escrito o que acontece com a cacatua. A tela para no instante exato em que a decisão ainda não foi tomada.
Esta edição percorre a tela de rosto em rosto, conta como um aparelho de laboratório virou número de salão e mostra por que Wright pôs a ciência no tamanho da pintura histórica.
O percurso começa pela mesa, onde a vela escondida organiza a sala inteira.
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I O Que Você Vê
Nove rostos em volta de uma vela
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No centro da mesa está o copo grande de vidro, cheio de um líquido turvo. Dentro dele boia um crânio humano. A vela fica atrás do copo, e a luz atravessa o vidro antes de chegar aos rostos.
Acima do copo, o globo da bomba ocupa o ponto mais alto da mesa. A cacatua está no fundo dele, de bico aberto, com as penas brancas iluminadas. É a figura mais clara da tela, e o olho de quem olha vai até ela primeiro.
O homem de vermelho
Quem opera a máquina é o professor da noite. Ele tem cabelo grisalho e comprido, solto sobre os ombros, e veste um robe vermelho. Uma das mãos está erguida, segurando a válvula no alto do globo.
O rosto dele é o único da sala que não olha para o pássaro nem para os vizinhos. Ele encara quem está diante da tela, como se perguntasse ao espectador o que fazer. Wright pôs a decisão no gesto parado dessa mão.
As duas meninas
À direita do professor, duas meninas estão de pé junto a um homem mais velho. A maior esconde o rosto com a mão e vira o corpo para longe da mesa. A menor olha para o globo, de olhos arregalados.
O homem, que parece ser o pai das duas, se inclina sobre elas. Com uma das mãos, aponta para o globo. Ele está explicando a cena, ou tentando convencer a mais velha a olhar.
Os que não se comovem
À esquerda, um rapaz e uma moça jovens se olham, de costas para o experimento. Para os dois, a noite é outra. Na frente deles, um homem segura um relógio de bolso e marca o tempo que o pássaro aguenta sem ar.
Um menino de cabelo claro, apoiado na mesa, olha para o globo com atenção total. Não há medo no rosto dele, só curiosidade.
No canto direito, sentado, um velho apoia o queixo na mão e olha para o copo com o crânio. Ele não acompanha o pássaro. Parece pensar em algo que vai além da noite.
Ao fundo, junto à janela, outro menino puxa uma corda presa a uma gaiola vazia. Pela janela aparece a lua cheia, meio coberta por nuvens.
A gaiola vazia é a pista mais discutida da tela. O menino pode estar baixando a gaiola para guardar a ave viva, ou recolhendo-a porque ela não vai mais voltar. Wright pintou o gesto no meio do caminho.
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II A História Por Trás
O aparelho que virou espetáculo
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A bomba de ar nasceu na Alemanha. Em 1650, o engenheiro Otto von Guericke, prefeito de Magdeburgo, construiu a primeira capaz de tirar o ar de um recipiente fechado. Em 1659, os ingleses Robert Boyle e Robert Hooke montaram uma versão melhor, com um globo de vidro em cima, igual ao da tela.
Boyle usou a máquina para provar que os animais precisam do ar para viver. Pôs pássaros, ratos e outros bichos sob o vidro e registrou o que acontecia quando o ar saía. Os relatos estão no livro New Experiments Physico-Mechanicall (Novos Experimentos Físico-Mecânicos), de 1660.
A ciência que viajava
Cem anos depois, a bomba já não ficava só em laboratório. No século 18, professores itinerantes rodavam a Inglaterra com aparelhos de física e cobravam ingresso para demonstrações em casas, tavernas e salões. A plateia era de famílias, comerciantes e curiosos.
O mais famoso deles foi o escocês James Ferguson, que publicou as próprias aulas em 1760. Ele contou o que fazia quando o número pedia um animal.
“Se uma ave, um gato, um rato ou um passarinho for posto sob o receptor e o ar for retirado, o animal fica primeiro oprimido. Mas como esse experimento é chocante demais para qualquer espectador que tenha o menor grau de humanidade, usamos no lugar do animal uma máquina chamada vidro-pulmão.” (James Ferguson, Lectures on Select Subjects, 1760)
O vidro-pulmão era uma bexiga dentro de um frasco, que murchava e inchava conforme a bomba trabalhava. Fazia o papel do pássaro sem que ninguém sofresse. Receptor, na fala de Ferguson, é o globo de vidro onde se põe o animal.
Uma ave cara demais
Wright escolheu o contrário do que Ferguson recomendava. E escolheu uma cacatua, ave da Oceania que na Inglaterra de 1768 era rara e custava caro. Num experimento comum, o pássaro seria um pardal ou uma pomba.
Historiadores da National Gallery apontam que uma família dificilmente arriscaria uma ave tão valiosa numa demonstração. A cacatua parece ter sido escolha de pintor, não registro de uma noite real: branca, grande e exótica, ela segura o centro da tela.
Derby e os amigos da ciência
Wright morava em Derby, no centro da Inglaterra, perto dos homens que estavam mudando a indústria do país. Era amigo do médico Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, e conviveu com membros da Sociedade Lunar, um grupo de cientistas e industriais que se reunia nas noites de lua cheia para conversar sobre experimentos.
A lua da janela pode ser uma piscadela para esse grupo, que marcava os encontros pela lua para voltar para casa com estrada iluminada. Wright nunca confirmou a referência por escrito, e ela segue como hipótese.
Quem são as pessoas da sala só em parte tem resposta. A National Gallery identifica o casal jovem como Thomas Coltman e Mary Barlow, amigos de Wright; os outros rostos seguem sem nome. O que se sabe é que a tela foi exposta em Londres em 1768, na Sociedade dos Artistas, e chegou à National Gallery em 1863.
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