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Os 4 cavalos dourados de Veneza

Cavalos de São Marcos, bronze dourado da Antiguidade, Basílica de São Marcos, Veneza

Os quatro cavalos de bronze dourado de São Marcos, lado a lado, com uma pata dianteira erguida

Cavalos de São Marcos, Veneza

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Uma coleira de bronze, da largura de uma mão, enfeitada com pequenos discos redondos, presa ao pescoço de um cavalo que nunca puxou carroça nenhuma. Ela foi fundida séculos depois do animal, e serve para esconder um corte.

O cavalo é de cobre quase puro, coberto por uma camada fina de ouro, em tamanho próximo do natural. Ele tem três irmãos idênticos na pose, e os quatro juntos formam o grupo que Veneza chama de Cavalos de São Marcos.

A tradição veneziana conta que, para caber num navio, as cabeças foram serradas do corpo. Na chegada, os ourives soldaram as cabeças de volta e cobriram a emenda com a coleira. Quem olha de perto vê o enfeite; quem conhece a história vê a cicatriz.

O navio era uma galera (embarcação longa movida a remo e vela) veneziana, e o ano era 1204. Os cavalos vinham de Constantinopla, a capital do Império Bizantino, onde ficavam no hipódromo (a pista de corridas de carro da cidade), acima dos portões de largada.

Eles não foram comprados. Saíram da cidade no saque da Quarta Cruzada, quando um exército cristão, pago e levado por navios de Veneza, atacou outra cidade cristã em vez de seguir para a Terra Santa.

Nos seis séculos seguintes, os quatro cavalos mudaram de dono mais uma vez e de endereço três vezes. Viraram troféu de uma república, depois troféu de um imperador francês, depois símbolo da volta para casa.

Hoje existem dois jogos deles. Na fachada da basílica, sobre a porta principal, ficam cópias. Os originais, de bronze antigo, moram dentro do prédio, longe da chuva.

Quem fez os cavalos, quando e para quê, e por que a cidade que os roubou ainda os chama de seus: as seções abaixo respondem o que se sabe e dizem o que segue sem resposta.

A primeira parada é a própria escultura, do jeito que a imagem deste email a mostra.

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I  O Que Você Vê

Quatro cavalos em marcha

A imagem do email mostra os Cavalos de São Marcos, grupo de quatro esculturas de bronze dourado feito por fundidores anônimos da Antiguidade e guardado na Basílica de São Marcos, em Veneza, na Itália.

Os quatro estão lado a lado, de corpo inteiro, sem cavaleiro e sem carro. Cada um levanta uma das patas da frente, dobrada no joelho, como quem começa a andar.

A pose em pares

Os cavalos não olham todos para o mesmo lado. Os dois da esquerda viram a cabeça levemente para a direita, e os dois da direita viram para a esquerda, de modo que os pares se encaram no centro.

O arranjo sugere que, na origem, eles puxavam uma quadriga (carro de corrida ou de desfile puxado por quatro cavalos emparelhados). O carro e o condutor, se existiram, se perderam antes de qualquer registro.

Ouro gasto e bronze escuro

A superfície mistura duas cores. Onde o douramento resistiu, o metal brilha amarelo; onde ele se gastou, aparece o bronze escuro, quase marrom, por baixo.

O ouro foi aplicado a fogo, pela técnica do douramento a mercúrio (ouro dissolvido em mercúrio, espalhado sobre o metal e aquecido até o mercúrio evaporar). O método só funciona bem sobre liga com muito cobre, e a dos cavalos tem quase nada de estanho, o que explica a cor avermelhada nas partes nuas.

Crina, boca e coleira

A crina está aparada curta e reta, como a de cavalos de parada. As bocas ficam entreabertas, e as narinas, dilatadas.

No pescoço de cada um aparece a coleira com discos, a peça acrescentada em Veneza. Ela não combina com o estilo do resto: é mais enfeitada, mais medieval, e corta a linha do pescoço onde a cabeça se encaixa no corpo.

Os olhos, as veias da cara e os músculos do peito foram modelados em detalhe. São animais de raça pesada, peito largo e pernas grossas, longe do cavalo esguio de corrida.

Vistos juntos, eles formam uma fileira compacta, sem espaço vazio entre os corpos. O escultor pensou o grupo para ser visto de frente e de baixo, como numa praça ou no alto de um monumento.

 
 

II  A História Por Trás

Três viagens por mar e por terra

O homem que mandou os cavalos para Veneza foi o doge (o chefe eleito da República de Veneza) Enrico Dandolo, que comandava a frota da Quarta Cruzada mesmo velho e quase cego.

Em abril de 1204, os cruzados tomaram Constantinopla e passaram dias saqueando igrejas, palácios e praças. Veneza escolheu o seu lote com cuidado: relíquias, colunas de mármore, placas esculpidas e os quatro cavalos do hipódromo.

