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O escriba de mão vazia do Louvre

Escriba Sentado, calcário pintado do Antigo Império, Museu do Louvre, Paris

Estátua egípcia de um escriba sentado de pernas cruzadas, com um papiro aberto no colo

Escriba Sentado, Museu do Louvre

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Uma folha de papiro aberta sobre um colo de pedra, com uns 20 centímetros de largura e nenhuma letra escrita. Ao lado dela, uma mão direita fechada em volta de um furo vazio, do tamanho exato de um pincel de junco.

A folha e a mão são de calcário pintado, e pertencem a um homem sentado de pernas cruzadas, com pouco mais de meio metro de altura. Ele foi esculpido no Egito há uns 4.500 anos, e hoje mora numa vitrine do Museu do Louvre, em Paris.

O pincel existiu. Sumiu em algum momento entre o enterro e a escavação, e deixou para trás o gesto sem a ferramenta. A mão continua apertada, pronta para a primeira palavra.

O papiro em branco também não é defeito. O escultor podia ter pintado sinais na folha, como fez em outras peças da mesma época, e escolheu deixá-la limpa. A estátua mostra o instante antes da escrita, quando o homem ainda espera a frase do outro.

Quem ditava, ninguém sabe. Também não se sabe o nome do escriba, nem do escultor, nem o ano exato em que a pedra foi trabalhada. O que sobrou é a postura, a pele avermelhada e um par de olhos que segue o visitante pela sala.

Os olhos são o motivo de a vitrine viver cercada. Foram feitos de pedra polida e cristal, com aro de cobre, e guardam um brilho úmido difícil de acreditar numa peça tão antiga.

A estátua saiu da areia de Saqqara, o grande cemitério da antiga capital Mênfis, por volta de 1850, nas mãos de um jovem francês que tinha ido ao Egito para comprar manuscritos e acabou cavando.

Por que uma sociedade de faraós e pirâmides gastou pedra, pintura e cristal com um funcionário de escritório: as seções abaixo contam o que se sabe e apontam o que segue sem resposta.

A primeira parada é a estátua, do jeito que a imagem deste email a mostra.

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I  O Que Você Vê

Um homem de pernas cruzadas

A imagem do email mostra o Escriba Sentado, estátua de calcário pintado feita por um escultor anônimo do Antigo Império egípcio e guardada no Museu do Louvre, em Paris, na França.

O homem está sentado no chão, com as pernas cruzadas à frente do corpo, a coluna reta e a cabeça erguida. Ele não olha para a folha no colo. Olha para a frente, um pouco para cima, para quem estaria falando.

A saia virou mesa

O escriba veste só uma saia branca curta, de linho, esticada com força entre os joelhos. O pano esticado funciona como uma mesa firme, e é sobre ela que o papiro descansa.

A mão esquerda segura o rolo, parte enrolada e parte aberta. A direita fica sobre a folha, fechada num punho frouxo, com um furo no meio onde o pincel de junco se encaixava.

Os egípcios escreviam com a ponta mastigada de um talo de junco, molhada em tinta preta de fuligem ou vermelha de ocre. O escriba levava as duas tintas numa paleta de madeira, presa por um cordão.

O corpo de quem fica sentado

O escultor não fez um atleta. O peito é mole, a barriga faz uma dobra sobre a cintura, os ombros caem um pouco. É o corpo de um homem que passa o dia sentado e come bem.

Na arte egípcia, a barriga cheia era sinal de posição. Quem trabalhava no campo ficava magro; quem trabalhava com a escrita tinha comida garantida, e o escultor quis deixar o fato à mostra.

Os mamilos foram feitos à parte, com dois pinos de madeira encaixados na pedra. A pele do corpo inteiro recebeu um vermelho ocre, a cor dos homens na pintura do Egito; as mulheres eram pintadas mais claras.

Os olhos de cristal

O rosto tem as maçãs largas, os lábios finos e fechados e as orelhas grandes, um pouco afastadas da cabeça. O cabelo, preto e curto, cola no crânio.

Os olhos são a parte mais trabalhada da peça. A parte branca é de magnesita, uma pedra clara; a íris é de cristal de rocha, polido e com o fundo pintado para imitar a pupila; um aro de cobre contorna tudo, como se fosse o traço da maquiagem.

Com a luz certa, o cristal reflete como um olho molhado. Quem anda pela sala tem a impressão de ser acompanhado, e o efeito vem justamente da curva do cristal, que muda o reflexo a cada passo.

 
 

II  A História Por Trás

Da areia de Saqqara a Paris

O homem que achou a estátua foi Auguste Mariette, um francês de 29 anos que tinha chegado ao Egito em 1850 a serviço do Louvre. A missão dele era comprar manuscritos antigos em mosteiros coptas.

