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Esta pauta venceu a urna de 22/09.
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Uma mão cortada, um pé no cesto e um rei dinamarquês
Albert Eckhout, 1641 · Óleo sobre tela, 272 por 165 cm
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Mulher Tapuia, Eckhout, 1641
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Uma mulher nua, de pé, em tamanho natural, olha para quem está diante da tela. Numa das mãos ela segura outra mão, humana, cortada no pulso. Das costas pende um cesto, e de dentro dele sai um pé.
A tela se chama Mulher Tapuia. O holandês Albert Eckhout a pintou em 1641, no Recife, quando o Nordeste açucareiro estava sob domínio da Companhia das Índias Ocidentais, a empresa holandesa que controlava o comércio com as Américas. O Nationalmuseet, museu nacional da Dinamarca, em Copenhague, cataloga a peça com 272 centímetros de altura por 165 de largura.
A figura ocupa boa parte da altura do quadro. Um pé dela pisa uma pedra no riacho e o outro, o chão perto da base da tela, e acima da cabeça ainda sobra espaço para a copa de uma árvore. Atrás, fica uma paisagem baixa, com vegetação rasteira, árvores e um céu nublado e cinzento, meio encoberto pela folhagem que toma o alto da cena.
O corpo aparece sem idealização. Nada de pele de mármore, nada de pose de deusa antiga. Um maço de folhas amarrado na cintura cobre o sexo, e o resto está à mostra, com sombra e volume de carne pintados com cuidado.
O contraste pesa. A pintura tem a calma de um retrato de corte, com luz uniforme e acabamento liso, mas o objeto na mão dela é uma parte de corpo humano. O olhar da mulher não demonstra susto nem vergonha.
Eckhout era o pintor contratado de Johan Maurits de Nassau-Siegen, o conde alemão que governou a colônia holandesa no Brasil entre 1637 e 1644. Nassau levou para Pernambuco uma pequena equipe de artistas e naturalistas para registrar a terra, os bichos, as plantas e os povos.
A Mulher Tapuia faz parte de uma série de oito figuras em tamanho natural pintadas por Eckhout, quatro pares de homem e mulher. Hoje as oito telas estão juntas em Copenhague, e a razão dessa mudança de endereço tem data: 1654.
Primeiro, a tela em si: o que a mulher carrega, o que ela veste e o que acontece no fundo da paisagem.
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I O Que Você Vê
Folhas na cintura, cesto nas costas, um cão aos pés
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A mulher está de frente, com o peso do corpo apoiado numa perna e a outra levemente solta. A pele é morena, os cabelos são escuros e caem lisos sobre os ombros. O rosto não sorri.
A mão que ela segura tem os dedos abertos e o corte exposto no pulso. Eckhout pintou o detalhe com a mesma precisão que usaria para uma fruta ou uma folha, sem esconder o corte e sem exagerar nele.
O cesto das costas é trançado em fibra vegetal. Ele fica preso por uma alça que passa pela testa da mulher, jeito de carregar peso usado por vários povos indígenas, em que o esforço vai para o pescoço e deixa as mãos livres. De dentro do cesto aparece um pé humano.
Na cintura, as folhas ficam presas por um cordão fino. Fora elas, só aparecem as sandálias nos pés e uma pulseira no pulso. Não há colar, pintura corporal visível nem adorno de pena na cabeça, o que distingue a figura de outras imagens europeias da época, cheias de cocares inventados.
Aos pés dela, um cão bebe água. O animal é pequeno em relação à figura, e a cena doméstica ao rés do chão contrasta com o que a mulher carrega nas mãos e nas costas.
A paisagem ao fundo
A paisagem não é decoração neutra. Entre as pernas da mulher, bem pequenos, aparece um grupo de homens armados, que o próprio título da série permite ler como guerreiros do povo dela. A distância os reduz a figuras miúdas, e o olho só os encontra depois de percorrer o corpo em primeiro plano.
As plantas do primeiro plano foram pintadas com precisão de botânico. Eckhout estava no Brasil também para registrar espécies, e esse olhar de catálogo aparece no retrato: folha, caule e fruto têm contorno nítido, como numa prancha de estudo.
O acabamento segue o padrão da pintura holandesa da época, com pincelada quase invisível. O efeito é de documento: a tela quer parecer um registro fiel, algo que um viajante europeu poderia apresentar como prova de ter visto aquilo com os próprios olhos.
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II A História Por Trás
Um conde, um pintor e oito figuras em tamanho natural
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Albert Eckhout nasceu em Groningen, nos Países Baixos, por volta de 1610, e chegou a Pernambuco em 1637 com a comitiva de Johan Maurits de Nassau-Siegen. Ficou sete anos. Ao lado dele trabalhava Frans Post, pintor de paisagens, e o naturalista Georg Marcgrave, que registrava plantas e animais.
A missão de Eckhout era retratar gente, frutas e bichos. As oito figuras grandes formam um conjunto pensado como hierarquia: um casal tupi, já aldeado e convertido pelos colonos; um casal mestiço, um casal africano e o casal tapuia, apresentado como o mais distante dos costumes europeus.
Tapuia não era o nome que esse povo dava a si mesmo. Era a palavra tupi para os grupos que não falavam tupi, e os portugueses e holandeses a usavam para quase todo indígena do sertão. Os historiadores identificam o casal de Eckhout com os Tarairiú, povo do interior do Rio Grande do Norte, aliado militar dos holandeses contra os portugueses.
A aliança explica o cuidado. Os Tarairiú lutavam ao lado da Companhia, e o chefe Janduí negociava diretamente com os holandeses. Um retrato grande, detalhado e de corpo inteiro servia para mostrar na Europa quem eram esses aliados.
A mão e o pé no cesto vêm dos relatos de viajantes da época. O holandês Elias Herckmans, que governou a Paraíba sob Nassau, escreveu por volta de 1639 que os Tarairiú comiam a carne dos próprios mortos, como forma de honrar o parente. A tela não mostra uma inimiga devorada: segue a leitura europeia de um rito funerário.
Se Eckhout presenciou alguma cena desse tipo, nenhum documento conta. O mais provável, segundo os estudiosos da série, é que ele tenha pintado o modelo ao vivo e acrescentado os objetos com base nos relatos que circulavam no Recife.
As telas foram pintadas a óleo, técnica de tinta com pigmento moído em óleo de linhaça, que Eckhout aprendeu na formação holandesa. O tamanho gigante tinha função: figuras em escala real davam a quem nunca foi ao Brasil a sensação de estar diante das pessoas retratadas.
Nassau voltou para a Europa em 1644 e levou a coleção. Dez anos depois, em 1654, ofereceu as telas de Eckhout ao rei Frederico III da Dinamarca como presente diplomático. O conde buscava prestígio e apoio político, e uma coleção exótica de pinturas e objetos do Brasil era moeda de troca nas cortes do norte europeu.
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