|
|
A Cigana Adormecida
Henri Rousseau · 1897 · Óleo sobre tela
|
O leão fareja a dorminhoca sob a lua cheia
|
| ▼ |
|
|
|
|
Existe um tipo de pintura que o público aprendeu a chamar de ingênua, quase sempre com um sorriso de canto de boca. Perspectiva que não fecha, escala que não obedece, folha desenhada uma a uma como se cada nervura tivesse sido contada. Durante o século dezenove, uma tela assim raramente atravessava a porta de um salão oficial sem ser tratada como piada de fim de tarde.
Uma dessas telas hoje ocupa uma parede inteira em Nova York e recebe fila. Ela tem cerca de um metro e trinta de altura por dois metros de largura, quase o formato de uma cena histórica de museu, e mostra uma mulher deitada de olhos fechados numa faixa de areia, com um leão parado atrás dela, o focinho quase encostando no ombro.
Nada na cena se comporta como cena de selva. Não há mato, não há árvore, não há trilha. O chão é uma superfície lisa que poderia ser deserto, o fundo é uma linha de morros arredondados, e a lua cheia está lá no alto como um disco perfeito, recortado sem nenhum halo.
O animal também não faz o que animal faz nessa situação. A cauda está erguida, os olhos estão abertos, a juba se abre em fios pintados um por um, e a boca continua fechada. O bicho fareja e para. A tensão da tela inteira depende dessa recusa.
Quem pintou trabalhava numa guarita de imposto na entrada de Paris e nunca tinha visto uma selva de perto. Não frequentou academia, começou a pintar depois dos quarenta anos, e aprendeu a desenhar animais copiando bichos empalhados de museu e páginas de catálogo de loja de departamento.
A tela também carrega um episódio administrativo esquecido. Um ano depois de terminá-la, o autor escreveu para a prefeitura de uma cidade do interior da França oferecendo a obra por dois mil francos, e recebeu silêncio de volta.
Vale começar pela superfície, pelo que está pousado na areia, antes de qualquer explicação de biografia.
Continue lendo ↓
Continue lendo ↓
|
|
I O Que Você Vê
O leão que fareja e não ataca
|
|
Óleo sobre tela, cerca de um metro e trinta centímetros de altura por dois metros de largura. Formato horizontal amplo, proporção de pintura de grande cena, aplicado a um episódio silencioso de uma pessoa dormindo no chão.
A composição se organiza em três faixas paralelas. Embaixo, a areia clara; no meio, a mulher deitada e o leão; em cima, o céu azul profundo com a lua e uma cordilheira baixa fechando o horizonte.
A mulher aparece de perfil, deitada de lado, com o corpo inteiro visível de ponta a ponta. Os olhos estão fechados, os pés descalços aparecem juntos, e a mão direita segura uma vara fina apoiada no chão.
O vestido dela é o evento cromático da tela. Faixas verticais de laranja, azul, verde, amarelo e branco se alternam em listras que acompanham a curva do corpo, e a roupa recebe mais atenção descritiva do que o rosto.
Ao lado da cabeça está um jarro. É um vaso de barro escuro, pousado direto na areia, pintado com um brilho seco na lateral, e serve como o único indício de viagem e de sede na cena inteira.
O bandolim completa o inventário. O instrumento está deitado na areia, com o braço voltado para a esquerda e as cordas marcadas uma a uma, e informa a profissão da figura sem precisar de nenhuma legenda.
O leão ocupa o terço direito. Ele está de pé, de perfil, com as quatro patas apoiadas, a cabeça inclinada sobre o corpo adormecido, e o corpo pintado num bege uniforme que quase se funde com a areia.
A juba foi tratada fio a fio. Em vez de uma massa de tinta sugerindo volume, cada mecha aparece desenhada como um traço separado, e o resultado tem mais textura de tapeçaria do que de pelo.
