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A máscara de marfim da rainha Idia, levada do Benin em 1897

Artistas da corte do Benin, máscara da rainha-mãe Idia, século 16, Metropolitan Museum of Art

Máscara de marfim da rainha-mãe Idia, com ferro embutido nos olhos e na testa e uma coroa de pequenas cabeças entalhadas

Máscara da rainha-mãe Idia, Benin, século 16

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Um rosto de marfim de 23,8 centímetros, do tamanho de uma mão aberta, com ferro embutido nas pupilas e duas faixas de ferro na testa. Ele prova que um rei do Benin quis carregar a mãe junto ao corpo, todos os dias de cerimônia.

O rosto é de Idia, a primeira iyoba (rainha-mãe) do reino do Benin, no sul da atual Nigéria. Foi entalhado no início do século 16 pela guilda de entalhadores de marfim do palácio, a pedido do filho dela, o oba (rei) Esigie. Os artistas não deixaram assinatura: no Benin, a obra pertencia à corte, e o mérito também.

A peça da imagem acima está no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que a pôs em domínio público no seu acervo aberto. Uma irmã quase idêntica fica no Museu Britânico, em Londres. As duas saíram juntas do Benin, na mesma bagagem, em fevereiro de 1897.

Naquele mês, uma tropa britânica tomou Benin City, a capital do reino. O palácio do oba foi saqueado e incendiado. Os soldados levaram milhares de placas de bronze, cabeças fundidas, presas de elefante entalhadas e marfins pequenos, entre eles as duas máscaras.

Oitenta anos depois, a Nigéria independente preparava em Lagos o maior festival de cultura negra já organizado, e escolheu o rosto de Idia como símbolo oficial. O governo nigeriano pediu ao Museu Britânico o empréstimo da máscara de Londres para a abertura, em janeiro de 1977. O museu disse não.

O festival abriu com uma cópia. A original ficou numa vitrine de Bloomsbury, o bairro do museu, a quase cinco mil quilômetros da cidade onde foi entalhada. A primeira parte da edição olha o marfim de perto, da coroa ao queixo.

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I  O Que Você Vê

Um rosto do tamanho de uma mão

A máscara mostra um rosto de mulher, de frente, com o queixo curto e os lábios cheios, fechados. O marfim ficou amarelado com os séculos e tem um brilho de cera nas partes mais altas, o nariz, as maçãs do rosto e a testa.

Os olhos são amendoados e grandes para o rosto. As pupilas e a linha das pálpebras levam ferro embutido, escuro contra o marfim claro. O olhar vai reto para a frente, para quem está diante da peça.

Na testa, entre as sobrancelhas, duas faixas verticais de ferro descem paralelas. Elas reproduzem as marcas de escarificação (cortes rituais feitos na pele) que as mulheres de alta posição do Benin traziam no rosto.

A coroa de cabeças

Em volta do topo corre uma fileira de pequenas cabeças entalhadas, uma ao lado da outra, como as contas de um colar. Algumas têm barba e cabelo longo e liso; entre elas aparecem formas de peixe, com o corpo curvo.

As cabeças barbadas são portugueses. Os navegadores de Portugal chegaram ao Benin na década de 1480 e trocavam latão, tecido e armas por marfim, pimenta e gente escravizada. Para os entalhadores, aquele estrangeiro de barba vinha do mar.

O peixe é o peixe-lama, um bagre que vive nos rios e nos mangues e sobrevive fora da água. Na religião do Benin, ele pertence a Olokun, o deus do mar e da riqueza. Peixe e português dizem a mesma frase: o poder do oba chega pelas águas.

Os laços nas laterais

Nas bordas da máscara, atrás das orelhas, há pequenas alças vazadas. Por elas passava a corda que prendia a peça ao corpo. A face de trás é côncava, para assentar sobre o quadril.

A máscara não ia no rosto. O oba a usava na cintura, do lado esquerdo do corpo, sobre o pano das vestes de corte. Por esse tamanho de palma e por essa posição, ela é chamada de máscara de pingente.

Na mesma face, o ferro foi posto nas cavidades depois do entalhe, em pedaços finos, e preso com resina. O marfim e o ferro juntam dois materiais que o Benin ligava à força: o elefante, rei da floresta, e o metal das forjas reais.

 
 

II  A História Por Trás

A rainha que comandou um exército

Idia viveu na virada do século 15 para o 16. Era uma das esposas do oba Ozolua e mãe de Esigie. Quando Ozolua saiu de cena, por volta de 1504, os dois filhos dele disputaram o trono: Esigie, em Benin City, e o irmão Arhuaran, na cidade de Udo.

A guerra entre os irmãos terminou com a vitória de Esigie. A tradição oral da corte, recolhida no século 20 pelo historiador nigeriano Jacob Egharevba no livro A Short History of Benin, de 1934, dá a Idia um papel nessa vitória: conselho político e magia de proteção para o filho.

