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Esta pauta venceu a urna de 19/09.
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Os sessenta rostos guardados em São Vicente de Fora
Nuno Gonçalves, por volta de 1470 · Têmpera e óleo sobre carvalho
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Sessenta rostos em seis tábuas
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Uma tábua de carvalho com 2,07 metros de altura e 60 centímetros de largura, coberta de têmpera, que é pigmento ligado com ovo, e acabada a óleo. São seis tábuas do mesmo tipo, e nelas cabem cerca de sessenta rostos pintados em escala quase natural.
O conjunto é conhecido como Painéis de São Vicente. A atribuição corrente aponta Nuno Gonçalves, pintor da corte de Afonso V, e a datação mais aceite fica por volta de 1470. As seis peças pertencem ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que divulga as imagens em domínio público.
Nenhuma inscrição identifica quem está ali. Nenhuma legenda pintada, nenhuma assinatura na madeira, nenhum brasão ao lado das cabeças. Cada personagem aparece de pé ou de joelhos, em fileiras apertadas, e quem olha recebe sessenta desconhecidos sem uma única placa de identificação.
Os rostos não são tipos genéricos. Um tem a pele vincada de sol, outro tem a barba por fazer, um terceiro tem o olho esquerdo meio fechado, e há um velho de mandíbula caída cujo queixo o pintor construiu com duas pinceladas de sombra. Cada cabeça foi tratada como se alguém tivesse posado para ela.
A pintura portuguesa do século 15 sobreviveu em pedaços. Guerras, terramoto, incêndios e vendas dispersaram retábulos inteiros, e o que resistiu costuma chegar sem contrato, sem recibo e sem data escrita na peça. Estas seis tábuas são a exceção de escala: o maior grupo de figuras pintadas que restou daquele século em Portugal.
Elas passaram séculos fora de vista e reapareceram num depósito do mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, por volta de 1882. Desde então corre a discussão que ninguém fechou, sobre quem são aquelas pessoas e quem é a figura de pé no centro das duas tábuas maiores.
Primeiro a superfície. O que as seis tábuas mostram, como as figuras estão dispostas, que objetos aparecem nas mãos e para onde cada rosto está virado.
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I O Que Você Vê
Seis tábuas, duas fileiras, um jovem de dalmática
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As seis tábuas aparecem alinhadas lado a lado, todas na vertical, todas com a mesma altura. As duas do centro são largas, com cerca de 1,28 metro cada uma, e as quatro das pontas são estreitas, com pouco mais de meio metro. A diferença de largura organiza a leitura do conjunto.
No meio de cada tábua larga está a mesma figura: um jovem de pé, de barrete vermelho, cabelo escuro cortado acima da orelha, vestido com uma dalmática, a túnica larga de mangas curtas usada por diácono. A veste é vermelha e dourada nas duas tábuas, com o mesmo lavrado, e cai em pregas retas até aos pés.
Numa das aparições o jovem segura um livro aberto nas duas mãos, na outra segura uma vara fina, e mantém o rosto sem expressão marcada. Ele é a única figura que se repete, a única que está sozinha no eixo do painel e a única com folga de espaço à volta do corpo.
Diante dele, na tábua da esquerda do par central, um rapaz de verde está de joelhos. De pé, à direita do jovem, um homem usa um gorro escuro e um manto de tom castanho, com as mãos postas à altura do peito. A mulher, do outro lado do jovem, tem a cabeça coberta por um véu branco preso na testa e olha na mesma direção que ele.
As tábuas estreitas empilham gente em duas fileiras, uma atrás da outra, com as cabeças de trás encaixadas nos vãos entre os ombros da frente. Numa delas os homens têm barba branca, cara queimada e roupa simples, e um deles segura uma vara e um cesto de vime. Noutra aparecem cabeças rapadas no alto, com hábito branco de religioso.
