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O moai de 21 metros preso à pedreira de Rano Raraku

Moai inacabado chamado El Gigante, tufo vulcânico entalhado, pedreira de Rano Raraku, Ilha de Páscoa, séculos 13 a 17

Moai inacabado preso à rocha pela quilha na pedreira de Rano Raraku, com um menino sentado embaixo para dar a escala, foto em preto e branco de 1914

Moai inacabado ainda preso à rocha, pedreira de Rano Raraku, Ilha de Páscoa (Mana Expedition, 1914, British Museum)

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Uma figura de pedra de quase 21 metros, deitada de barriga para cima na encosta de um vulcão, com as costas ainda grudadas na rocha de onde foi cortada. Ela prova que os escultores da Ilha de Páscoa planejaram uma estátua com o dobro da altura de tudo o que conseguiram pôr de pé.

O lugar é Rano Raraku, a cratera de um vulcão extinto no leste da ilha. Os ilhéus chamam a ilha de Rapa Nui e chamam as estátuas de moai (figura, imagem, na língua rapanui).

Quase todos os moai da ilha saíram dessa pedreira. A rocha é um tufo vulcânico (cinza de vulcão que endureceu com o tempo), cinza amarelado, macio o bastante para ceder a um machado de pedra e firme o bastante para durar séculos ao ar livre.

O gigante ganhou dos estudiosos o nome espanhol de El Gigante. Na língua da ilha, ele aparece em textos de turismo e de museu como Te Tokanga.

O rosto está pronto. Dá para ler a testa reta, o nariz longo, os lábios apertados e o queixo pesado, o mesmo desenho das estátuas que ficaram de pé à beira-mar.

O que falta é o corte final. Uma quilha de rocha corre por baixo das costas da figura e a prende à montanha em toda a extensão do corpo. Ninguém nunca a soltou.

Para medir o tamanho do plano, vale olhar a maior estátua que os rapanui de fato ergueram. Ela se chama Paro, tem perto de 10 metros e ficou numa plataforma no norte da ilha até ser derrubada no século 19.

El Gigante tem mais ou menos o dobro disso. Se tivesse saído da pedreira, seria a maior escultura de pedra feita por um povo da Polinésia em qualquer época.

A pedreira inteira ajuda a entender por que ele ficou ali. Ela está cheia de estátuas em todos os estágios, das que mal começaram às que já desciam a encosta.

A primeira parada é a própria encosta, do jeito que ela aparece na imagem do email.

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I  O Que Você Vê

A encosta das cabeças

A imagem do email mostra a encosta de Rano Raraku coberta de capim, com rochas de tom cinza e amarelo saindo do chão. Nela se veem cabeças de moai, grandes e escuras, plantadas na terra.

As cabeças olham para longe da montanha. Têm a testa larga, a sobrancelha funda que faz sombra sobre os olhos, o nariz comprido e a boca fechada numa linha reta.

Corpos enterrados

Quem chega à encosta enxerga só cabeças. Entre 2010 e 2012, a equipe do Easter Island Statue Project escavou duas delas e mostrou os corpos inteiros embaixo da terra, com tronco, braços e mãos longas apoiadas sobre a barriga.

Nas costas de uma das figuras desenterradas apareceram desenhos gravados na pedra, e no fundo da vala os escavadores acharam restos de pigmento vermelho e as marcas dos postes de madeira usados para erguer a estátua.

A terra que as cobre desceu da própria encosta ao longo dos séculos. Lascas, pó de rocha e lama das chuvas foram enterrando as figuras até o pescoço.

O que o escultor deixou na pedra

Os moai de Rano Raraku têm um traço comum. O rosto é longo e vertical, as orelhas descem até a altura do queixo e o pescoço quase some entre a cabeça e os ombros.

O olho não tem pupila. A cavidade funda sob a sobrancelha estava pronta para receber, nas estátuas que chegavam à plataforma, olhos de coral branco com íris de pedra vermelha ou de obsidiana (vidro vulcânico escuro).

As estátuas da encosta nunca ganharam esses olhos. Elas ficaram na pedreira à espera do transporte, e o olho de coral só entrava no destino final.

O gigante fora da foto

El Gigante não aparece na imagem do email. Ele fica no interior da pedreira, deitado na rocha viva, de rosto para o céu.

O escultor começou pelo rosto e pela frente do corpo. Com o tempo, foi cavando valas dos dois lados da figura, largas o bastante para um homem trabalhar de pé.

Depois disso viria o passo mais difícil, o de cortar a quilha por baixo das costas. Esse passo não aconteceu, e é por ele que o gigante segue preso.

 
 

II  A História Por Trás

A pedreira de Rano Raraku

O levantamento mais completo das estátuas é o do Easter Island Statue Project, dirigido pela arqueóloga Jo Anne Van Tilburg, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. O inventário dela conta 887 moai na ilha.

