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As gravuras presas até a lei de 1735

William Hogarth, Londres, 1735

Gravura de Hogarth: um rapaz é medido por um alfaiate enquanto uma jovem chora segurando uma aliança

William Hogarth, A Carreira do Libertino, prancha 1, 1735

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Uma chapa de cobre com pouco mais de 35 por 40 centímetros, riscada a buril (a ponta de aço do gravador) e a água-forte (ácido que morde o metal onde a ponta tirou o verniz). Ela prova que, em 1735, um pintor inglês chamado William Hogarth preferiu deixar oito chapas prontas paradas na oficina a vender uma só cópia sem a lei do lado dele.

As oito chapas contavam a Carreira do Libertino, a história de um rapaz que herda a fortuna do pai sovina e a gasta inteira até acabar no hospício. As telas que serviram de modelo já estavam pintadas. Os assinantes já tinham pago a primeira parcela. Faltava só imprimir.

Hogarth segurou tudo por um motivo conhecido em Londres. Três anos antes, ele tinha lançado outra série, a Carreira da Prostituta, seis gravuras sobre uma moça do interior que chega à cidade e se perde. A série vendeu como poucas, com mais de mil assinantes, e no mesmo ano apareceram cópias baratas nas bancas.

Os copistas não pagavam nada a ele. Compravam uma gravura legítima, decalcavam o desenho numa chapa nova e vendiam pela metade do preço, ou menos. A lei inglesa protegia livros desde 1710, com o Estatuto da Rainha Ana, mas não dizia uma palavra sobre imagens.

Então Hogarth juntou outros gravadores, entre eles George Vertue e John Pine, e levou ao Parlamento um pedido escrito. Queriam para a gravura o mesmo direito que o autor de livro já tinha: só quem desenhou e gravou a chapa poderia imprimir e vender aquela imagem durante um prazo fixo.

O projeto andou devagar. A lei recebeu a sanção do rei George II em maio de 1735 e passou a valer em 24 de junho daquele ano. No dia seguinte, Hogarth pôs à venda a série completa.

As cópias piratas já circulavam, feitas por gente que tinha visto as telas no ateliê e redesenhado as cenas de memória. Mesmo assim, as chapas legítimas saíram com a data impressa e o nome do autor gravado, como a lei pedia.

A prancha 1 vem a seguir, cena por cena, com o rapaz em pé no centro da casa do pai.

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I  O Que Você Vê

Um herdeiro em pé no meio da bagunça

A primeira gravura mostra um quarto de casa velha logo depois de um enterro. O rapaz se chama Tom Rakewell, e o sobrenome já diz quem ele é: rake, em inglês, quer dizer libertino, o homem que gasta tudo em prazer.

Tom está de pé, no centro da cena, com o corpo voltado para fora da imagem. Um alfaiate ajoelhado tira as medidas dele com uma fita. O pai acabou de ser enterrado, e o gesto inicial do filho é encomendar roupa nova.

O quarto inteiro conta quem era o pai. Há baús abertos, papéis no chão, sacos de moedas, uma lareira quase sem fogo. Tudo foi guardado, e quase nada foi usado. A gravura é em preto e branco, e o traço fino do buril dá textura a cada tábua e a cada dobra de pano.

A moça que chora

Perto de Tom, uma jovem enxuga as lágrimas e segura uma aliança. É Sarah Young, a noiva que ele prometeu desposar quando ainda era estudante em Oxford. Agora rico, ele a dispensa com dinheiro.

Atrás dela, a mãe aparece com o avental cheio de cartas: são as cartas de amor que o rapaz escreveu à filha. A mãe as mostra como prova, e o gesto dela tem raiva, a filha tem só vergonha.

Sarah vai voltar ao longo da série. Nas gravuras seguintes, ela paga a dívida que livra Tom da prisão por calote e o visita no fim, quando ele já perdeu o juízo.

O ladrão na mesa

Numa mesa ao fundo, um homem de peruca clara faz contas sobre um livro de registros. É o advogado da família, encarregado de inventariar os bens. Enquanto Tom olha para a moça, a mão do advogado tira moedas da pilha.

Num canto, um trabalhador sobe para pregar pano preto de luto na parede. Ao mexer na madeira do teto, ele solta um esconderijo, e moedas de ouro caem lá de cima. O velho escondia dinheiro até dentro da casa.

Hogarth enche a cena de provas da avareza do pai. Um sapato velho foi remendado com couro, segundo a leitura dos estudiosos da série, cortado da capa de uma Bíblia. Uma vela pela metade espera ser reacendida.

