|
Vincenzo Peruggia tinha vinte e nove anos, nasceu em Dumenza, no norte da Itália, trabalhava com vidro e vivia em Paris desde 1908.
Em 1910 ele entrou no Louvre contratado para a equipe que montava caixas de vidro sobre as pinturas mais visitadas. O retrato de Leonardo passou pelas mãos dele.
No domingo, 20 de agosto de 1911, ele comprou entrada e ficou lá dentro depois do fechamento, num cubículo de material perto do Salon Carré.
Segunda-feira era dia de limpeza, com o museu fechado ao público e dezenas de operários circulando de avental branco. Ele vestiu o mesmo avental.
Por volta das sete da manhã, tirou o quadro dos quatro pregos e desceu com ele pela escada Visconti.
No patamar, soltou a moldura e o vidro, enrolou a tábua no avental e prendeu o volume junto ao corpo.
A porta de saída estava travada. Ele já tinha desmontado a maçaneta, e foi um encanador de passagem que abriu para os dois.
Às oito da manhã ele atravessou o pátio, jogou a maçaneta fora e pegou o ônibus na rua.
Paris reagiu com sessenta detetives, fronteiras vigiadas e revista em navios de passageiros.
Em 7 de setembro, o poeta Guillaume Apollinaire foi preso e passou cinco dias na cadeia da Santé, e Pablo Picasso foi levado para interrogatório.
Os dois apareciam num caso antigo de estatuetas ibéricas retiradas do próprio Louvre. Nenhum tinha relação com o retrato, e ambos foram liberados.
A polícia interrogou Peruggia duas vezes, porque o nome dele constava na lista de quem tinha trabalhado no museu. Ele respondeu na porta do quarto alugado, e a versão foi aceita.
O serviço de identificação de Alphonse Bertillon arquivava a ficha de cada suspeito pela digital do polegar direito. A marca deixada no vidro abandonado na escada era do polegar esquerdo.
A tábua ficou vinte e sete meses num baú com fundo falso, no quarto da rue de l'Hôpital-Saint-Louis, a menos de uma hora de caminhada do museu.
Em novembro de 1913, ele escreveu a Alfredo Geri, antiquário de Florença que anunciava compra de obras. Assinou a carta como Leonardo, pediu meio milhão de liras e exigiu que o quadro ficasse na Itália.
Em 10 de dezembro, Geri e Giovanni Poggi, diretor da Galeria Uffizi, subiram ao quarto vinte do hotel Tripoli-Italia. Peruggia levantou o fundo falso e desembrulhou a tábua de um pano.
Poggi virou o painel e conferiu o número de inventário do Louvre e os selos no verso. Os dois pediram a peça emprestada para exame na Uffizi, e a prisão veio no dia seguinte.
No julgamento em Florença, em junho de 1914, ele sustentou motivo patriótico: dizia devolver à Itália o que Napoleão teria levado.
A conta não fechava: o quadro atravessou os Alpes com o próprio Leonardo, em 1516, e foi comprado pelo rei Francisco I.
A pena de um ano e quinze dias caiu no recurso para sete meses e nove dias, já cumpridos na prisão preventiva. Ele saiu solto e voltou a trabalhar como pintor de parede.
Antes de retornar, o quadro foi exposto em Florença, Roma e Milão, com fila em cada cidade. Entrou de novo no Louvre em 4 de janeiro de 1914.
|