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Os cavalos são o único grupo de quatro cavalos de bronze da Antiguidade clássica preservado inteiro. Outros grupos de quadriga existiram, mas viraram moeda, sino ou canhão quando o bronze valia mais derretido.
Sobreviveram justamente por trocar de dono. Cada nova cidade os tratou como prêmio, e prêmio não se derrete.
Um símbolo de independência
Para Veneza, os cavalos passaram a significar a liberdade da república, que não respondia a rei nem a imperador. Por esse motivo, a perda de 1797 doeu em dobro: o mesmo exército que acabou com a república levou o símbolo dela.
A volta de 1815 não devolveu a independência, porque Veneza passou ao domínio do Império Austríaco. Ainda assim, a cidade recebeu os cavalos como prova de que algo dela tinha sobrevivido à conquista.
Escondidos nas guerras
Nas duas guerras mundiais, Veneza voltou a descer os cavalos da fachada. Foram embrulhados, levados para longe da costa e guardados até o fim dos bombardeios.
Cada descida exigiu andaime, guindaste e equipe de restauro. Ainda assim, ninguém propôs deixá-los escondidos de vez: a fachada sem eles parecia incompleta para a cidade.
A troca pelas cópias
O inimigo seguinte foi o ar. A poluição de Veneza, com enxofre da indústria de Marghera, corroía o bronze e atacava o douramento.
Em 1982, os originais saíram da varanda para sempre e entraram no Museu de São Marcos, dentro da própria basílica. No lugar deles, a fachada recebeu cópias fundidas em bronze, que é o que o turista vê da praça.
Para ver os originais, o visitante sobe a escada estreita que leva ao museu, no andar de cima da basílica. Ali os quatro cavalos ficam no nível dos olhos, perto o bastante para mostrar as emendas do pescoço e o ouro gasto.
A pergunta da devolução
A origem do grupo carrega uma conta que nunca foi paga. Em 2004, oito séculos depois do saque, o papa João Paulo II pediu perdão ao patriarca de Constantinopla pela violência de 1204 e devolveu a ele relíquias de João Crisóstomo e Gregório Nazianzeno, mas os cavalos ficaram.
A Grécia e a Turquia, herdeiras da cidade, nunca apresentaram pedido formal de devolução dos cavalos. Veneza os trata como parte da basílica, e a basílica os trata como seus há mais de setecentos anos.
Por ser obra da Antiguidade, o grupo está em domínio público, e as imagens dos cavalos circulam livres.
Uma relíquia de Veneza, guardada pela cidade que a salvou do derretimento, ou o butim de um saque, com dono anterior e endereço em Istambul. Os dois lados da história estão acima, cada um com as suas datas.
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