A cauda erguida contradiz a calma. Ela sobe numa curva alta, com um tufo escuro na ponta, gesto que na natureza indica agitação e que aqui contrasta com a imobilidade absoluta do resto do animal.
O olho do bicho está aberto e vidrado. É um círculo claro com pupila escura, sem brilho úmido, olhando para frente e não para a mulher, o que impede o observador de ler intenção no rosto do animal.
A lua não produz sombra coerente. O disco está no alto à esquerda, mas os corpos na areia projetam sombras curtas e mal definidas, e a luz parece vir de todos os lados ao mesmo tempo.
O horizonte é uma linha quase reta. Uma faixa de morros escuros e uma superfície azul mais clara sugerem água ou névoa, sem nenhum detalhe que permita identificar lugar, país ou continente.
A superfície da tinta é lisa e fina. Não há pasta grossa, não há marca de pincel visível, e cada área de cor termina num contorno nítido, como se a pintura tivesse sido montada por recortes justapostos.
|
Um leão, embora feroz, não se lança sobre a presa.
Henri Rousseau, carta ao prefeito de Laval, 1898
|
|
|
II A História Por Trás
O guarda de imposto que escreveu para a prefeitura
|
|
O autor nasceu em Laval, no oeste da França, em 1844, filho de um funileiro. A infância foi de dificuldade financeira, a escola foi interrompida, e a formação artística formal nunca aconteceu em momento nenhum da vida dele.
O emprego que ficou no apelido era municipal. Ele trabalhou por mais de vinte anos no serviço de arrecadação que cobrava taxa sobre mercadoria entrando em Paris, numa guarita de barreira, conferindo carroça de vinho e de carvão.
A pintura começou tarde. Ele passou a pintar com regularidade perto dos quarenta anos, sempre no tempo livre, e só se dedicou integralmente à tela depois de se aposentar do cargo público, em 1893, com uma pensão modesta.
O salão oficial estava fechado para ele. A saída foi o Salão dos Independentes, exposição sem júri criada em 1884, onde qualquer pessoa que pagasse a taxa podia pendurar a própria obra na parede.
A recepção da crítica foi cruel por anos. Resenhas de jornal tratavam as telas dele como curiosidade cômica, e o público visitante parava diante delas para rir da perspectiva e das proporções fora de medida.
A tela da mulher adormecida ficou pronta em 1897. Ele a apresentou no salão daquele ano e no ano seguinte tentou vendê-la de um jeito que ninguém do meio artístico teria tentado.
A carta foi enviada em julho de 1898. Endereçada ao prefeito de Laval, ela oferecia a pintura à cidade natal por dois mil francos, descrevia a cena em detalhe e explicava com paciência de vendedor por que o leão não devora a mulher.
A prefeitura recusou. A obra não entrou em nenhum acervo municipal, voltou para o ateliê e desapareceu da vista pública por mais de duas décadas, sem registro de exposição relevante nesse intervalo.
O reaparecimento foi acidental. A tela reapareceu no mercado de arte parisiense em 1923, quando o pintor já havia morrido, e passou por marchand e colecionador antes de atravessar o oceano.
O museu americano ficou com ela em 1939. Desde então a pintura ocupa lugar fixo na leitura da arte moderna feita em Nova York, e virou uma das imagens mais reproduzidas do acervo.
A geração seguinte adotou o pintor ainda em vida. Em 1908, um grupo de artistas jovens organizou um banquete no ateliê coletivo de Montmartre em homenagem a ele, com discurso, música e brincadeira, numa mistura de reverência e deboche.
O epitáfio veio de um poeta. Alguns anos depois da morte dele, em 1910, versos escritos por um amigo poeta foram gravados na lápide, com uma piada direta sobre o antigo emprego na barreira de imposto.
|
Deixe passar nossa bagagem livre de taxa na porta do céu.
Guillaume Apollinaire, epitáfio de Henri Rousseau, 1913
|
|
|