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O caldeirão de prata desmontado no pântano

Caldeirão de Gundestrup, prata com partes douradas, Idade do Ferro, Museu Nacional da Dinamarca

Placa do Caldeirão de Gundestrup, prata em relevo com figura sentada de chifres de veado, cervos, felinos e uma serpente

Caldeirão de Gundestrup, Museu Nacional da Dinamarca

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Uma tigela de prata com 69 centímetros de diâmetro e 42 de altura, coberta por dentro e por fora de placas com deuses, guerreiros e animais em relevo. O conjunto pesa perto de nove quilos e prova que, na Idade do Ferro, alguém pagou uma fortuna em metal para depois enterrar tudo de propósito.

Em maio de 1891, um grupo de cortadores de turfa (o solo vegetal escuro que se tira do brejo, seca e queima como lenha) trabalhava no pântano de Rævemosen, perto da aldeia de Gundestrup, na região de Himmerland, norte da Dinamarca.

A pá bateu em metal. Debaixo da turfa estava o fundo redondo de um caldeirão e, dentro dele, empilhadas, doze placas retangulares de prata. Somando o fundo, eram treze peças.

Ninguém tinha quebrado o caldeirão por acidente. As placas estavam soltas, dobradas com cuidado e arrumadas umas sobre as outras, e faltava uma delas, que nunca apareceu.

O lugar onde ficaram também diz muito. Na época do depósito, o trecho do pântano era um terreno firme e seco, que depois a turfa cobriu, camada por camada, ao longo de séculos.

A turfa guardou o metal sem oxigênio e sem luz. Quando as placas saíram do chão, os relevos estavam nítidos o bastante para mostrar o desenho de uma barba, a dobra de uma túnica e os pelos de um javali.

A peça seguiu para Copenhague e entrou na coleção do Museu Nacional da Dinamarca, onde está até hoje, remontada numa vitrine própria.

Os especialistas calculam que o caldeirão foi feito entre 150 antes de Cristo e o ano 1, na chamada Idade do Ferro pré-romana. Ele passou, portanto, perto de dezenove séculos debaixo da terra antes de reaparecer.

Feito por quem, para quê, e por que desmontado num brejo: as três perguntas recebem resposta nas seções abaixo, até onde a arqueologia consegue responder.

A primeira parada é a peça do jeito que a foto deste email a mostra, com as placas de volta no lugar.

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I  O Que Você Vê

Um anel de deuses em prata batida

A imagem do email mostra uma das placas internas do Caldeirão de Gundestrup, feito por ourives anônimos da Idade do Ferro e hoje no Museu Nacional da Dinamarca: em relevo na prata, uma figura sentada de pernas cruzadas e chifres de veado, cercada de cervos, felinos e uma serpente com cabeça de carneiro.

Cada placa traz figuras em relevo, saltadas para fora do fundo liso. Rostos grandes, de frente, ocupam o centro de várias delas, com os braços erguidos dos dois lados.

A técnica do relevo

O nome técnico do método é repuxado (o metal martelado pelo avesso até a figura saltar na face da frente). O ourives batia a folha de prata deitada sobre uma base macia, como breu ou chumbo, e depois afinava os contornos pela frente com punções.

Algumas partes recebiam uma camada fina de ouro. Na foto, esse dourado aparece em manchas mais quentes sobre o cinza da prata, em cabelos, em colares e em detalhes das roupas.

Os olhos das figuras maiores eram ocos. Os arqueólogos acreditam que eles levavam vidro colorido encaixado, perdido antes do depósito no pântano.

Quem aparece nas placas

As placas de fora mostram bustos enormes, de homens barbados e de mulheres com tranças, segurando nas mãos figuras pequenas de animais ou de pessoas.

Por dentro, as cenas são maiores e cheias de movimento. Numa delas, uma figura de chifres de veado na cabeça senta de pernas cruzadas, com um torques (o colar rígido e aberto que os povos celtas usavam como sinal de posição) numa das mãos e uma serpente na outra.

Em outra placa, uma fila de guerreiros a pé, com lanças e escudos, marcha em direção a uma figura gigante. Ela segura um homem de cabeça para baixo sobre um recipiente, como quem vai mergulhá-lo.

Acima dessa fila, cavaleiros com capacetes seguem na direção contrária. Três homens tocam o carnyx, uma trombeta de guerra comprida, com a boca em forma de cabeça de javali.

O fundo da tigela

O disco do fundo tem uma cena só. Um touro grande, deitado, ocupa quase todo o círculo, e uma mulher com espada salta sobre o dorso dele.

Cães cercam o animal, e um lagarto aparece por perto. A cena não tem explicação escrita, e quem a interpreta como sacrifício ou como caçada segue no terreno do palpite.

Um bestiário estranho

Os animais das placas misturam a fauna do norte com bichos que nenhum dinamarquês da época tinha visto. Há veados, javalis, lobos e cães, mas também leões, grifos e, numa das placas internas, dois elefantes.

Esses elefantes dizem muito sobre a origem da peça, e a próxima seção conta por quê.

 
 

II  A História Por Trás

Uma viagem do Danúbio ao brejo

Os elefantes, os leões e os grifos não pertencem à Escandinávia. Eles aparecem com frequência na prataria da Trácia, a região do baixo rio Danúbio que hoje fica entre a Bulgária e a Romênia.

