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No Egito antigo, poucos sabiam ler e escrever. As estimativas mais aceitas falam em algo perto de 1% da população no Antigo Império, quase todos homens ligados ao palácio e aos templos.
Esse 1% contava os grãos dos celeiros, media os campos depois da cheia do Nilo, registrava impostos, escrevia cartas do faraó e copiava os textos dos rituais. Sem o escriba, o Estado não sabia quanto tinha nem quanto devia cobrar.
A estátua de um funcionário
Estátuas de faraó mostravam um corpo perfeito e eterno. A do escriba mostra um homem comum, com barriga, de pernas cruzadas, no meio do trabalho, e por esse motivo virou um dos retratos mais vivos da arte egípcia.
Ela não era feita para ser vista. Ficava fechada no túmulo, numa salinha sem porta, para servir de corpo de reserva ao espírito do morto. O homem queria continuar no ofício que lhe deu posição.
O conselho de um pai
Um texto egípcio, escrito alguns séculos depois da estátua, mostra o peso da profissão. Na Sátira das Profissões, um pai chamado Kheti leva o filho à escola de escribas e compara a vida dele com a de outros trabalhadores.
"Eu te faço amar os livros mais do que a tua mãe", diz Kheti ao filho (Kheti, Sátira das Profissões, por volta de 2000 antes de Cristo). Em seguida, descreve o ferreiro com dedos de crocodilo, o pescador entre os bichos do rio e o lavrador cansado, e conclui que só o escriba manda em si.
O papiro continua em branco
Há uns 4.500 anos, o escultor congelou o escriba no segundo antes da primeira palavra. A folha nunca recebeu tinta, e a mão nunca recebeu o pincel de volta.
A pose do escriba de pernas cruzadas se repetiu por séculos no Egito. O Museu Egípcio do Cairo guarda outras estátuas de escribas na mesma posição, com o rolo no colo, mas poucas conservam os olhos e a pintura tão inteiros quanto a do Louvre.
Os curadores do Louvre preferiram não pôr um pincel novo. A estátua segue do jeito que saiu da areia, com o furo na mão à mostra, e o furo virou parte da peça.
A estátua está em domínio público, como toda obra da Antiguidade, e a imagem dela circula livre.
Um escriba à espera de um ditado, com a folha em branco como prova de que o trabalho ainda não começou, ou um escriba que já terminou, e cujo texto se perdeu com o pincel. As duas leituras estão acima, apoiadas na mesma mão fechada.
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