A guerra de Idah

Poucos anos depois, por volta de 1515, o reino de Igala atacou o Benin pelo norte, a partir da cidade de Idah. Segundo a mesma tradição oral, Idia levantou e comandou um exército próprio e foi ao campo de batalha com o filho.

O Benin venceu. Em agradecimento, Esigie criou para a mãe o título de iyoba, que nenhuma mulher tivera antes, e mandou construir para ela um palácio próprio em Uselu, fora dos muros da capital. A rainha-mãe passou a ter corte, servos e conselheiros.

O título veio com uma regra. A iyoba não podia mais ver o filho rei em pessoa. A tradição explica a proibição como proteção ao trono: a mãe já tinha poder demais, e a distância evitava que governasse por cima dele.

Por que o rei a usava

As máscaras de Idia foram entalhadas para essa distância. Não há documento escrito da época sobre a encomenda. O que se sabe vem da tradição da corte e do uso que os obas fizeram das peças até 1897.

Os reis do Benin as vestiam em cerimônias de purificação do reino, como a Emobo, celebrada para afastar os maus espíritos do palácio. A mãe que não podia estar ao lado do filho seguia presa ao quadril dele, e a força que ela teve na guerra protegia o rei no ritual.

Fevereiro de 1897

Em janeiro de 1897, uma comitiva britânica liderada pelo cônsul James Phillips seguia para Benin City sem autorização do oba Ovonramwen, durante um festival sagrado. Guerreiros do Benin atacaram a comitiva, e quase todos os britânicos morreram.

A resposta veio em semanas. A expedição punitiva, comandada pelo almirante Harry Rawson, entrou na capital em 18 de fevereiro de 1897. Ovonramwen fugiu, foi capturado e mandado para o exílio em Calabar, onde viveu até 1914.

As duas máscaras de Idia ficaram com Ralph Moor, cônsul-geral britânico do Protetorado da Costa do Níger. A de Londres passou ao antropólogo Charles Seligman, que a vendeu ao Museu Britânico em 1910. A outra também ficou com Seligman e, pela viúva dele, chegou ao colecionador Nelson Rockefeller na década de 1950 e entrou no Metropolitan em 1972, por doação dele.

 

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III  Por Que Importa

O empréstimo negado

O Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negra e Africana, chamado de FESTAC 77, aconteceu em Lagos de 15 de janeiro a 12 de fevereiro de 1977. A Nigéria, rica com o petróleo, construiu um teatro nacional e uma vila para os artistas de dezenas de países.

O rosto de Idia virou a marca do festival: cartazes, selos, a medalha oficial. O governo nigeriano pediu ao Museu Britânico a máscara original para o evento. O museu respondeu que o marfim era frágil demais para a viagem e o clima de Lagos, e o pedido foi negado.

A cópia de Emokpae

A Nigéria encomendou uma réplica. Quem a fez foi o artista nigeriano Erhabor Emokpae, nascido em Benin City, que esculpiu uma versão da máscara para servir de emblema ao FESTAC. A cópia ficou no país, e a imagem dela circulou em cartazes pelo país inteiro.

A recusa virou assunto nacional. Jornais nigerianos trataram o caso como prova de que o museu queria a guarda da peça a qualquer custo. O argumento da fragilidade nunca foi testado: a máscara de Londres nunca fez a viagem até Lagos.

A lei que prende o acervo

O Museu Britânico responde a uma lei do Parlamento, o British Museum Act de 1963, que proíbe os curadores de tirar do acervo, em definitivo, quase tudo que entrou nele. Empréstimo é permitido; devolução de propriedade, não.

Em 2022, o governo da Alemanha transferiu à Nigéria a propriedade de mais de mil bronzes do Benin guardados em museus alemães. No mesmo ano, o Instituto Smithsonian, dos Estados Unidos, devolveu 29 peças do Benin que guardava no seu museu de arte africana. A máscara de Londres não entrou em nenhuma das listas.

A peça do Metropolitan também continua em Nova York. O museu a mantém em exposição e liberou a fotografia para uso livre, a imagem que abre esta edição.

O rosto que ficou em Benin City

No Benin, o título de iyoba seguiu em uso por séculos depois de Idia, e o atual oba, Ewuare II, coroado em 2016, mantém a tradição da corte. O rosto da primeira rainha-mãe voltou ao país em cópia, em cartazes e em escolas, mas o marfim do século 16 continua fora.

A escolha fica com quem olha a imagem acima. Deixar as duas máscaras onde estão, em vitrines abertas ao público em Londres e em Nova York, ou levar ao menos uma de volta a Benin City, para o palácio de onde saíram em 1897. Os argumentos dos dois lados estão nas três partes desta edição.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que parte do corpo o oba (rei) do Benin usava a máscara de Idia nas cerimônias?

ANo pescoço, pendurada por um colar
BNo braço direito, presa por uma faixa
CNa cintura, do lado esquerdo do corpo
DNo peito, sobre o coração

Resultado da última edição: 92% acertaram.

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