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O céu de tábuas de Mestre Ataíde em Ouro Preto

Manuel da Costa Ataíde, forro da nave da Igreja de São Francisco de Assis, c. 1801 a 1812, Ouro Preto

Forro da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto: colunas pintadas e a Virgem entre anjos no centro

Forro de São Francisco, Ouro Preto, c. 1812

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Um teto plano de tábuas de madeira, emendadas lado a lado e pregadas sobre a nave (o salão principal) de uma igreja de Ouro Preto. Prova de que um pintor mineiro, sem nunca ter cruzado o oceano, sabia fazer madeira lisa parecer um céu aberto.

O pintor é Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, nascido em Mariana em 1762. O teto fica na Igreja de São Francisco de Assis, erguida pela Ordem Terceira de São Francisco (uma irmandade de leigos) a partir de 1766, com projeto atribuído a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Ataíde trabalhou no forro entre 1801 e 1812. Quem entra pela porta principal e levanta a cabeça vê colunas, balcões e arcos de pedra subindo em direção a um vão de nuvens. Nada daquilo existe em volume: tudo é tinta sobre superfície plana.

O truque tem nome de ofício, quadratura (a pintura de arquitetura fingida, que prolonga as paredes reais para cima). Os italianos do século XVII a usaram nas igrejas de Roma, e gravuras e tratados levaram a técnica a Portugal e daí às Minas.

No centro do forro, cercada de anjos, aparece a Virgem Maria. Ela não tem a pele de porcelana das madonas europeias. O rosto é moreno, os traços são mestiços, e a tradição oral de Ouro Preto liga essas feições a uma mulher real da vida do pintor.

O forro, assim, guarda duas histórias na mesma madeira. Uma é técnica, a de um céu fingido com cálculo de perspectiva e pincel. A outra é pessoal, a de um homem branco, oficial de milícia, que teria posto no alto de uma igreja o rosto da mulher parda com quem dividiu a vida.

A parte I sobe o olhar pelo teto, das colunas da borda até a Virgem no centro, na ordem em que o visitante enxerga a pintura.

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I  O Que Você Vê

Colunas que sobem da madeira

A resposta de ontem

Quem comprou as 8 telas do Libertino em 1802, e onde estão?

O arquiteto John Soane arrematou as oito telas num leilão da Christie's em 1802, por 570 guinéus. Elas ficam até hoje no Sir John Soane's Museum, em Londres, presas em painéis articulados da Picture Room, que se abrem como portas para mostrar quadros escondidos atrás de outros.

A pintura começa onde a parede termina. Na borda do forro, Ataíde pintou uma cimalha (a moldura saliente que coroa a parede) e, sobre ela, uma galeria de colunas e balaustradas que parece continuar a construção real da nave.

As colunas têm tons de pedra clara e de ocre, com sombras pintadas de um lado só, como se a luz viesse das janelas da igreja. Esse cuidado com a direção da sombra faz o olho aceitar o volume.

Entre as colunas, nos cantos, aparecem figuras sentadas em balcões, como espectadores de um teatro. A arquitetura fingida funciona como moldura para o que acontece no meio.

O vão de nuvens

O centro do teto se abre num grande medalhão de céu. As nuvens são densas, em tons de pardo e cinza, e o fundo vai do azul ao dourado, sem nenhuma linha reta. O contraste com as colunas rígidas da borda cria a sensação de que o teto se rasga para cima.

Nesse vão sobe a Virgem, de pé sobre nuvens, com manto azul e vestido claro. O corpo está em leve torção, e o rosto inclinado recebe a luz mais forte do conjunto.

A cena é a glorificação de Nossa Senhora da Porciúncula, título ligado à pequena capela de Assis, na Itália, onde São Francisco organizou a ordem dele. Para a Ordem Terceira de Ouro Preto, a escolha amarrava o teto ao fundador da casa.

A orquestra de anjos

Em volta da Virgem, anjos e querubins (anjos crianças, só cabeça e asas) ocupam as nuvens. Vários seguram instrumentos: há cordas, sopros e partituras, uma orquestra inteira pintada em pleno voo.

Os rostos dos anjos seguem o mesmo padrão da Virgem. A pele é morena, o cabelo é escuro e os traços lembram os da população de Minas no começo do século XIX, formada em grande parte por pardos, negros e mestiços.

As cores do conjunto são claras e quentes: azul, rosa, ocre, branco e dourado. O tom geral é o do rococó (estilo do século XVIII, mais leve e decorativo que o barroco), com curvas, conchas e ornamentos finos, longe da dramaticidade escura das igrejas mais antigas da cidade.

Vista da porta, a perspectiva funciona melhor. Quem caminha para o altar percebe aos poucos as colunas tortas, porque a ilusão foi calculada para um ponto só, o da entrada.

