A resposta de ontem Quem comprou as 8 telas do Libertino em 1802, e onde estão? O arquiteto John Soane arrematou as oito telas num leilão da Christie's em 1802, por 570 guinéus. Elas ficam até hoje no Sir John Soane's Museum, em Londres, presas em painéis articulados da Picture Room, que se abrem como portas para mostrar quadros escondidos atrás de outros. |
A pintura começa onde a parede termina. Na borda do forro, Ataíde pintou uma cimalha (a moldura saliente que coroa a parede) e, sobre ela, uma galeria de colunas e balaustradas que parece continuar a construção real da nave.
As colunas têm tons de pedra clara e de ocre, com sombras pintadas de um lado só, como se a luz viesse das janelas da igreja. Esse cuidado com a direção da sombra faz o olho aceitar o volume.
Entre as colunas, nos cantos, aparecem figuras sentadas em balcões, como espectadores de um teatro. A arquitetura fingida funciona como moldura para o que acontece no meio.
O vão de nuvens
O centro do teto se abre num grande medalhão de céu. As nuvens são densas, em tons de pardo e cinza, e o fundo vai do azul ao dourado, sem nenhuma linha reta. O contraste com as colunas rígidas da borda cria a sensação de que o teto se rasga para cima.
Nesse vão sobe a Virgem, de pé sobre nuvens, com manto azul e vestido claro. O corpo está em leve torção, e o rosto inclinado recebe a luz mais forte do conjunto.
A cena é a glorificação de Nossa Senhora da Porciúncula, título ligado à pequena capela de Assis, na Itália, onde São Francisco organizou a ordem dele. Para a Ordem Terceira de Ouro Preto, a escolha amarrava o teto ao fundador da casa.
A orquestra de anjos
Em volta da Virgem, anjos e querubins (anjos crianças, só cabeça e asas) ocupam as nuvens. Vários seguram instrumentos: há cordas, sopros e partituras, uma orquestra inteira pintada em pleno voo.
Os rostos dos anjos seguem o mesmo padrão da Virgem. A pele é morena, o cabelo é escuro e os traços lembram os da população de Minas no começo do século XIX, formada em grande parte por pardos, negros e mestiços.
As cores do conjunto são claras e quentes: azul, rosa, ocre, branco e dourado. O tom geral é o do rococó (estilo do século XVIII, mais leve e decorativo que o barroco), com curvas, conchas e ornamentos finos, longe da dramaticidade escura das igrejas mais antigas da cidade.
Vista da porta, a perspectiva funciona melhor. Quem caminha para o altar percebe aos poucos as colunas tortas, porque a ilusão foi calculada para um ponto só, o da entrada.
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Manuel da Costa Ataíde nasceu em Mariana, a vinte quilômetros de Ouro Preto, em outubro de 1762. Era filho de um capitão português e teve formação de pintor dentro das próprias oficinas mineiras, sem passagem por academia europeia.
Ele também serviu na milícia colonial e chegou ao posto de alferes, o oficial abaixo do tenente. O título acompanha o nome dele nos documentos da época, como era costume entre os artistas que tinham patente.
O dourador e o escultor
Em Minas, a obra de uma igreja era dividida por contrato. Um entalhador fazia a talha, um dourador cobria a madeira com ouro, e o pintor cuidava das imagens e dos forros. Ataíde fazia mais de uma dessas tarefas.
Trabalhou várias vezes com Aleijadinho. Em Congonhas, pintou as esculturas dos Passos da Paixão que o escultor talhou em cedro para o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Na própria São Francisco de Ouro Preto, a talha do altar e a pintura do forro dividem o mesmo espaço.
Para compor as cenas, Ataíde usava gravuras europeias como modelo, prática comum entre os pintores coloniais. Copiava a pose e o arranjo, mas trocava os rostos e as cores, e é nessa troca que aparece a mão dele. A gravura chegava em preto e branco; a paleta clara do forro saiu da cabeça do pintor.
Maria do Carmo
A tradição de Ouro Preto e de Mariana diz que a Virgem do forro tem o rosto de Maria do Carmo Raimunda da Silva, a companheira do pintor. Ela era parda, e os dois viveram juntos por anos sem se casar na igreja.
Ataíde teve filhos com Maria do Carmo e os reconheceu em testamento. Por que o casamento não aconteceu, nenhum documento conhecido explica. O preconceito da sociedade colonial contra uniões entre brancos e pardos é a hipótese mais citada pelos historiadores, mas segue hipótese.
O vínculo entre o rosto pintado e a mulher real também não tem prova escrita. Nenhum contrato, carta ou recibo diz que Maria do Carmo posou. A ligação vem da memória oral das duas cidades, repetida por gerações e registrada mais tarde por estudiosos do barroco mineiro.
Os últimos anos
Ataíde chegou a propor à Coroa a criação de uma aula de desenho em Mariana, para formar novos pintores. O pedido não saiu do papel.
Ele morreu em Mariana em 1830, aos 67 anos, e foi sepultado na cidade onde nasceu. Os filhos com Maria do Carmo herdaram parte dos bens, conforme o testamento.
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