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Esta pauta venceu a urna de 30/09.
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As íris que ficaram sem a ponte
Ogata Kōrin, Íris, par de biombos de seis folhas, Museu Nezu, Tóquio, começo do século 18
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Íris, Ogata Kōrin, c. 1701 a 1705
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Dois biombos de papel coberto de folha de ouro, cada um com seis folhas dobráveis, perto de 1,5 metro de altura e quase 3,4 metros de largura quando abertos, segundo a ficha do Museu Nezu, em Tóquio. Sobre o ouro, só flores azuis e folhas verdes. Nenhuma casa, nenhum rio desenhado, nenhuma pessoa.
O par se chama Íris e foi pintado por Ogata Kōrin nos primeiros anos do século 18, entre 1701 e 1705. O Japão o tombou como Tesouro Nacional, e o Museu Nezu só o tira da reserva uma vez por ano, na primavera.
Para um japonês da época, aquelas flores não eram paisagem. Eram citação. A íris-japonesa, que em japonês se chama kakitsubata (a espécie de íris que cresce em brejo), puxava na memória um episódio famoso dos Contos de Ise, uma coletânea de poemas e casos de amor escrita há mais de mil anos.
No episódio, um grupo de viajantes para diante de um brejo cheio de íris, onde uma ponte de oito tábuas cruza a água. Um deles compõe um poema de saudade da mulher que deixou em casa, e os outros choram.
Kōrin guardou as flores e jogou fora todo o resto. Não pintou a ponte. Não pintou os viajantes, nem os cavalos, nem o poema escrito num canto. Deixou a história inteira nas mãos de quem olhava.
Sobram três perguntas. O que exatamente está sobre o ouro, por que um pintor cortaria os personagens de um conto que todo mundo conhecia, e o que esse corte mudou na arte japonesa dos três séculos seguintes.
A resposta começa pelo que o olho encontra primeiro: o ritmo das flores sobre um chão que não existe.
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I O Que Você Vê
Azul sobre ouro, sem chão
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Íris, de Ogata Kōrin, é um par de byōbu (biombos dobráveis japoneses, feitos de painéis de papel montados em moldura de madeira). Na imagem, aparece um dos dois biombos, aberto, com as seis folhas lado a lado formando uma faixa comprida de ouro.
O fundo é chapado. Não há horizonte, nem sombra, nem margem de rio. O ouro ocupa tudo o que as flores não ocupam, e o olho não encontra onde a terra acaba e o céu começa.
Sobre esse vazio brilhante, as íris aparecem em touceiras (grupos de plantas que nascem juntas da mesma raiz). Algumas touceiras sobem alto na folha, outras descem até a borda de baixo, e a sequência lembra uma linha que sobe e desce ao longo da faixa.
Duas cores e nenhum contorno
As pétalas são de um azul profundo, puxado para o violeta, com áreas mais claras e mais escuras dentro da mesma flor. As folhas são verdes, longas e finas, e sobem em pé como lâminas.
Quase nada foi desenhado a traço. As formas nascem da própria mancha de tinta, sem linha escura em volta. De perto, cada flor é uma pincelada larga; de longe, as manchas viram pétala.
O azul e o verde vêm de pedra moída. O Museu Nezu identifica o azul como azurita e o verde como malaquita, dois minerais caros, misturados com cola animal e espalhados em camada grossa sobre o ouro.
Flores em série
Quem olha com atenção percebe que algumas touceiras se repetem. O mesmo desenho de flores e folhas aparece em mais de um ponto da faixa, com a mesma inclinação e o mesmo recorte.
Os pesquisadores do Museu Nezu levantaram a hipótese de que Kōrin usou moldes para repetir essas formas, técnica que conhecia da tinturaria de tecidos. A família dele vendia seda, como a seção seguinte conta.
A repetição dá à pintura um ritmo de estampa. Os biombos lembram menos uma paisagem vista pela janela e mais um tecido desenrolado, com o motivo voltando em intervalos.
Esses biombos serviam para dividir cômodos e proteger do vento, e eram vistos à luz de lamparinas e da claridade que entrava pelas portas de papel. O ouro devolvia essa luz fraca, e as flores escuras se destacavam dele como recortes.
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II A História Por Trás
O poema das cinco sílabas
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Os Contos de Ise, em japonês Ise monogatari, reúnem 125 episódios curtos, cada um montado em volta de um ou mais poemas. O autor é desconhecido, e o texto ganhou forma entre os séculos 9 e 10.
O protagonista nunca é nomeado, mas a tradição o identifica com Ariwara no Narihira, poeta e nobre da corte de Quioto que viveu de 825 a 880. No nono episódio, ele deixa a capital e segue para o leste com alguns amigos.
O grupo chega a um lugar chamado Yatsuhashi, que quer dizer oito pontes, na antiga província de Mikawa. Ali o rio se divide em vários braços, e tábuas foram postas uma depois da outra para atravessar a água. Na margem, as íris estão em flor.
O acróstico da saudade
Um dos companheiros propõe um jogo: compor um poema em que cada verso comece com uma sílaba da palavra kakitsubata. O viajante escreve cinco versos sobre a roupa gasta de tanto uso, a esposa que ficou longe e a distância percorrida.
Numa tradução livre do texto japonês do século 10, o poema diz: "Tenho uma esposa, familiar como o manto que vesti por muito tempo, e penso em quão longe chegou esta viagem." As cinco sílabas da flor estão escondidas no começo de cada verso do original.
Os Contos de Ise registram o efeito: os companheiros choram sobre o arroz seco que levavam na viagem, até o arroz amolecer com as lágrimas. A cena virou uma das mais pintadas do Japão, quase sempre com a ponte, os homens sentados e os cavalos parados.
O filho do comerciante de seda
Ogata Kōrin nasceu em Quioto em 1658 e morreu na mesma cidade em 1716. O pai dirigia a Kariganeya, casa de tecidos que vendia quimonos de luxo para a corte, incluindo a imperatriz Tōfukumon-in.
Quando o pai faleceu, em 1687, Kōrin herdou uma fortuna e a gastou em poucos anos, com teatro, roupas e festas. Só perto dos 40 anos passou a pintar para viver, e levou para a pintura o olho de quem cresceu entre padrões de tecido.
Em 1701 recebeu o título de hokkyō (ponte da lei, honraria budista dada a artistas). A assinatura nos biombos traz esse título, e por esse motivo a pintura é datada depois de 1701.
Quem encomendou as Íris não se sabe. Nenhum contrato sobreviveu. Os biombos passaram séculos no templo Nishi Honganji, em Quioto, e a hipótese mais aceita é que tenham sido feitos para o templo, mas nenhum documento confirma a encomenda.
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