Cada objeto foi posto ali para ser lido. Quem comprava a gravura em 1735 passava minutos procurando os detalhes, como quem decifra uma charada.

 
 

II  A História Por Trás

Um pintor contra os copistas

William Hogarth nasceu em Londres em 1697, filho de um professor de latim que abriu um café e acabou preso por dívidas. O menino viu o pai passar anos na prisão de Fleet, e a cena da cadeia aparece mais tarde na própria Carreira do Libertino.

Ele começou como aprendiz de gravador de prata, desenhando brasões em bandejas e colheres. Aprendeu a cortar metal antes de aprender a pintar, e o ofício explica a confiança com que tratou a chapa de cobre a vida toda.

O negócio das séries

Hogarth chamava as séries de "assuntos morais modernos". Eram histórias contadas em várias imagens, quase como um folhetim, com personagens comuns de Londres e um fim ruim para quem se perdia.

O modelo de venda era a assinatura. O comprador pagava metade adiantado, recebia um recibo gravado e, meses depois, buscava as pranchas. Na Carreira da Prostituta, o conjunto saiu por um guinéu, moeda de ouro que valia 21 xelins.

O sucesso dessa primeira série atraiu os copistas. Livreiros e impressores menores vendiam versões menores, de traço pior, que o público levava para casa achando que tinha um Hogarth. O pintor não via um centavo.

A lei com o nome dele

O Engravers' Copyright Act (a lei de direito dos gravadores) ficou conhecido em Londres como a Lei de Hogarth. O texto dava catorze anos de exclusividade a quem inventasse e gravasse a imagem, contados da data impressa na chapa.

A lei exigia que cada prancha trouxesse o nome do autor e o dia da publicação. Copista apanhado perdia as chapas e pagava multa por folha encontrada. Por essa regra, as gravuras da Carreira do Libertino trazem, embaixo, a linha impressa com a data de 25 de junho.

Para não perder os meses de espera, Hogarth autorizou uma versão barata e menor da série, vendida com o consentimento dele. Quem não podia pagar o conjunto grande tinha uma opção legítima, e o pirata perdia o cliente.

A série completa tem oito pranchas: a herança, o salão de visitas cheio de bajuladores, a noite na taverna, a prisão por dívida na rua, o casamento por dinheiro com uma velha rica, a mesa de jogo, a cadeia de Fleet e, por fim, o hospício de Bethlem, em Londres.

 

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III  Por Que Importa

O direito que passou para os outros

A Lei de Hogarth foi a primeira lei inglesa a proteger uma imagem como propriedade de quem a criou. Até 1735, o artista vendia a chapa ou a cópia, e qualquer um podia reproduzir o desenho sem pedir nada.

O prazo cresceu com o tempo. Em 1767, três anos depois da partida de Hogarth, o Parlamento aprovou uma nova lei e estendeu a proteção das gravuras para vinte e oito anos. A mesma lei garantiu à viúva dele, Jane Hogarth, mais vinte anos de renda sobre as chapas do marido.

Uma prancha refeita

Hogarth voltou à última gravura da série em 1763, um ano antes do fim da vida. Ele mexeu na chapa do hospício e acrescentou na parede uma moeda com a figura da Britânia, a personagem que simboliza o reino, como comentário sobre o país que também enlouquecia.

As chapas originais continuaram a imprimir depois da morte do autor. Tiragens tardias, mais cinzentas porque o cobre se desgasta a cada passada da prensa, estão hoje em vários museus, entre eles o Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que libera as imagens para uso livre.

A história que virou ópera

Mais de dois séculos depois, a série ainda servia de roteiro. O compositor russo Igor Stravinsky viu as gravuras numa exposição em Chicago em 1947 e decidiu transformá-las em ópera.

The Rake's Progress estreou em Veneza em 1951, com libreto (o texto cantado) dos poetas W. H. Auden e Chester Kallman. Tom Rakewell e Sarah Young, que na ópera se chama Anne Trulove, passaram da chapa de cobre para o palco.

O que a chapa ensina

A Carreira do Libertino guarda duas histórias dentro de uma. A primeira é a de Tom, contada em oito cenas cheias de objetos que acusam o personagem. A segunda é a de Hogarth, que esperou a lei para lucrar com a própria invenção.

Diante da prancha 1, a escolha fica com quem olha: ler a gravura como sermão sobre o herdeiro que torra a fortuna do pai, ou como o anúncio de um gravador que provou ter dono a imagem que vendia. As telas pintadas, as que serviram de modelo, saíram das mãos do artista em 1745.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem comprou as oito telas originais da Carreira do Libertino em 1802, e onde elas estão penduradas hoje?

 
 
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