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O rinoceronte de ouro oco de Mapungubwe

Rinoceronte de folha de ouro sobre núcleo de madeira, reino de Mapungubwe, África do Sul, por volta de 1250

Fotografia de 1937 do rinoceronte de ouro de Mapungubwe, de perfil, sustentado por duas hastes finas, com uma escala de cinco centímetros à frente

Rinoceronte de ouro de Mapungubwe, por volta de 1250, em foto publicada em 1937

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Um rinoceronte de ouro com cerca de 15 centímetros de comprimento, feito de uma folha fina batida a martelo e presa com tachas de ouro do tamanho de um grão de arroz. Por dentro, nada. A figura é oca, e prova que um ourives africano, por volta de 1250, sabia vestir madeira com metal.

O objeto saiu de uma sepultura no alto do morro de Mapungubwe, no norte da África do Sul, perto do encontro dos rios Limpopo e Shashe. Ali, onde hoje se cruzam as fronteiras da África do Sul, do Botsuana e do Zimbábue, existiu um reino que negociava ouro e marfim com a costa do oceano Índico.

O artesão começou por um animal de madeira entalhada. Depois martelou o ouro até virar lâmina, recortou as peças, dobrou cada uma sobre o corpo de madeira e fixou as emendas com as tachas, uma ao lado da outra.

Orelhas, chifre e rabo foram feitos à parte e encaixados no corpo, como peças de um brinquedo de montar.

Séculos de terra úmida fizeram o resto. A madeira apodreceu dentro da casca de metal e sumiu, e a folha de ouro ficou sozinha, amassada e em pedaços, com as tachas ainda cravadas nas bordas.

Quem encontrou a figura nos anos 1930 tirou do chão fragmentos dourados, não um animal inteiro. O rinoceronte que hoje fica numa vitrine da Universidade de Pretória é uma remontagem desses fragmentos, feita por conservadores sobre um suporte novo.

A técnica explica a fragilidade. Um rinoceronte maciço do mesmo tamanho gastaria muito metal; a folha cobria a madeira inteira com pouco ouro e dava ao animal o brilho de uma peça sólida.

O rinoceronte virou o objeto mais famoso da arqueologia sul-africana. Desde 2002, a Ordem de Mapungubwe, a maior honraria do país, leva a figura dele no desenho da insígnia.

A primeira parada é a própria figura, do jeito que uma câmera a registrou em 1937, na foto deste email.

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I  O Que Você Vê

Uma casca de ouro sobre duas hastes

A imagem do email é uma fotografia colorida publicada em 1937, no primeiro relatório das escavações da Universidade de Pretória. Ela mostra o rinoceronte de ouro de Mapungubwe, feito por volta de 1250 por ourives anônimos, pouco depois do achado e já remontado a partir dos fragmentos: de perfil, com a cabeça voltada para a direita e o corpo comprido e baixo, de um dourado manchado.

Duas hastes finas de metal sustentam o corpo, uma sob a traseira e outra sob o peito, e uma escala de cinco centímetros, posta à frente, mostra o tamanho da peça. No alto da cabeça, uma orelha pequena fica de pé; embaixo dela, o focinho chega em pedaços, com as bordas da folha recortadas.

A pele de metal

A superfície não é lisa. A folha de ouro tem dobras, amassados e pequenas ondas, marcas do martelo e dos séculos em que a figura passou esmagada sob a terra.

Nas emendas, onde uma lâmina encontra a outra, a foto mostra linhas curvas atravessando o corpo. É nelas que ficam as tachas, em fileira, como uma costura de pontos dourados.

As tachas também eram de ouro. O ourives cortava pedaços de fio do metal, afinava uma das pontas e cravava cada um na madeira, prendendo a borda da folha.

Um rinoceronte de formas simples

A figura não copia o animal com precisão de naturalista. O corpo forma um bloco, a cabeça avança para a frente como uma cunha e, na foto de 1937, as patas são só saliências arredondadas na barriga, sem chegar ao chão.

O chifre único, que a remontagem atual mostra erguido no focinho, provoca debate. Os dois rinocerontes da região, o branco e o negro, têm dois chifres, um maior na frente do focinho e um menor logo atrás.

Uma leitura diz que o artesão escolheu mostrar só o chifre principal, o mais visível de longe. Outra lembra que a figura chegou em pedaços, e que um segundo chifre pode ter se perdido antes da remontagem.

Nenhuma das duas tem prova definitiva. O estado original da peça só se conhece pelos fragmentos, e ninguém registrou a posição exata deles na cova no dia do achado.

O que a imagem esconde

A madeira não aparece. O corpo que deu forma ao animal sumiu, e o que se vê é a casca, de pé graças às duas hastes da remontagem.

A escala posta à frente desfaz a impressão de escultura grande. O animal inteiro mede cerca de três vezes o comprimento dela e, na vitrine, cabe na palma de uma mão adulta.

O peso da figura também surpreende quem espera ouro maciço. Uma folha fina sobre madeira pesava pouco, e o animal podia ser erguido com dois dedos no dia em que foi posto na cova.

