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O pintor de Guler que seguiu o rajá até Haridwar

Nainsukh, Visão de Krishna e Radha do rajá Balwant Singh, c. 1745-1750

Balwant Singh sentado num trono com narguilé, no vão da direita de um pavilhão com toldos laranja, ouvindo músicos e uma cantora

Nainsukh, Balwant Singh diante de Krishna, c. 1745

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Uma folha de caderno de registro, de papel grosso e amarelado, guardada por uma família de sacerdotes de Haridwar, cidade sagrada à beira do Ganges. Numa das linhas, escrita a tinta e à mão, um pintor anotou que tinha trazido as cinzas do patrão para o rio. A anotação prova que a relação entre os dois não acabou no ateliê.

O pintor se chamava Nainsukh, nome que quer dizer "alegria dos olhos". Nasceu perto de 1710 em Guler, um pequeno reino nas montanhas do norte da Índia, filho do pintor Pandit Seu e irmão mais novo de outro pintor, Manaku.

Perto de 1740, Nainsukh deixou a oficina da família e foi trabalhar em Jasrota, outro reino de montanha, hoje no território de Jammu. Ali encontrou o homem que pintaria por mais de 20 anos: Balwant Singh, um príncipe nascido em 1724, filho do governante local Zorawar Singh.

Os pintores de corte da época faziam retratos oficiais, de perfil, com o rei sentado e rígido. Nainsukh fez outra escolha. Pintou Balwant Singh fumando narguilé (o cachimbo de água), ouvindo músicos numa tenda, escrevendo cartas, olhando cavalos e com o barbeiro aparando a barba dele.

As folhas são pequenas, de segurar com as duas mãos. Juntas, formam o diário visual de um príncipe de reino pequeno, que passou boa parte da vida em deslocamento.

Balwant Singh morreu em 1763, com 39 anos. Nainsukh tinha passado mais da metade da vida adulta na companhia dele. Foi o pintor quem fez a viagem até Haridwar com as cinzas, e quem deixou o próprio nome no livro dos sacerdotes.

A primeira faixa da edição olha a folha do Met em que o príncipe aparece ouvindo música numa noite de lua.

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I  O Que Você Vê

O príncipe do lado de fora

A folha que vai no email é uma pintura de Nainsukh feita entre 1745 e 1750, hoje no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que a liberou em acesso aberto. O título do museu é Visão de Krishna e Radha do rajá Balwant Singh.

A cena se divide em três partes, os três vãos de um mesmo pavilhão aberto. À esquerda ficam os músicos e as cantoras, no centro uma mulher sentada toca um instrumento de cordas. À direita, dentro do pavilhão, está Balwant Singh, sentado num trono.

Toldos laranja, de tecido, correm por cima dos três vãos do pavilhão. Acima deles, o céu é de noite, com lua cheia e nuvens riscadas de raio.

Quem está dentro e quem está fora

O arranjo da página separa os músicos do príncipe com colunas. O príncipe está dentro do pavilhão: fica sentado no vão da direita, sob o mesmo toldo, na posição de quem assiste.

O título dado à pintura chama a cena de visão. O que o príncipe vê não acontece na sala dele, mas numa espécie de aparição, que o pintor desenha com a mesma clareza de um cômodo de verdade.

Nainsukh não põe Balwant Singh no centro da folha. O vão do meio fica com a cantora sentada no tapete, e o príncipe ocupa o vão da direita, num trono com almofadas. O patrão que pagava o pintor aparece como ouvinte, sentado à vontade com o narguilé.

A técnica das montanhas

A pintura é do estilo que os historiadores chamam de pahari (das montanhas, em hindi), praticado nos pequenos reinos do pé do Himalaia nos séculos XVII a XIX.

Os pintores pahari trabalhavam com pigmento de terra e de mineral moído, misturado com cola, aplicado em várias camadas sobre papel. O ouro em pó entrava nos detalhes de joia e de tecido.

A oficina de Guler, onde Nainsukh aprendeu, tinha contato com a pintura da corte mogol, a dinastia muçulmana que governava o norte da Índia a partir de Délhi. Dela vinham o traço fino, a atenção ao rosto e o gosto pela observação direta.

Nainsukh levou esse olhar para a corte de um príncipe pequeno. Na folha do Met, a parede, o toldo e as figuras estão dispostos em planos limpos, sem excesso de ornamento, e o fundo deixa espaço vazio em volta das pessoas.

Uma folha de devoção

Entre os retratos íntimos de Balwant Singh, esta folha é das que o mostram ouvindo música. O príncipe aparece aqui como em outras folhas: fumando narguilé e ouvindo os músicos, numa noite de lua.

O culto a Krishna era forte nas cortes das montanhas no século XVIII. Mesmo assim, esta folha registra a rotina do patrão, não uma cena de culto: a noite de música no pavilhão, com a mesma atenção que a série dá ao dia comum.

 
 

II  A História Por Trás

Vinte anos em Jasrota

Para entender a folha, é preciso entender a família de Nainsukh. O avô e o pai dele eram pintores de Guler, e a profissão passava de pai para filho, como ofício de casta.

Pandit Seu, o pai, treinou os dois filhos. Manaku, o mais velho, ficou associado a séries de ilustração de textos sagrados. Nainsukh, o mais novo, seguiu outro caminho e saiu de casa para servir a uma corte vizinha.

