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Esta pauta venceu a urna de 28/09.
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As 3 letras que tomaram uma página inteira
Livro de Kells, página do Chi Rho, monges irlandeses, c. 800, Trinity College Dublin
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Chi Rho, Livro de Kells, c. 800
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Numa sala escura da biblioteca do Trinity College, em Dublin, um livro aberto repousa numa vitrine de vidro. A luz é fraca de propósito, e a página exposta muda de tempos em tempos para que nenhuma folha receba claridade demais. Quem chega perto encontra letras miúdas, tinta vermelha, amarela e azul, e uma pele que já não é branca.
O livro tem mais de 1.200 anos. Foi escrito à mão em latim, com pena de ave, sobre velino, a pele de bezerro raspada e esticada até virar folha. Cada página exigiu o couro de um animal, e o volume inteiro guarda os quatro Evangelhos, os livros que contam a vida de Jesus.
Chama-se Livro de Kells, nome de uma abadia no interior da Irlanda onde passou boa parte da Idade Média. Quem o escreveu não assinou. Eram monges de uma comunidade fundada por São Columba, um religioso irlandês do século 6, e trabalharam numa época em que a Irlanda estava quase fora do mapa da Europa.
A maior parte das páginas traz texto corrido, com uma letra grande pintada no início de cada trecho. Algumas poucas fogem da regra. Uma delas ficou famosa acima de todas: a página em que três letras ocupam quase o espaço inteiro da folha.
As letras são gregas. Formam as iniciais do nome de Cristo, e os monges as pintaram tão grandes que o resto da frase fica espremido num canto. Entre as curvas, espirais tão finas que mal se distinguem a olho nu, rostos de anjos e, lá embaixo, dois gatos e um grupo de ratos.
Um livro sagrado, feito para o altar, com ratos no rodapé. A escolha parece estranha até para quem conhece arte medieval, e tem explicação.
Para chegar a ela, vale começar pelo que está desenhado de fato na folha, letra por letra e bicho por bicho.
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I O Que Você Vê
Três letras e um rodapé de bichos
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A página do Chi Rho do Livro de Kells, fólio 34r (a frente da folha 34), foi pintada por monges irlandeses perto do ano 800. Chi Rho (as letras gregas X e P, as duas primeiras de Christos, Cristo) é o nome que os estudiosos dão ao desenho que domina a folha.
A primeira letra é um X enorme. O braço mais longo desce em curva do alto à esquerda e atravessa a página inteira na diagonal. O outro braço é curto e se dobra no meio da folha.
Logo abaixo e à direita aparece o P, a segunda letra, com a haste vertical e a barriga arredondada. Por fim vem um I, a terceira letra, menor e quase escondida junto ao P.
O que cabe dentro das letras
As letras não são traços lisos. Cada uma é um contorno largo, preenchido por dezenas de faixas entrelaçadas, nós e espirais. Vistas de perto, as espirais se enrolam umas nas outras como molas.
A paleta é pequena e quente: amarelo, vermelho alaranjado, roxo, verde e um azul que aparece em pontos esparsos. Não há ouro na página. Os monges conseguiram o brilho só com a vizinhança de cores fortes.
No resto do espaço, entre os braços do X, o fundo vira uma rede de círculos e voltas. Não sobra quase nenhum pedaço de pele sem tinta, e o olho do leitor não encontra lugar para descansar.
Os anjos e os ratos
Ao longo do braço longo do X, do lado esquerdo, aparecem pequenas figuras de anjos, com asas e rosto de perfil. Estão tão encaixados na decoração que muita gente só os percebe na segunda olhada.
No pé da página, junto à haste do P, fica a cena mais comentada. Dois gatos estão sentados. Diante deles, ratos seguram um disco redondo, e outros ratos aparecem junto às costas dos gatos. Os estudiosos leem o disco como uma hóstia, o pão consagrado da missa.
Mais à direita, na base do rodapé, as palavras em latim "autem generatio" (e a origem) completam a frase que as três letras começam. É o versículo do Evangelho de Mateus que anuncia o nascimento de Jesus.
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II A História Por Trás
De Iona a Dublin, passando por um buraco na terra
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O Livro de Kells foi feito para ser visto e não lido. Era um evangeliário (livro dos Evangelhos) de altar, levado em procissão e aberto em dias de festa. O texto tem erros de cópia que nenhum monge corrigiu, sinal de que ninguém o usava para estudo.
A comunidade que o produziu tinha sede em Iona, uma ilha pequena na costa da Escócia, fundada por São Columba em 563. Os monges de Iona escreviam, pintavam e ensinavam. O mosteiro era um dos centros de cultura mais ativos do norte da Europa.
A fuga dos vikings
A partir de 795, barcos vikings passaram a atacar Iona. Os mosteiros eram alvo fácil: guardavam cálices, relicários e livros com capa de metal precioso, e ninguém ali carregava armas.
Em 806, segundo os Anais de Ulster, a crônica irlandesa escrita ano a ano pelos monges, um ataque deixou 68 religiosos sem vida na ilha. Pouco depois, a comunidade começou a construir um novo mosteiro em Kells, terra adentro na Irlanda, longe do mar.
Os historiadores não sabem ao certo onde o livro foi pintado. A hipótese mais aceita diz que o trabalho começou em Iona e terminou em Kells. Nenhum documento da época confirma o lugar nem o ano, e a data em torno do ano 800 vem do estilo das letras e das pinturas.
O roubo de 1007
Os mesmos Anais de Ulster registram, no ano de 1007, o roubo do "grande Evangelho de Columba" da igreja de Kells. O ladrão queria a capa, feita de ouro e pedras.
O livro apareceu meses depois, enterrado sob um pedaço de relva, sem a capa. A capa nunca foi achada. Algumas folhas do início e do fim também se perderam, e os estudiosos atribuem parte dessas perdas ao tempo em que o volume ficou na terra.
A frase que ficou
No fim do século 12, o clérigo galês Giraldus Cambrensis viu na Irlanda um evangeliário tão decorado que o julgou impossível para mãos humanas. Na Topographia Hibernica (Topografia da Irlanda), de 1188, escreveu que aquele livro parecia "obra não de homens, mas de anjos".
O livro que Giraldus viu estava em Kildare, e não em Kells, e se perdeu depois. Mesmo assim, a frase ficou colada ao Livro de Kells, porque descreve bem o efeito da página do Chi Rho.
Em 1661, Henry Jones, bispo de Meath, doou o manuscrito ao Trinity College. Em 1953, o encadernador inglês Roger Powell dividiu o volume em quatro tomos, um para cada Evangelho, e é assim que a biblioteca o guarda até hoje.
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