 
 

II  A História Por Trás

O morro dos reis

Mapungubwe é um morro de arenito de topo plano, com paredes quase verticais, no vale do Limpopo. Entre os anos 1220 e 1290, mais ou menos, o alto dele abrigou a casa do rei e da elite do reino.

O povo comum morava embaixo, na planície ao redor. O arqueólogo Thomas Huffman, da Universidade do Witwatersrand, descreveu essa divisão no livro Mapungubwe: Ancient African Civilisation on the Limpopo (Mapungubwe, antiga civilização africana no Limpopo), de 2005, como um dos primeiros sinais de classes sociais no sul da África.

A riqueza vinha do comércio. O reino mandava marfim e ouro para portos da costa do Índico e recebia em troca contas de vidro e tecidos. Cacos de porcelana chinesa apareceram nas escavações do morro.

Três túmulos com ouro

No topo, os escavadores acharam um cemitério com pessoas enterradas sentadas, com os joelhos dobrados contra o peito. Três dessas sepulturas guardavam ouro.

Uma delas tinha o rinoceronte. As outras trouxeram uma tigela de ouro, um cetro também de ouro e milhares de contas de ouro e de vidro, além de pulseiras de fio de ouro enrolado.

Ninguém sabe o nome das pessoas enterradas ali. O reino não usava escrita, e a tradição oral dos povos da região não guardou os nomes dos reis de Mapungubwe.

Como o ouro saiu do chão

A história moderna do achado começa no último dia de 1932. Um morador da região chamado Mowena levou o fazendeiro Jerry van Graan e alguns companheiros até o morro, um lugar que os moradores evitavam por respeito aos mortos.

No topo, o grupo achou pedaços de ouro na superfície e cavou. Parte do material chegou às mãos de Leo Fouché, professor de história da Universidade de Pretória, e o governo comprou a fazenda para proteger o sítio.

A universidade abriu escavações em 1933 e ficou com a guarda das peças. É no Museu de Mapungubwe, no campus de Pretória, que o rinoceronte está até hoje.

O fim do reino

Por volta de 1300, o morro foi abandonado. A explicação mais aceita aponta uma mudança no clima, com chuvas mais escassas que tornaram difícil a lavoura no vale.

O poder e o comércio do ouro se mudaram para o norte, para o planalto onde cresceu o Grande Zimbábue. O rinoceronte ficou no túmulo, e ninguém mais tocou nele por quase sete séculos.

 

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III  Por Que Importa

Uma prova enterrada

A história ensinada na África do Sul durante boa parte do século 20 dizia que o interior do país não tinha reinos antes da chegada dos europeus. O rinoceronte de ouro desmentia essa versão com um objeto de metal precioso, trabalho de especialista, feito séculos antes dos primeiros colonos.

Por décadas, o achado ficou restrito a relatórios acadêmicos e a depósitos da universidade. Fora dos círculos de arqueologia, pouca gente no país sabia da existência dele.

Do depósito à medalha

O quadro mudou depois do fim do apartheid (o regime de segregação racial que vigorou até 1994). A universidade passou a expor a coleção ao público num museu próprio, e o rinoceronte saiu da gaveta para a vitrine.

Em 2002, o governo criou a Ordem de Mapungubwe, condecoração dada pelo presidente a sul-africanos de destaque, e pôs o rinoceronte no desenho da insígnia. Nelson Mandela foi um dos primeiros a recebê-la.

Em 2003, a UNESCO inscreveu a Paisagem Cultural de Mapungubwe na lista do Patrimônio Mundial. O morro hoje fica dentro do Parque Nacional de Mapungubwe, aberto a visitas.

Os restos humanos

Os esqueletos tirados dos túmulos passaram décadas guardados na universidade. Em 2007, foram devolvidos e enterrados de novo no morro, numa cerimônia com as comunidades que se dizem descendentes do reino.

O ouro não voltou ao chão. O rinoceronte, a tigela e o cetro seguem na coleção de Pretória, e a figura, feita por volta de 1250, não tem autor conhecido nem direito autoral sobre a imagem.

O que o rinoceronte significava

O povo de Mapungubwe não deixou textos, e por esse motivo o sentido da figura só se reconstrói por comparação com crenças registradas mais tarde entre povos da região.

Nessas crenças, o rinoceronte aparece ligado à liderança: um animal solitário, difícil de enfrentar, que não recua. Por essa leitura, a figura seria o emblema do chefe enterrado com ela.

Outra leitura vê no animal um objeto de ritual, ligado à chuva, preocupação central de um reino que dependia da lavoura e que acabou quando a chuva faltou. As duas hipóteses convivem, e nenhuma se prova sem escrita.

A casca que ficou

A folha de ouro sobreviveu e o corpo de madeira desapareceu. O que resta é a forma sem o recheio, remontada por mãos de outro século a partir de pedaços amassados.

Um emblema de poder enterrado com o rei, ou um objeto de ritual pela chuva que sustentava o vale: as duas respostas cabem na mesma casca vazia exposta em Pretória.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, as tachas de ouro que prendiam a folha ao núcleo de madeira do rinoceronte tinham o tamanho de quê?

AUm grão de pimenta
BUm grão de milho
CUm grão de arroz
DUm grão de café

Resultado da última edição: 57% acertaram.

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