A cruzada tinha uma dívida. Os cruzados haviam contratado navios venezianos e não conseguiram pagar o frete combinado, e Dandolo aceitou desviar a frota em troca de parte do que fosse tomado no caminho.

Antes de Constantinopla

A data em que os cavalos foram feitos segue em discussão. Uma corrente os atribui à Grécia do século 4 antes de Cristo, ligada ao escultor Lísipo, retratista de Alexandre, o Grande. Outra corrente, que ganhou força com o estudo da liga e da técnica, prefere a Roma dos séculos 2 ou 3 depois de Cristo.

Também não se sabe onde ficavam antes de chegar ao hipódromo. Nenhum documento da Antiguidade registra a encomenda, o escultor ou a primeira cidade, e por esse motivo a pergunta continua aberta.

Na fachada da basílica

Em Veneza, os cavalos passaram algumas décadas guardados no Arsenal, o estaleiro da república. Por volta de 1250, subiram para a loggia (a varanda aberta) da fachada de São Marcos, sobre a porta principal.

Lá em cima, viraram assinatura da cidade. O poeta Francesco Petrarca, que morou em Veneza no século 14, escreveu em carta que os cavalos pareciam vivos, prontos para relinchar e bater o casco.

O troféu de Napoleão

Em 1797, as tropas de Napoleão Bonaparte entraram em Veneza e puseram fim a mais de mil anos de república. Os cavalos desceram da fachada e seguiram para Paris como butim de guerra.

Na capital francesa, ganharam um carro e um condutor novos e foram montados, em 1808, no alto do Arco do Triunfo do Carrossel, o portão monumental diante do Palácio das Tulherias.

A volta para casa

Napoleão perdeu em Waterloo em 1815, e os aliados vencedores exigiram de volta as obras levadas pela França. O escultor veneziano Antonio Canova foi a Paris negociar a devolução das obras italianas.

Os cavalos foram desmontados do arco e voltaram por terra e por mar. Em dezembro de 1815, subiram de novo à fachada de São Marcos, com festa na praça.

 

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III  Por Que Importa

Um butim que virou patrimônio

Os cavalos são o único grupo de quatro cavalos de bronze da Antiguidade clássica preservado inteiro. Outros grupos de quadriga existiram, mas viraram moeda, sino ou canhão quando o bronze valia mais derretido.

Sobreviveram justamente por trocar de dono. Cada nova cidade os tratou como prêmio, e prêmio não se derrete.

Um símbolo de independência

Para Veneza, os cavalos passaram a significar a liberdade da república, que não respondia a rei nem a imperador. Por esse motivo, a perda de 1797 doeu em dobro: o mesmo exército que acabou com a república levou o símbolo dela.

A volta de 1815 não devolveu a independência, porque Veneza passou ao domínio do Império Austríaco. Ainda assim, a cidade recebeu os cavalos como prova de que algo dela tinha sobrevivido à conquista.

Escondidos nas guerras

Nas duas guerras mundiais, Veneza voltou a descer os cavalos da fachada. Foram embrulhados, levados para longe da costa e guardados até o fim dos bombardeios.

Cada descida exigiu andaime, guindaste e equipe de restauro. Ainda assim, ninguém propôs deixá-los escondidos de vez: a fachada sem eles parecia incompleta para a cidade.

A troca pelas cópias

O inimigo seguinte foi o ar. A poluição de Veneza, com enxofre da indústria de Marghera, corroía o bronze e atacava o douramento.

Em 1982, os originais saíram da varanda para sempre e entraram no Museu de São Marcos, dentro da própria basílica. No lugar deles, a fachada recebeu cópias fundidas em bronze, que é o que o turista vê da praça.

Para ver os originais, o visitante sobe a escada estreita que leva ao museu, no andar de cima da basílica. Ali os quatro cavalos ficam no nível dos olhos, perto o bastante para mostrar as emendas do pescoço e o ouro gasto.

A pergunta da devolução

A origem do grupo carrega uma conta que nunca foi paga. Em 2004, oito séculos depois do saque, o papa João Paulo II pediu perdão ao patriarca de Constantinopla pela violência de 1204 e devolveu a ele relíquias de João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno, mas os cavalos ficaram.

A Grécia e a Turquia, herdeiras da cidade, nunca apresentaram pedido formal de devolução dos cavalos. Veneza os trata como parte da basílica, e a basílica os trata como seus há mais de setecentos anos.

Por ser obra da Antiguidade, o grupo está em domínio público, e as imagens dos cavalos circulam livres.

Uma relíquia de Veneza, guardada pela cidade que a salvou do derretimento, ou o butim de um saque, com dono anterior e endereço em Istambul. Os dois lados da história estão acima, cada um com as suas datas.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual escultor foi a Paris negociar a devolução dos cavalos depois da derrota de Napoleão em Waterloo?

AFrancesco Petrarca
BEnrico Dandolo
CAntonio Canova
DLísipo

Resultado da última edição: 80% acertaram.

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