Há uma tábua com homens de armadura, elmo debaixo do braço e barba curta, e nela um dos rostos aparece de perfil, virado para a borda esquerda. Nessa mesma fileira um braço estendido mostra um pano branco dobrado, segurado ao alto por duas mãos. Numa outra tábua, uma figura de joelhos exibe um livro aberto, com linhas de escrita curtas e ilegíveis a esta distância.
O fundo é escuro e quase liso em toda a extensão do conjunto. Não há céu nem paisagem, e a única arquitetura é a porta de madeira aberta na tábua da direita: as figuras estão encostadas a uma superfície escura que as empurra para a frente, sobre um chão de lajes claras pintado em perspetiva.
A luz é frontal e igual em todas as tábuas. Ela bate nas testas, acende as mãos e deixa uma sombra curta debaixo dos queixos.
A direção dos olhares é o ponto mais estranho da superfície. A maior parte das cabeças não está virada para o jovem do centro nem para os vizinhos: os olhos saem do painel em ângulos diferentes, alguns para cima, outros para baixo, vários diretamente para fora da pintura.
A madeira mostra a idade. Correm fendas verticais em algumas tábuas, acompanhando o veio do carvalho, e há zonas de cor mais opaca, sinal de retoque antigo.
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II A História Por Trás
O depósito do mosteiro e o pintor de Afonso V
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Nuno Gonçalves aparece na documentação da chancelaria régia portuguesa como pintor de Afonso V entre 1450 e 1471. Os registos conhecidos tratam de pagamentos e de cargo, e nenhum deles descreve uma obra em execução. A data da morte dele continua por fixar.
A ponte entre esse nome e a pintura vem de um livro escrito quase um século depois. Francisco de Holanda, pintor e tratadista português, cita Nuno Gonçalves em Da Pintura Antiga, de 1548, quando enumera os pintores dignos de memória do país. O texto elogia, mas não descreve quadro nenhum, e a ligação entre o pintor e as tábuas continua a ser hipótese sustentada em estilo.
O reinado explica o ambiente. Afonso V governou Portugal de 1438 a 1481, gastou o tesouro em campanhas no norte de África e ficou conhecido pelas tomadas de Alcácer Ceguer em 1458 e de Arzila em 1471. A corte dele reunia cavaleiros, clérigos e conselheiros, e é esse tipo de gente que ocupa as fileiras das tábuas.
O paradeiro do conjunto durante três séculos continua por esclarecer. Nenhum inventário conhecido de igreja, mosteiro ou paço lista seis tábuas com sessenta figuras antes do século 19, e o terramoto de Lisboa de 1755 destruiu arquivos inteiros.
O reaparecimento acontece por volta de 1882, num depósito do mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. As tábuas estavam encostadas, sujas e com a pintura escurecida por vernizes velhos, e nesse mesmo ano o público viu as peças na Exposição de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola, em Lisboa.
A construção do conjunto tal como hoje se expõe é trabalho de museu. José de Figueiredo, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, publicou em 1910 o estudo O Pintor Nuno Gonçalves, propôs a ordem das seis tábuas, defendeu a autoria e batizou o conjunto com a referência ao santo padroeiro de Lisboa. A ordem em que as peças estão penduradas saiu dessa proposta, não de um documento de época.
O restauro coube ao pintor Luciano Freire, que tratou as tábuas nos primeiros anos do século 20, removeu camadas de verniz oxidado e consolidou a madeira.
Os exames técnicos vieram depois. A radiografia e a refletografia de infravermelhos, que fotografam camadas debaixo da tinta, mostraram desenho preparatório e correções feitas durante a execução, com figuras deslocadas e contornos refeitos. Esses dados confirmam que o conjunto foi montado por etapas, com mudança de plano no caminho.
Hoje as seis tábuas ocupam uma sala própria do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, penduradas em linha e à altura dos olhos. O museu disponibiliza as reproduções em domínio público, e é dessa fonte que sai a imagem desta edição.
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