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A tela de quase dez metros de Jan Matejko

Jan Matejko, Batalha de Grunwald, 1878, Museu Nacional de Varsóvia

Batalha de Grunwald, de Jan Matejko: Vytautas de vermelho ergue a espada no centro do combate

Jan Matejko, Batalha de Grunwald, 1878

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Um rolo de linho pintado com quase dez metros de comprimento, enrolado num cilindro de madeira e enterrado em 1939. Ele prova que uma pintura pode valer, para um exército de ocupação, tanto quanto um depósito de armas.

O linho saiu de Varsóvia nos primeiros dias da Segunda Guerra, quando a cidade já estava sob bombardeio. Funcionários do museu tiraram a tela do chassi, enrolaram a superfície pintada para fora, como manda a regra dos restauradores, e a mandaram de caminhão para Lublin, no leste do país.

Em Lublin, o rolo foi escondido sob o chão de um prédio do museu local. Os alemães sabiam da existência da pintura e queriam destruí-la. Segundo os relatos poloneses do pós-guerra, a propaganda nazista chegou a oferecer recompensa a quem indicasse o paradeiro dela.

Ninguém indicou. O rolo passou a ocupação inteira debaixo da terra, com umidade, frio e ratos, e só voltou à luz em 1944.

Quando os restauradores abriram o cilindro, encontraram tinta rachada, descamada em vários pontos e manchada pela água. O conserto levou anos. A tela só voltou a ser exibida em Varsóvia em 1949.

A pintura que mereceu esse esforço mostra uma batalha de 1410. Naquele julho, perto de uma aldeia chamada Grunwald, no norte da atual Polônia, o exército do reino da Polônia e do grão-ducado da Lituânia enfrentou os cavaleiros da Ordem Teutônica, uma ordem militar alemã que dominava a costa do Báltico.

Quem a pintou foi Jan Matejko, filho de um professor de música de Cracóvia. Ele começou a tela em 1875 e a terminou em 1878, depois de três anos de trabalho num ateliê que mal comportava o chassi.

Matejko pintou para um país que não existia no mapa. Desde 1795, a Polônia estava dividida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria. A tela contava aos poloneses uma vitória que nenhum deles tinha permissão de comemorar em público.

Antes da história do ateliê e da guerra, a primeira parte percorre a superfície do linho, do canto onde está o rei ao centro, onde ninguém está parado.

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I  O Que Você Vê

Um campo sem horizonte

Quem para diante da tela no Museu Nacional de Varsóvia vê primeiro a falta de chão. O quadro mede 4,26 metros de altura por 9,87 de largura, e quase toda essa área está tomada por corpos, cavalos, lanças e estandartes.

O céu ocupa só uma faixa estreita no alto, cinzenta e cheia de fumaça. Não há ponto de fuga claro, nem caminho livre para o olho descansar. Matejko preferiu o amontoado à perspectiva clássica das pinturas de batalha.

O homem de vermelho

No centro da composição, sobre um cavalo empinado, está Vytautas, o grão-duque da Lituânia. Ele veste uma túnica vermelha, ergue a espada com a mão direita e tem a boca aberta num grito.

Vytautas é a única figura que parece comandar a cena. Em volta dele, tudo é choque e queda. O vermelho da túnica é a mancha de cor mais forte do quadro e funciona como eixo da composição inteira.

À esquerda do grão-duque, a luta se concentra num cavaleiro de branco. É Ulrich von Jungingen, o grão-mestre da Ordem Teutônica, com a capa branca marcada pela cruz negra da ordem.

Dois soldados a pé o atacam ao mesmo tempo. Um deles, seminu, segura uma lança. O outro, com roupa de carrasco, ergue um machado. Matejko pôs o comandante inimigo num ponto em que o leitor da tela não tem dúvida sobre o desfecho.

O rei no alto

O rei Ladislau II Jagelão, primo de Vytautas e soberano da Polônia, aparece longe do combate, no alto do lado direito. Ele está numa colina, cercado pela guarda, e observa a batalha de cima.

A escolha tem base nos cronistas. Jan Długosz, autor dos Annales seu cronicae incliti Regni Poloniae, escritos por volta de 1480, conta que o rei ficou na retaguarda e assistiu à maior parte do combate a partir de um ponto elevado.

Do outro lado, mais perto do centro, um cavaleiro de armadura negra avança com a lança. É Zawisza Czarny, Zawisza o Negro, o cavaleiro polonês mais famoso da época, conhecido em toda a Europa pelos torneios.

Mãos, rostos e metal

De perto, a tela revela um trabalho de miniaturista em escala de muralha. Cada armadura tem as placas desenhadas uma a uma, cada estandarte traz o brasão certo da família ou da região que o carregou.

Os rostos têm traços individuais. Matejko usou como modelos amigos, alunos e moradores de Cracóvia, e muitos visitantes da época diziam reconhecer conhecidos no meio da batalha.

A luz não vem de um lugar só. Ela cai em pontos escolhidos, como a túnica de Vytautas, a capa de Ulrich e o metal das armas, e deixa o resto em penumbra. O olho salta de um foco a outro sem encontrar repouso.

 
 

II  A História Por Trás

Três anos num ateliê de Cracóvia

Jan Matejko nasceu em Cracóvia em 1838 e passou quase a vida inteira na cidade. Estudou na Escola de Belas Artes local, passou temporadas curtas em Munique e Viena e voltou para casa convencido de que a pintura de história era o serviço que podia prestar ao país.