 
 

II  A História Por Trás

O alferes de Mariana

Manuel da Costa Ataíde nasceu em Mariana, a vinte quilômetros de Ouro Preto, em outubro de 1762. Era filho de um capitão português e teve formação de pintor dentro das próprias oficinas mineiras, sem passagem por academia europeia.

Ele também serviu na milícia colonial e chegou ao posto de alferes, o oficial abaixo do tenente. O título acompanha o nome dele nos documentos da época, como era costume entre os artistas que tinham patente.

O dourador e o escultor

Em Minas, a obra de uma igreja era dividida por contrato. Um entalhador fazia a talha, um dourador cobria a madeira com ouro, e o pintor cuidava das imagens e dos forros. Ataíde fazia mais de uma dessas tarefas.

Trabalhou várias vezes com Aleijadinho. Em Congonhas, pintou as esculturas dos Passos da Paixão que o escultor talhou em cedro para o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Na própria São Francisco de Ouro Preto, a talha do altar e a pintura do forro dividem o mesmo espaço.

Para compor as cenas, Ataíde usava gravuras europeias como modelo, prática comum entre os pintores coloniais. Copiava a pose e o arranjo, mas trocava os rostos e as cores, e é nessa troca que aparece a mão dele. A gravura chegava em preto e branco; a paleta clara do forro saiu da cabeça do pintor.

Maria do Carmo

A tradição de Ouro Preto e de Mariana diz que a Virgem do forro tem o rosto de Maria do Carmo Raimunda da Silva, a companheira do pintor. Ela era parda, e os dois viveram juntos por anos sem se casar na igreja.

Ataíde teve filhos com Maria do Carmo e os reconheceu em testamento. Por que o casamento não aconteceu, nenhum documento conhecido explica. O preconceito da sociedade colonial contra uniões entre brancos e pardos é a hipótese mais citada pelos historiadores, mas segue hipótese.

O vínculo entre o rosto pintado e a mulher real também não tem prova escrita. Nenhum contrato, carta ou recibo diz que Maria do Carmo posou. A ligação vem da memória oral das duas cidades, repetida por gerações e registrada mais tarde por estudiosos do barroco mineiro.

Os últimos anos

Ataíde chegou a propor à Coroa a criação de uma aula de desenho em Mariana, para formar novos pintores. O pedido não saiu do papel.

Ele morreu em Mariana em 1830, aos 67 anos, e foi sepultado na cidade onde nasceu. Os filhos com Maria do Carmo herdaram parte dos bens, conforme o testamento.

 

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III  Por Que Importa

Um rosto de Minas no alto

Antes de Ataíde, a regra nos tetos de igreja era o modelo europeu: santas de pele clara, cabelos loiros, rostos tirados de gravuras impressas em Lisboa ou em Augsburgo. O forro de São Francisco quebra o padrão no lugar mais visível do templo.

A troca não vem acompanhada de manifesto. Ataíde não escreveu sobre ela, e os contratos da Ordem Terceira falam de prazos, materiais e valores, nunca de rostos. O que sobra é a pintura, e a pintura mostra gente parecida com quem estava sentado nos bancos da nave.

O lugar do forro na história da arte

Para muitos historiadores da arte brasileira, o teto de São Francisco é a obra-prima da pintura colonial do país. Ele reúne a técnica europeia da quadratura e uma paleta clara própria das Minas, com azuis e rosas raros em Portugal na mesma época.

A igreja inteira virou referência. O conjunto de Ouro Preto foi tombado pelo SPHAN, o serviço federal de patrimônio, em 1938, e a cidade entrou na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1980.

A madeira que pede cuidado

Um forro de tábuas sofre com cupim, goteira e variação de umidade. A madeira se move com as estações, as emendas abrem, e a tinta racha ao longo das juntas.

Daí as restaurações: o teto já passou por várias, conduzidas pelo órgão federal de patrimônio, hoje o IPHAN. Os restauradores fixam a camada de tinta, tratam a madeira contra insetos e preenchem as perdas com retoque reversível, que pode sair sem danificar o original. Cada intervenção fica registrada em relatório, para orientar a equipe seguinte.

Duas leituras do mesmo teto

O forro admite dois jeitos de olhar. Um vê nele a prova de um ofício: um pintor que dominou a perspectiva e fez uma superfície plana parecer uma cúpula aberta para o céu.

O outro vê um gesto pessoal: um homem que não pôde ou não quis casar com a mulher que amava e a colocou, de rosto inteiro, no ponto mais alto da igreja da cidade.

Ler a Virgem de Ataíde como retrato de Maria do Carmo, a companheira que a lei da igreja deixou de fora, ou como o rosto comum das Minas, sem nome, pintado por um artista que olhava para a própria gente. As duas leituras estão acima.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, entre que anos Mestre Ataíde pintou o forro da nave da Igreja de São Francisco de Assis?

A1766 e 1780
B1801 e 1812
C1812 e 1830
D1762 e 1801

Resultado da última edição: 89% acertaram.

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