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O Cavaleiro Sorridente
Frans Hals · 1624 · Óleo sobre tela
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Abelhas e flechas bordadas na manga
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Um bordado de fio de seda preta e dourada, com figuras de menos de dois centímetros cada, corre pela manga esquerda do casaco. De perto aparecem abelhas, flechas cruzadas, chamas saindo de cornucópias e nós de fita amarrados em oito. Nenhuma dessas figuras é enfeite solto: todas pertencem ao repertório de emblemas de amor e de sorte que os holandeses do século XVII mandavam bordar em roupa de noivado.
O homem que veste a manga não está rindo. A boca fica fechada, os lábios em linha reta, e a impressão de riso vem do bigode, que sobe nas pontas em duas curvas simétricas e empurra o olho de quem vê para uma expressão que a boca não faz.
Ele também não é cavaleiro. Não há armadura, não há espada à vista, não há cavalo nem insígnia militar. O casaco é de tecido caro, com renda de linho no punho e uma faixa de seda cruzada no peito, roupa civil de um homem rico de Haarlem.
A inscrição no canto superior direito diz a única informação biográfica confirmada do retrato: idade vinte e seis anos, ano de 1624. O nome do retratado nunca foi registrado em documento algum, e ele atravessou quatro séculos como um rosto sem identidade.
O apelido pelo qual o quadro ficou conhecido no mundo inteiro apareceu tarde, mais de duzentos e sessenta anos depois da tinta secar. Em 1888, numa exposição de mestres antigos em Londres, a tela foi listada em catálogo como The Laughing Cavalier, e o rótulo grudou com força suficiente para que hoje quase ninguém procure a obra por outro nome em livraria, em museu ou em busca de internet.
Duas informações falsas coladas num título de catálogo bastaram para definir como milhões de pessoas olham a pintura. Comece pela superfície: o que a tela realmente mostra, no tamanho e no material que ela tem.
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I O Que Você Vê
Vinte e seis anos escritos no canto direito
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Óleo sobre tela, oitenta e três centímetros de altura por sessenta e sete vírgula três de largura, segundo a ficha da Wallace Collection, em Londres. Formato vertical apertado, que corta o corpo pouco abaixo da cintura e enche quase todo o campo com uma figura só.
O homem aparece de três quartos, com o tronco girado para a esquerda de quem olha e a cabeça voltada de volta para a frente. Os olhos encontram o espectador em linha reta, num ângulo que sugere que ele está acima da altura do olhar.
A mão esquerda apoia no quadril e empurra o cotovelo para fora do quadro. O braço forma um triângulo largo que ocupa o canto inferior e faz a figura parecer maior que a tela comporta.
O chapéu preto de aba larga inclina para a direita e joga sombra na testa. Sob a aba, o cabelo escuro cai até a altura da orelha, penteado para trás e separado ao meio.
O colarinho é uma golilha de linho branco, plana, em várias camadas dobradas, presa por cordões que aparecem na frente do pescoço. O linho é a área mais clara do quadro, e a luz bate nele em primeiro lugar.
O casaco preto tem mangas em cinza-claro e bege, cobertas de bordado do ombro ao punho. Ali estão as abelhas, as flechas, os nós de fita, as cornucópias em chamas e um bastão alado que repete o caduceu de Mercúrio, cada figura desenhada com poucos toques de pincel.
A faixa de seda cruza o peito do ombro direito para o quadril esquerdo. Vermelho, branco e um marrom queimado se alternam nas dobras, e a faixa é o único bloco de cor quente forte da composição.
O punho da manga direita termina em renda de linho, com o desenho de rendilhado feito por riscos rápidos de tinta branca sobre a base cinza. De longe a renda parece minuciosa, e de perto ela vira um emaranhado de traços soltos.
O fundo é um cinza-oliva liso, sem móvel, sem cortina, sem paisagem, sem qualquer objeto que situe a cena num lugar. Ele escurece na parte de baixo e clareia atrás da cabeça, criando um halo discreto em volta do chapéu.
No canto superior direito estão o monograma do pintor, as letras entrelaçadas, e duas linhas de inscrição em tinta clara: AETA SVAE 26 e AN 1624, ou seja, a idade do retratado e o ano da pintura.
A pincelada muda de velocidade conforme o material. O rosto tem transições suaves e camadas finas, o bordado sai em toques secos e diretos, e a golilha se resolve em pinceladas largas que não escondem o movimento da mão.
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A cabeça é pintada com cuidado deliberado e as mangas com uma rapidez que nenhum contemporâneo dele igualou.
Seymour Slive, Frans Hals, 1974
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II A História Por Trás
A disputa de 1865 no leilão de Paris
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Frans Hals pintou a tela em Haarlem, cidade têxtil da província da Holanda, quando estava com pouco mais de quarenta anos e já era o retratista mais requisitado da praça. Ele vivia de encomenda de burguês, de comerciante e de companhia de milícia, e cobrava por rosto pintado em grupo.
A identidade do retratado nunca apareceu em contrato, em inventário ou em carta. O historiador holandês Pieter Biesboer propôs em 2008 o nome do comerciante de tecidos Tieleman Roosterman, que Hals retratou de novo em 1634, com base na comparação de traços e no perfil social do modelo, e a hipótese segue como hipótese.
O bordado da manga sustenta uma leitura mais firme que a do nome. Abelha, flecha, chama e nó de fita eram emblemas correntes nos livros de imagens que circulavam na Holanda da época, e todos apontam para casamento, desejo e fortuna, o que faz do quadro um provável retrato de noivado.
Nos dois séculos seguintes o quadro sumiu do registro público. Ele reaparece na coleção do conde Pourtalès-Gorgier, em Paris, e vai a leilão em 27 de março de 1865, depois da morte do colecionador.
O pregão daquele dia entrou para a história do mercado de arte. Richard Seymour-Conway, quarto marquês de Hertford, disputou a tela lance a lance com o barão Gustave de Rothschild e fechou a compra por cinquenta e um mil francos, cerca de seis vezes a avaliação prévia do catálogo.
A cifra virou notícia na imprensa francesa e inglesa. O valor pago por um retrato holandês sem nome de modelo confirmou uma virada de gosto que vinha acontecendo desde os anos 1860, com pintores e críticos redescobrindo a pincelada solta de Hals.
O marquês levou a obra para Londres e a manteve em Hertford House. Ela passou por herança a Richard Wallace e chegou ao público em 1900, quando a viúva de Wallace deixou a coleção inteira para a nação britânica, com a condição de que nenhuma peça saísse do prédio.
O apelido nasceu depois da compra, não junto com o quadro. Em 1888, a mostra de mestres antigos da Royal Academy, em Londres, listou a tela em catálogo como The Laughing Cavalier, e a imprensa da época repetiu a expressão em todas as resenhas da exposição.
O rótulo tinha dois erros e uma vantagem comercial. O retratado não ri e não é cavaleiro, mas a expressão soava simpática ao público vitoriano, e o quadro passou a ser reproduzido em gravura, em cartão-postal e em anúncio de tabaco com aquele título.
A pintura continua exposta na Wallace Collection, em Londres, na mesma sala desde a abertura ao público. Ela não viaja para exposições temporárias em nenhuma circunstância, por causa da cláusula do legado de 1897, e quem quiser ver o bordado da manga precisa ir até lá.
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A tela foi arrematada por cinquenta e um mil francos, seis vezes o valor estimado, depois de uma disputa que parou a sala.
Wallace Collection, ficha da obra The Laughing Cavalier, 1624
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