Na década de 1870, ele já era o pintor mais conhecido da Polônia dividida. Tinha pintado o sermão de Skarga e o astrônomo Copérnico conversando com Deus. Grunwald seria a maior tela da carreira dele.

O chassi maior que a sala

O formato escolhido criou um problema prático. A tela de quase dez metros não cabia esticada no ateliê da rua Floriańska. Matejko pintou por partes, com o linho enrolado numa ponta e desenrolado na outra.

Por isso, durante boa parte dos três anos, o pintor nunca viu a composição inteira de uma vez. Ele trabalhava com esboços menores e confiava na memória para manter a escala de cada figura.

Matejko pesquisou armaduras, armas e brasões em museus e coleções particulares. Leu Długosz e os documentos da Ordem Teutônica. Alguns historiadores da época apontaram anacronismos nas roupas, e ele respondeu que pintava o espírito da batalha, não um inventário.

A noite do cetro

A tela ficou pronta em 1878 e foi exposta primeiro em Cracóvia. A recepção foi imediata. Filas se formaram diante da pintura, e jornais de toda a Polônia dividida publicaram longas descrições.

No mesmo ano, a Câmara Municipal de Cracóvia organizou uma cerimônia em homenagem ao pintor. Numa noite de festa, entregou a Matejko um cetro, o objeto que os reis poloneses seguravam na coroação.

O gesto tinha peso político. Cracóvia ficava na parte austríaca da Polônia, a mais livre das três, e mesmo assim não tinha rei. A cidade deu ao pintor o título de rei da pintura polonesa, numa época em que o trono de verdade estava vazio havia mais de oitenta anos.

Uma vitória contada no exílio

A tela viajou depois para Varsóvia, Berlim, Paris e outras capitais. Em Berlim, a crítica prussiana a recebeu mal, e não é difícil entender o motivo: o quadro mostrava cavaleiros alemães derrotados num tempo em que a Prússia governava uma parte da Polônia.

Em 1878, a pintura foi comprada pelo banqueiro de Varsóvia Dawid Rosenblum. Depois de várias mudanças de dono, acabou no acervo público da cidade, onde está até hoje, no Museu Nacional.

 

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III  Por Que Importa

A tela que os ocupantes caçaram

A Batalha de Grunwald é hoje uma das imagens mais reproduzidas da Polônia. Aparece em livros escolares, selos, cédulas comemorativas e cartazes, e muitos poloneses conhecem a batalha de 1410 primeiro pela pintura e só depois pelos livros de história.

Uma imagem com dono

O sucesso transformou a tela num símbolo político, e símbolos atraem inimigos. Quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, a política de ocupação incluía apagar a memória nacional: bibliotecas, arquivos, monumentos e pinturas de tema patriótico.

Grunwald estava no topo dessa lista. A pintura mostrava exatamente a derrota alemã que o regime queria tirar da cabeça dos poloneses. O esconderijo em Lublin, debaixo do chão, foi a resposta dos funcionários do museu.

O conserto do pós-guerra

A restauração que começou em 1945 enfrentou um problema técnico sério. A tinta tinha ficado anos enrolada, sob pressão e umidade, e rachou em linhas paralelas ao longo de toda a superfície.

Os restauradores fixaram as escamas soltas uma a uma, reforçaram o linho por trás com uma nova tela e refizeram os trechos perdidos com tinta reversível. O trabalho foi refeito e revisto em campanhas posteriores, a mais recente concluída em 2012, dois anos depois do aniversário de seiscentos anos da batalha.

O que a escala faz com quem olha

Uma tela de quase dez metros impõe ao visitante uma posição. De longe, ele vê a massa de corpos e o vermelho de Vytautas. De perto, perde o conjunto e encontra rostos, fivelas e cicatrizes.

Matejko contava com esse ir e vir. A pintura obriga o olho a trabalhar como um soldado no campo, sem visão de cima, preso ao que está a um passo de distância. Só o rei, na colina, tem a vista inteira.

A mesma estratégia aparece em outros grandes quadros históricos do século XIX, como A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, de 1819, que também põe o espectador no nível das figuras. Em Grunwald, o tamanho leva a ideia ao limite.

Duas leituras do mesmo linho

Os críticos se dividem até hoje sobre a tela. Para uns, Matejko fez propaganda nacional, com heróis limpos e inimigos caricatos, e sacrificou a verdade histórica em nome do recado. Para outros, ele fez o que a pintura de história sempre fez: deu forma visível a uma memória que um povo precisava guardar.

Diante dos 4,26 por 9,87 metros, a escolha fica com quem olha: ler a Batalha de Grunwald como documento de 1410, com armaduras pesquisadas e cronistas citados, ou como retrato da Polônia de 1878, um país sem rei que coroou um pintor. As duas leituras estão no mesmo linho.

★ RARO

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Segundo o texto, quem ocupa o centro da composição da Batalha de Grunwald, montado num cavalo empinado, de túnica vermelha e espada erguida?

AUlrich von Jungingen, grão-mestre da Ordem Teutônica
BLadislau II Jagelão, rei da Polônia
CVytautas, grão-duque da Lituânia
DZawisza Czarny, o cavaleiro negro

Resultado da última edição: 83% acertaram.

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