Na contagem de Van Tilburg, perto de 400 desses moai continuam em Rano Raraku. Uns estão de pé na encosta, outros deitados nos nichos de onde saíram, outros ainda pela metade.

Como se cortava o tufo

Os escultores usavam toki (machado de mão feito de basalto, uma pedra mais dura que o tufo). Milhares deles ficaram espalhados pelo chão da pedreira, gastos e quebrados.

O trabalho começava pela face da figura. Os escultores desenhavam o contorno na rocha, cavavam ao redor e só no fim soltavam as costas, deixando a estátua presa por uma quilha cada vez mais fina.

Solta, a estátua descia a encosta em rampas de terra e era posta de pé em buracos ao pé do vulcão. Lá recebia o acabamento das costas antes de seguir viagem.

Como andavam até a costa

A tradição oral rapanui diz que os moai caminharam até o mar, movidos pelo mana (poder sagrado, na crença polinésia) dos chefes.

Em 2012, os arqueólogos Terry Hunt e Carl Lipo testaram uma versão concreta dessa história. Com uma réplica de cerca de 5 toneladas, 18 pessoas e três cordas, fizeram a estátua balançar de um lado para o outro e avançar de pé, como quem anda.

Os moai caídos ao longo das antigas estradas da ilha ajudam essa leitura. Muitos estão com a base mais larga na frente, desenho que favorece o balanço.

Por que o gigante ficou

Ninguém sabe por que El Gigante foi largado. Não há registro escrito do período, e a tradição oral recolhida pelos arqueólogos diz que ele talvez fosse para Ahu Tahira, em Vinapu.

As hipóteses dos estudiosos são duas. Uma diz que ele nunca foi pensado para sair, e que a estátua era uma figura da própria pedreira. A outra diz que ele era grande demais para qualquer técnica de transporte da ilha, e que o trabalho parou quando os escultores perceberam o limite.

Há ainda um fato do conjunto. Por volta do século 17, a produção de moai cessou na ilha inteira, e todas as obras em andamento na pedreira ficaram onde estavam.

 

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III  Por Que Importa

Uma ilha no meio do Pacífico

Rapa Nui é um pedaço de terra de 163 quilômetros quadrados, a mais de 3.500 quilômetros da costa do Chile. Os polinésios chegaram lá em canoas, por volta do ano 1200, e por séculos não tiveram contato com nenhum outro povo.

As estátuas eram retratos de ancestrais. Ficavam de pé sobre plataformas de pedra chamadas ahu, quase sempre de costas para o mar e de frente para as aldeias que protegiam.

O que os europeus encontraram

O navegador holandês Jacob Roggeveen chegou à ilha no domingo de Páscoa de 1722, e dele vem o nome europeu do lugar. Ele viu estátuas de pé.

Ao longo do século 19, as estátuas foram derrubadas uma a uma, nas guerras entre clãs da ilha. Paro, a maior delas, foi uma das últimas a cair.

No mesmo século, navios negreiros do Peru levaram em 1862 centenas de ilhéus para o trabalho forçado, e as doenças trazidas na volta dos poucos sobreviventes reduziram a população a pouco mais de cem pessoas. O Chile anexou a ilha em 1888.

Uma escultura sem fim

Uma estátua inacabada guarda o que uma pronta esconde: o método. Em El Gigante dá para ver a ordem dos cortes, a largura das valas e o ponto exato em que o trabalho parou.

Os moai de pé na costa mostram o resultado, polido e com olhos de coral. Alguns ganharam ainda o pukao (chapéu de pedra vermelha, cortado em outra cratera da ilha).

O acabamento apaga as marcas do machado. A pedreira mostra o processo, e é por ela que os arqueólogos reconstruíram como os rapanui transformavam um vulcão em gente de pedra.

A UNESCO inscreveu o Parque Nacional Rapa Nui como Patrimônio Mundial em 1995, e Rano Raraku está dentro dele. Os moai, feitos entre os séculos 13 e 17, pertencem ao povo rapanui e a ninguém mais, sem direito autoral de artista sobre a imagem.

Duas leituras do gigante

Para a primeira leitura, El Gigante é um erro de cálculo: uma ambição que passou do limite da técnica e foi largada no meio. Para a segunda, ele é uma figura feita para ficar na montanha, deitada na pedra de onde saíram todas as outras.

Os dois lados olham para a mesma quilha intacta sob as costas da estátua. Um projeto grande demais para sair do lugar, ou uma figura que nasceu para morar na pedreira: as duas leituras estão na encosta de Rano Raraku.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual é a altura aproximada do moai inacabado chamado El Gigante, na pedreira de Rano Raraku?

ACerca de 10 metros, a mesma altura da estátua Paro
BCerca de 5 metros, peso usado no teste de caminhada de Hunt e Lipo
CCerca de 21 metros, quase o dobro de Paro
DCerca de 15 metros, metade do tamanho de El Gigante

Resultado da última edição: 70% acertaram.

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