O arqueólogo britânico Timothy Taylor defendeu essa origem no artigo The Gundestrup Cauldron (O Caldeirão de Gundestrup), publicado na revista Scientific American em 1992. Para ele, o modo de bater o metal e de desenhar os animais é trácio.

O curador Flemming Kaul, do Museu Nacional da Dinamarca, chegou a uma conclusão parecida no livro Thracian Tales on the Gundestrup Cauldron (Histórias trácias no Caldeirão de Gundestrup), de 1991, escrito com outros pesquisadores.

Um caldeirão de dois mundos

O estilo pode ser trácio, mas boa parte das imagens é celta. O torques no pescoço das figuras, o carnyx dos tocadores e os escudos dos guerreiros pertencem ao mundo dos gauleses e de seus vizinhos.

A explicação mais aceita junta as duas pistas. Ourives treinados na tradição trácia teriam feito a peça para clientes celtas, talvez em oficinas do baixo Danúbio, onde os dois povos conviviam.

A análise do metal reforça a ideia de trabalho em equipe. O estilo das placas varia de uma para outra, e os especialistas veem ali a mão de pelo menos três artesãos diferentes.

O caminho até Himmerland

Fica a pergunta de como uma peça feita perto do mar Negro foi parar num pântano da Dinamarca. A resposta mais citada envolve os cimbros, povo germânico que vivia exatamente em Himmerland.

Por volta de 120 antes de Cristo, os cimbros deixaram a região e desceram para o sul da Europa. Na marcha, passaram pela bacia do Danúbio e enfrentaram exércitos romanos, até a derrota final em 101 antes de Cristo, na batalha de Vercelas, no norte da Itália.

Nessa leitura, o caldeirão teria voltado ao norte como presente, pagamento ou butim de guerra trazido pelos sobreviventes. Nenhum documento prova a rota, e ela continua uma hipótese bem montada.

Por que desmontar e enterrar

O pântano tinha função religiosa para os povos do norte. Armas, joias, carroças e até corpos humanos foram depositados em brejos dinamarqueses ao longo de toda a Idade do Ferro, como oferenda.

Desmontar o caldeirão antes de enterrá-lo seguia a mesma lógica. Um objeto dobrado e desmanchado deixava de servir aos vivos e passava a pertencer aos deuses.

Quem fez o depósito não deixou nome. Os povos da região não usavam escrita na época, e o gesto só se entende pela comparação com os outros achados dos pântanos.

 

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III  Por Que Importa

A Bíblia de imagens dos celtas

Os povos celtas quase não escreveram sobre a própria religião. O que se sabe dos deuses deles chega por autores gregos e romanos, inimigos que descreviam de fora.

Júlio César, no livro Comentários sobre a Guerra da Gália, escrito por volta de 50 antes de Cristo, deu aos deuses gauleses nomes romanos, como Mercúrio e Marte. O nome original de quase todos se perdeu.

O caldeirão oferece o contrário: imagens feitas por gente do próprio mundo celta, ou para ele, sem a tradução de um conquistador no meio.

O deus de chifres

A figura sentada de pernas cruzadas, com chifres de veado, virou a imagem mais reproduzida do conjunto. Os estudiosos a ligam a Cernuno, deus celta conhecido por uma inscrição achada em Paris, no Pilar dos Barqueiros, monumento erguido no século 1 depois de Cristo.

O nome aparece só nessa pedra, e a ligação com o caldeirão é uma comparação de imagem, sem legenda. Ainda assim, a figura de Gundestrup virou o retrato padrão de Cernuno em livros, museus e capas de disco.

A cena do mergulho

A placa da figura gigante com o homem de cabeça para baixo tem duas leituras principais. Uma vê ali um sacrifício humano por afogamento, prática que autores romanos atribuíam aos celtas.

A outra lê a cena como um renascimento: o guerreiro mergulhado no recipiente voltaria à vida e seguiria com os cavaleiros da fila de cima. Na mitologia galesa, registrada séculos depois, existe um caldeirão mágico que devolve os mortos à vida.

O que o caldeirão não responde

Nenhuma placa traz palavra escrita. Por esse motivo, nenhum dos nomes que os estudiosos dão às figuras se prova: todos vêm de comparação com textos de outras épocas e de outros lugares.

Também não se sabe a ordem original das placas. As peças chegaram soltas, e a montagem exibida em Copenhague é uma das sequências possíveis, escolhida pelos conservadores do museu.

O metal que voltou

Hoje o caldeirão é uma das peças mais visitadas do Museu Nacional da Dinamarca, e cópias dele circulam por museus da Europa inteira.

A peça foi feita há mais de vinte séculos e não tem dono de direito autoral, e a imagem dela circula livre.

Um sacrifício de afogamento num ritual de guerra, ou a promessa de um guerreiro que volta à vida no caldeirão: as duas leituras da placa estão descritas acima, e o metal não escolhe entre elas.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, onde os cortadores de turfa encontraram o caldeirão de Gundestrup em maio de 1891?

ANum túmulo real nos arredores de Copenhague
BNo fundo de um lago congelado na Jutlândia
CNo pântano de Rævemosen, perto da aldeia de Gundestrup, em Himmerland
DNuma caverna à beira do mar do Norte

Resultado da última edição: 78% acertaram.

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