Os mosteiros se recusaram a vender. Mariette, com o dinheiro da viagem no bolso, decidiu cavar por conta própria em Saqqara, no planalto de areia ao sul do Cairo.

A avenida de esfinges

Numa das primeiras visitas, ele viu a cabeça de uma esfinge saindo da areia. Lembrou de um texto do geógrafo grego Estrabão, que descrevia uma avenida de esfinges levando ao Serapeu, o templo dos touros sagrados de Mênfis.

Mariette seguiu a fila de esfinges por meses, contratou dezenas de trabalhadores e chegou às galerias subterrâneas do Serapeu. Nas escavações em volta, apareceram túmulos do Antigo Império, e num deles estava o escriba.

O registro do achado é pobre. Mariette anotava mal, e os diários da escavação deixam dúvidas sobre o túmulo exato. Por esse motivo, o nome do escriba se perdeu: a estátua chegou sem a inscrição que diria quem ele era.

Uma data em aberto

O Louvre data a peça do Antigo Império, entre 2675 e 2545 antes de Cristo, na época da 4ª dinastia. É o tempo das grandes pirâmides de Gizé, que ficam a poucos quilômetros de Saqqara.

Alguns estudiosos defendem uma data um pouco mais tardia, pelo estilo do rosto e pela forma de sentar. Sem a inscrição e sem o contexto exato do túmulo, a discussão segue sem fim.

A partilha das peças

Naquele tempo, o Egito ainda não tinha lei forte de proteção às antiguidades. Mariette mandou caixas e caixas de achados para Paris, e o escriba entrou no Louvre em 1854.

O próprio Mariette mudou de lado depois. Voltou ao Egito, fundou o serviço de antiguidades do país e o primeiro museu egípcio no Cairo, e passou o resto da vida tentando segurar as peças no lugar de origem.

Ele foi enterrado no Cairo, num sarcófago de pedra no jardim do museu que criou. O escriba que ele mandou para Paris nunca voltou.

 

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III  Por Que Importa

O ofício de quem sabia escrever

No Egito antigo, poucos sabiam ler e escrever. As estimativas mais aceitas falam em algo perto de 1% da população no Antigo Império, quase todos homens ligados ao palácio e aos templos.

Esse 1% contava os grãos dos celeiros, media os campos depois da cheia do Nilo, registrava impostos, escrevia cartas do faraó e copiava os textos dos rituais. Sem o escriba, o Estado não sabia quanto tinha nem quanto devia cobrar.

A estátua de um funcionário

Estátuas de faraó mostravam um corpo perfeito e eterno. A do escriba mostra um homem comum, com barriga, de pernas cruzadas, no meio do trabalho, e por esse motivo virou um dos retratos mais vivos da arte egípcia.

Ela não era feita para ser vista. Ficava fechada no túmulo, numa salinha sem porta, para servir de corpo de reserva ao espírito do morto. O homem queria continuar no ofício que lhe deu posição.

O conselho de um pai

Um texto egípcio, escrito alguns séculos depois da estátua, mostra o peso da profissão. Na Sátira das Profissões, um pai chamado Kheti leva o filho à escola de escribas e compara a vida dele com a de outros trabalhadores.

"Eu te faço amar os livros mais do que a tua mãe", diz Kheti ao filho (Kheti, Sátira das Profissões, por volta de 2000 antes de Cristo). Em seguida, descreve o ferreiro com dedos de crocodilo, o pescador entre os bichos do rio e o lavrador cansado, e conclui que só o escriba manda em si.

O papiro continua em branco

Há uns 4.500 anos, o escultor congelou o escriba no segundo antes da primeira palavra. A folha nunca recebeu tinta, e a mão nunca recebeu o pincel de volta.

A pose do escriba de pernas cruzadas se repetiu por séculos no Egito. O Museu Egípcio do Cairo guarda outras estátuas de escribas na mesma posição, com o rolo no colo, mas poucas conservam os olhos e a pintura tão inteiros quanto a do Louvre.

Os curadores do Louvre preferiram não pôr um pincel novo. A estátua segue do jeito que saiu da areia, com o furo na mão à mostra, e o furo virou parte da peça.

A estátua está em domínio público, como toda obra da Antiguidade, e a imagem dela circula livre.

Um escriba à espera de um ditado, com a folha em branco como prova de que o trabalho ainda não começou, ou um escriba que já terminou, e cujo texto se perdeu com o pincel. As duas leituras estão acima, apoiadas na mesma mão fechada.

 
 
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Segundo o texto, de que material é feita a íris dos olhos do Escriba Sentado?

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BCristal de rocha polido
CEsmalte vítreo azul
DOsso polido

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