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O Beijo
Francesco Hayez · 1859 · Óleo sobre tela
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O manto verde e a seda azul na escada
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Uma meia de lã vermelha, esticada da virilha ao tornozelo, com o pé apoiado no degrau de pedra e o joelho dobrado para a frente. É a peça de roupa mais berrante da tela inteira, e ela pertence ao rapaz que está de saída, não à moça que ele beija.
Sobre o ombro desse mesmo rapaz cai um manto de tecido verde-escuro, preso na altura do peito, longo até quase o chão. Vermelho embaixo, verde em cima, num único corpo de costas para quem olha.
A moça segura o pescoço dele com a mão direita e ocupa metade da tela com um vestido de seda azul claro que reflete a luz da janela alta. O tecido é o ponto mais luminoso da composição, e a saia se abre em pregas que caem sobre os degraus como água derramada.
Some as duas figuras num só olhar e as cores se organizam sozinhas: azul, branco e vermelho de um lado, verde do outro. A bandeira francesa e o verde que faltava para completar a bandeira que a Itália ainda não tinha como Estado.
Francesco Hayez pintou a cena em 1859, ano em que o Piemonte e a França de Napoleão III entraram juntos numa guerra contra o Império Austríaco pelo controle do norte da península. O quadro estreou na exposição anual da Academia de Brera, em Milão, poucos meses depois das tropas aliadas entrarem na cidade.
Um censor austríaco olhando a tela via um casal medieval se despedindo numa escada de pedra. Um patriota milanês via o acordo diplomático entre Turim e Paris costurado em seda, exposto na parede de uma academia pública, sem uma única palavra escrita.
A tela ficou tão popular que o pintor produziu outras versões dela nos anos seguintes, com mudanças de cor no tecido e um pano branco acrescentado no degrau. A primeira, a de 1859, pertence hoje à Pinacoteca di Brera, que a recebeu por doação particular em 1886.
Vale começar pelo que a superfície mostra antes de qualquer história política: a escada, a luz, o rosto que não aparece e a sombra que espera no canto.
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I O Que Você Vê
A sombra que espera no arco da esquerda
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Óleo sobre tela, cento e dez centímetros de altura por oitenta e oito de largura, segundo a ficha da Pinacoteca di Brera. Formato vertical, quase o dobro de altura em relação à largura, que aperta as duas figuras numa coluna estreita.
O casal ocupa o centro exato. Ele está em pé no degrau de baixo, com o corpo inclinado para a frente; ela recua meio passo e apoia o peso no calcanhar, com o tronco arqueado para trás.
O rosto dele desaparece. O chapéu de aba larga e a mão dela cobrem tudo, e o beijo acontece atrás de uma barreira de feltro escuro e dedos brancos. Nenhum dos dois rostos é legível como retrato.
O vestido dela é o maior bloco de cor do quadro. Seda azul clara com brilho quase branco nas dobras altas, escurecendo para cinza azulado onde a saia toca a pedra, com uma faixa de tecido mais claro na barra.
A mão esquerda dela pende aberta ao lado do corpo. A direita se fecha na nuca dele com força visível nos nós dos dedos.
O manto verde dele cobre as costas e o ombro direito. Debaixo do manto aparece um gibão marrom apertado na cintura, e nas pernas as duas meias vermelhas, uma inteiramente à vista e a outra recuada na sombra.
O pé direito dele já está no degrau seguinte. O corpo inteiro aponta para a saída, e o beijo acontece em cima de um movimento interrompido pela metade.
Na cintura dele, junto à mão que sustenta a moça, aparece o cabo de uma adaga curta. A arma está fechada na bainha, sem destaque de luz, colada ao quadril.
A escada sobe pela direita e some no escuro. Os degraus são de pedra clara, gastos no meio, e a parede tem revestimento de tijolo aparente com uma arcada gótica ao fundo.
À esquerda, no vão embaixo da arcada, uma sombra humana se projeta na parede. Não há figura visível, apenas o contorno escuro de alguém que está fora do enquadramento, no pé da escada.
A luz entra por uma janela alta, fora de campo, no alto à esquerda. Ela bate no vestido, ilumina o braço nu da moça e deixa toda a metade inferior do quadro em penumbra marrom.
A pincelada muda de acabamento conforme o material. A seda tem tinta lisa e brilho quase fotográfico, o tijolo tem massa seca e raspada, e o rosto da moça, o pouco que se vê dele, sai em transição suave sem contorno duro.
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A cena tem tudo de um encontro medieval e nenhuma data escrita nela.
Pinacoteca di Brera, ficha da obra Il bacio, 1859
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II A História Por Trás
O acordo de Plombières costurado em seda
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A tela nasceu de encomenda particular. O conde Alfonso Maria Visconti di Saliceto pediu a obra ao pintor e a manteve na coleção da família até 1886, quando a doou à Pinacoteca di Brera, segundo o registro de proveniência do próprio museu.
O ano da encomenda importa mais que o nome do comprador. Em julho de 1858, o primeiro-ministro do Reino da Sardenha, Camillo Benso de Cavour, encontrou Napoleão III na estação termal francesa de Plombières e acertou em segredo uma aliança militar contra a Áustria.
O acordo previa tropas francesas em troca de território. Se a Áustria atacasse primeiro, a França entraria na guerra ao lado do Piemonte, e Nice e a Saboia passariam ao domínio francês depois da vitória.
A guerra começou em abril de 1859. O exército austríaco cruzou o rio Ticino, o exército francês desceu os Alpes, e as batalhas de Magenta e Solferino, em junho daquele ano, decidiram o controle da Lombardia em poucas semanas.
Napoleão III e Vittorio Emanuele II entraram em Milão em 8 de junho de 1859, recebidos por multidão nas ruas. A cidade tinha vivido sob administração austríaca desde 1815, com censura de imprensa, de teatro e de exposição pública.
A exposição anual da Academia de Brera abriu em setembro do mesmo ano. O quadro apareceu ali, na primeira mostra pública milanesa depois da troca de bandeira, para um público que tinha acabado de ver soldados franceses marchando pelas mesmas ruas.
O disfarce funcionou por duas camadas. A roupa do casal é figurino do século XV, gênero histórico consagrado e sem risco político; a leitura das cores exige que o espectador junte duas figuras que a pintura mantém separadas por posição e por luz.
O verde do manto e o vermelho da meia formam com o branco do tecido da camisa dele a combinação que os patriotas usavam em fita, em lenço e em roseta desde 1848, e que a polícia austríaca perseguia como sinal político.
O azul do vestido dela entra por cima como o terceiro elemento. Azul, branco e vermelho é a bandeira que entrou em Milão em junho, e ela veste o país que chegou para ajudar.
O gesto do casal repete o argumento em movimento. Um está partindo, o outro segura; a aliança militar acontece na hora exata da despedida, e o quadro escolhe o instante em que os dois ainda se tocam.
O público entendeu na hora. A tela virou o quadro mais comentado da mostra, e o pintor passou os anos seguintes atendendo pedidos de repetição para outros compradores.
A segunda versão foi encomendada em 1861. Nela o pintor acrescentou um pano branco no degrau, aos pés do casal, e ajustou o azul do vestido para um tom mais frio, mudanças que reforçam a leitura de bandeira em vez de escondê-la.
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Nice e a Saboia pela Lombardia: o preço combinado em Plombières estava fechado antes do primeiro tiro.
Camillo Benso de Cavour, correspondência com Vittorio Emanuele II, julho de 1858
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