O patrão que não reinou

Em Jasrota, Nainsukh trabalhou primeiro para Zorawar Singh e depois para o filho, Balwant Singh. Jasrota era um reino minúsculo, pressionado pelos vizinhos mais fortes, e a família perdeu poder ao longo das décadas de 1740 e 1750.

Balwant Singh nunca foi um rei de grande corte. Mudava de lugar, morava por temporadas em terras de parentes, e levava o pintor consigo. Nainsukh desenhou o patrão em barracas, em viagem, em casas emprestadas.

Dessa vida em movimento saíram as cenas que fizeram a fama do pintor: o príncipe aquecendo as mãos perto de uma fogueira no inverno, brincando com um ganso, escrevendo sozinho.

O pesquisador do caderno

Quase toda a informação sobre sobre a vida de Nainsukh veio do trabalho do historiador indiano B. N. Goswamy, professor da Universidade Panjab, em Chandigarh.

Goswamy foi a Haridwar procurar os bahis, os cadernos de registro em que as famílias de sacerdotes anotam, geração após geração, os peregrinos que chegam de cada região. Cada família de sacerdote atende os peregrinos de um território certo.

Nesses cadernos, Goswamy achou as anotações feitas pelos próprios pintores de Guler, com os nomes do pai, dos irmãos e dos filhos. Foi assim que a árvore da família de Nainsukh foi reconstruída.

Em 1997, ele publicou o resultado no livro Nainsukh of Guler: A Great Indian Painter from a Small Hill-State (Nainsukh de Guler: um grande pintor indiano de um pequeno reino da montanha), pela editora suíça Artibus Asiae.

As cinzas no Ganges

Balwant Singh morreu em 1763. Na tradição hindu, as cinzas do morto são levadas a um rio sagrado, e Haridwar, onde o Ganges desce das montanhas, é o destino mais comum para as famílias do norte.

Quem fez a viagem com as cinzas do príncipe foi Nainsukh. A anotação no bahi dos sacerdotes registra a visita do pintor e o motivo dela. É o documento que mostra o lugar que ele ocupava na casa: não apenas um empregado, mas alguém de confiança suficiente para o último rito.

Depois de 1763, Nainsukh foi trabalhar para Amrit Pal, rajá de Basohli, outro reino das montanhas. Morreu em 1778. Os filhos e sobrinhos dele seguiram pintando por mais duas gerações.

 

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III  Por Que Importa

O olhar que não posa

A pintura de corte na Índia do século XVIII servia para mostrar poder. O rei aparecia em trono, em caçada, em audiência, cercado de servos e de símbolos. A expressão era fixa, e o corpo, solene.

Nainsukh mudou o assunto. Ele mostrou o patrão em momentos que um retrato oficial não guardaria: com o rosto entregue ao barbeiro, encolhido perto do fogo, sentado na tenda ouvindo os músicos.

O dia comum como tema

Os historiadores da arte indiana costumam ler as folhas de Jasrota como um dos primeiros conjuntos de pintura que acompanham a vida diária de uma única pessoa. Goswamy usava a palavra intimidade para descrever o efeito: o espectador se sente na sala.

O que permitia esse olhar era a convivência. Nainsukh passou mais de 20 anos com o mesmo homem e conhecia os gestos dele. Quem pinta o patrão de longe, em uma sessão de pose, não vê o príncipe quando ele está entediado.

A folha do Met mostra o mesmo trabalho. Balwant Singh está num trono, mas sem pose solene: sentado de lado, com o tubo do narguilé na mão, ouvindo os músicos numa noite de lua.

Um filme e as folhas espalhadas

Em 2010, o cineasta indiano Amit Dutta lançou Nainsukh, um filme filmado nas ruínas de Jasrota que recria as cenas das pinturas com atores parados, como se as folhas ganhassem corpo.

As folhas de Jasrota não ficaram juntas. Ao longo do século XX, foram vendidas uma a uma e acabaram em coleções da Europa, dos Estados Unidos e da Índia, o que obriga quem estuda o pintor a viajar para ver a série.

O pintor que trabalhou para um príncipe sem reino virou referência do estilo pahari. As folhas dele hoje estão em grandes museus, e várias, como a do Met, podem ser vistas por qualquer pessoa na tela do celular.

O que o caderno não diz

A anotação de Haridwar registra a viagem, mas não diz o que o pintor sentia. Não há carta de Nainsukh, diário nem depoimento sobre Balwant Singh. O que existe são as folhas e uma linha no livro dos sacerdotes.

Os historiadores discordam sobre como ler o gesto. Goswamy via afeto e amizade entre os dois homens. Outros lembram que levar as cinzas também podia ser dever de quem servia a casa, parte das obrigações de um servidor antigo.

Diante da folha em que o príncipe ouve música sentado no pavilhão, a escolha fica com quem olha: ler a viagem a Haridwar como o último gesto de um amigo, ou como o último serviço de um empregado leal. As duas leituras cabem na mesma linha do caderno.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano morreu o príncipe Balwant Singh, patrão de Nainsukh?

A1710, ano em que Nainsukh nasceu em Guler
B1724, ano em que Balwant Singh nasceu
C1740, ano em que Nainsukh foi trabalhar em Jasrota
D1763, com o príncipe aos 39 anos

Resultado da última edição: 87% acertaram.

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