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Os 3 desconhecidos que tiram Cristo do centro
Piero della Francesca, A Flagelação de Cristo, c. 1455-1460, Galleria Nazionale delle Marche, Urbino
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A Flagelação de Cristo, Piero, c. 1455-1460
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Um painel de madeira de 58 por 81 centímetros, pintado com têmpera (tinta de pigmento ligado com gema de ovo) e óleo. Cabe numa mesa de jantar. Está pendurado no Palácio Ducal de Urbino, na Itália, e há mais de um século tira o sono de quem estuda pintura.
Na metade esquerda, um homem amarrado a uma coluna apanha de chicote. Na metade direita, três homens bem vestidos conversam ao ar livre. Nenhum dos três olha para a surra.
O autor é Piero della Francesca, pintor e matemático nascido em Borgo San Sepolcro, na Toscana, no começo do século 15. Ele pintou A Flagelação de Cristo provavelmente entre 1455 e 1460. A data exata não aparece em nenhum documento da época, e as propostas dos historiadores vão de meados da década de 1440 até o começo da de 1470.
Na maioria das flagelações pintadas na Itália daquele século, Cristo ocupa o meio da cena e o maior pedaço da madeira. Piero fez o contrário. Pôs Cristo recuado, dentro de um pórtico de colunas, menor que qualquer um dos três homens da frente.
Quem são os três, ninguém sabe ao certo. Não sobrou contrato de encomenda, carta do pintor nem inventário antigo que diga os nomes. Também não se sabe quem pagou pelo painel. Desde o século 19, os historiadores propõem identificações, e cada uma muda o sentido do quadro inteiro.
Esta edição percorre três caminhos: o que de fato está pintado no painel, quem os estudiosos dizem que são os três homens e por que um quadro tão pequeno ainda ocupa tanta gente.
O caminho começa pelo chão, onde Piero escondeu a conta que organiza todo o resto.
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I O Que Você Vê
O piso que puxa o olho
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O chão do pórtico é feito de lajotas claras e escuras que diminuem conforme se afastam. As linhas correm para o fundo e levam o olho até o homem amarrado. Cristo está de pé, só com um pano branco curto na cintura, preso a uma coluna clara.
No alto dessa coluna há uma estatueta dourada, uma figura nua que segura um globo. É uma imagem pagã posta em cima do castigo, e ela brilha mais que qualquer outro ponto da metade esquerda.
Dois homens cercam Cristo com os chicotes erguidos. Um terceiro, de turbante, aparece de costas para quem olha, plantado entre os açoitadores e o trono. O rosto dele não aparece em parte alguma do painel.
O homem sentado no trono
No canto esquerdo, sentado num trono sobre um degrau, está Pôncio Pilatos, o governador romano que mandou açoitar Cristo segundo os Evangelhos. Ele usa um chapéu alto de aba dobrada e uma roupa comprida. Assiste à cena sem se mexer.
Na base do trono, Piero deixou a assinatura em letras romanas: “OPVS PETRI DE BVRGO S[AN]C[T]I SEPVLCRI” (obra de Piero de Borgo San Sepolcro). Foi a única informação que o pintor escreveu no painel.
Os três que não olham
Fora do pórtico, na metade direita, a luz do dia bate em três figuras de pé, quase da altura do painel. Atrás deles há um prédio com telhado, um muro e uma árvore contra o céu.
O homem da esquerda tem barba bifurcada e roupa de tecido escuro. O do meio é um jovem loiro, descalço, de túnica vermelha, com o olhar perdido para a frente. O da direita veste um manto de brocado (tecido com desenho bordado em fios grossos) em azul e dourado.
O barbudo parece falar com o homem do brocado. O jovem do meio não participa da conversa e não encara ninguém. Os três estão parados, os pés firmes no chão de pedra.
Entre o grupo da frente e o pórtico corre a linha de uma coluna, que divide o painel quase pela metade. De um lado está o castigo, do outro a conversa. Piero não pintou nenhum gesto que ligue os dois lados: ninguém aponta, ninguém vira a cabeça.
Foi essa falta de ligação que pôs os historiadores atrás de nomes. Se os três não são figurantes da cena bíblica, alguém de carne e osso posou para eles.
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II A História Por Trás
Três nomes para três homens
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A hipótese mais antiga vem de Urbino. Em 1444, o jovem duque Oddantonio da Montefeltro foi atacado e morto numa conspiração na própria cidade, junto com dois conselheiros. Quem assumiu o poder foi o meio-irmão dele, Federico da Montefeltro, que depois encheu o Palácio Ducal de obras de arte.
Por essa leitura, o jovem loiro seria Oddantonio, e os dois de cada lado, os conselheiros. Escritores do século 19 registraram que a moldura antiga trazia uma frase do Salmo 2, “Convenerunt in unum” (reuniram-se todos juntos), a mesma que o Evangelho aplica aos que se juntaram contra Cristo. A moldura com a frase não chegou até nós, e a ligação ficou sem prova.
A pista do chapéu
Em 1951, o historiador britânico Kenneth Clark propôs outra leitura no livro Piero della Francesca. Ele notou que o chapéu de Pilatos lembra o do imperador bizantino João VIII Paleólogo, que esteve na Itália em 1438 e 1439 para o concílio que tentou reunir as igrejas de Roma e de Constantinopla.
Em 1453, Constantinopla caiu nas mãos dos turcos otomanos. Em 1459, o papa Pio II reuniu os príncipes cristãos em Mântua para pedir uma cruzada. Por essa chave, Cristo açoitado seria a cristandade do Oriente sofrendo, e os três da frente, os ocidentais que discutem o que fazer.
Bessarion, Bacci e um rapaz
Em 1981, o historiador italiano Carlo Ginzburg levou a pista adiante no livro Indagini su Piero (Investigações sobre Piero). Para ele, o barbudo da esquerda é o cardeal Bessarion, sábio grego que se mudou para a Itália e pregava a cruzada. O homem do brocado seria Giovanni Bacci, comerciante de Arezzo ligado a Piero.
O jovem descalço, na leitura de Ginzburg, é Buonconte da Montefeltro, filho de Federico, que estudava com Bessarion e morreu de peste em 1458, aos 17 anos. O quadro seria uma lembrança dele e um chamado à cruzada ao mesmo tempo.
Outros estudiosos propuseram mais nomes, entre eles a pesquisadora italiana Silvia Ronchey, no livro L'enigma di Piero (O enigma de Piero), de 2006, que também lê no painel o drama bizantino. Cada proposta tem argumentos e nenhuma tem documento.
O que se sabe com segurança é pouco: o painel foi feito para Urbino ou para gente ligada à corte dos Montefeltro, e está na cidade há séculos. Quem encomendou, para que sala e com que intenção continua sem resposta, porque nenhum papel que responda foi encontrado até hoje.
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