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Esta pauta venceu a urna de 23/09.
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Um barco sem controle e 800 pessoas num rolo de seda
Zhang Zeduan, início do século 12 · Tinta e cor sobre seda, 24,8 por 528,7 cm
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Festival Qingming, Zhang Zeduan, séc. 12
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Um barco de carga chega rápido demais à ponte. No convés, a tripulação corre. Um homem finca uma vara comprida contra a madeira, outros puxam cordas para baixar o mastro, e lá em cima, no arco da ponte, uma pequena multidão se debruça no parapeito para assistir. A cena inteira cabe em poucos centímetros de seda.
Ela está no rolo À Beira do Rio no Festival Qingming, pintado pelo chinês Zhang Zeduan no começo do século 12. O Museu do Palácio, em Pequim, que guarda a peça, registra 24,8 centímetros de altura e 528,7 de comprimento: seda pintada com tinta e cor, feita para ser aberta devagar sobre uma mesa, trecho por trecho.
Nesse comprimento, segundo o próprio Museu do Palácio, andam mais de 800 pessoas. Barqueiros, carregadores, vendedores de comida, monges, cavaleiros, crianças, um contador de histórias cercado de ouvintes. Ninguém posa para o pintor. Cada figura está ocupada com a própria tarefa.
A cidade retratada é Bianjing, hoje chamada Kaifeng, capital da dinastia Song do Norte, a família de imperadores que governou a China entre 960 e 1127. Em 1127, a capital caiu nas mãos dos jurchéns, povo do nordeste que fundou a dinastia Jin. Os invasores levaram para o norte, como prisioneiros, o imperador Huizong, que já tinha passado o trono, e o filho dele, o imperador Qinzong. O rolo atravessou a queda. As ruas que ele mostra, não.
Sobre o autor sobrou muito pouco. A vida de Zhang Zeduan cabe numa nota curta, escrita por outro homem décadas depois, na ponta do próprio rolo. Não existe retrato dele, nem carta, nem túmulo conhecido.
O barco da ponte, a nota e o destino da seda têm resposta nas três partes abaixo. Primeiro, a leitura da pintura, na direção em que um chinês do século 12 a desenrolaria.
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I O Que Você Vê
Do campo ao portão, da direita para a esquerda
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O rolo horizontal, que os chineses chamam de shoujuan (rolo de mão), não foi feito para a parede. O leitor abria um trecho da largura dos braços, enrolava a parte já vista com a mão direita e desenrolava a próxima com a esquerda. A leitura corre da direita para a esquerda, como a escrita chinesa da época.
Na ponta direita, a pintura começa no campo. Árvores de galhos finos e quase sem folhas, casas baixas de telhado de palha, lavouras, uma estrada de terra. Uma pequena fila de burros carregados sai da névoa e segue em direção à cidade.
Aos poucos a estrada encontra o rio. Aparecem os primeiros barcos ancorados, com toldos de esteira e cascos largos. Na margem, homens puxam embarcações por cordas, a pé, contra a correnteza. Os telhados ficam mais juntos, e as tabernas começam a pendurar bandeiras na porta.
A ponte sem pilares
O centro de gravidade do rolo é a ponte em arco sobre o rio, chamada Hongqiao (Ponte do Arco-Íris). É uma estrutura de madeira sem pilar dentro da água, montada com vigas encaixadas umas nas outras, larga o bastante para barracas de comércio em cima.
É ali que acontece o incidente descrito no começo. O barco grande vem na direção da ponte com o mastro ainda de pé. Os barqueiros tentam dobrar o mastro e frear o casco com varas, e gente na ponte grita instruções e joga cordas. Zhang Zeduan escolheu para o ponto mais cheio do rolo um momento de tensão, e não de calma.
Depois da ponte, a margem vira rua. Restaurantes de dois andares, uma loja de remédios, uma oficina de rodas, carroças puxadas por bois, liteiras carregadas por dois homens. As figuras têm poucos milímetros, mas cada uma faz um gesto legível: comer, discutir, pechinchar, empurrar um carrinho de uma roda só.
O portão da cidade
Perto da ponta esquerda, surge o portão da muralha, uma torre alta com telhado de beirais curvos. Uma caravana de camelos atravessa a passagem. Dentro dos muros, as ruas continuam cheias, e a seda termina em pleno movimento, sem um grande palácio para encerrar a viagem.
A perspectiva também chama atenção. Não existe um ponto de fuga único, como na pintura europeia do Renascimento. O olho vê a cena de cima, como alguém que voa baixo, e o ponto de vista acompanha quem desenrola a seda. O céu é quase ausente: tudo o que importa acontece no chão e na água.
A cor é contida. A seda ganhou, com os séculos, um tom de chá, e sobre ela ficam a tinta preta das linhas e toques leves de verde, azul e ocre.
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II A História Por Trás
Uma nota de 1186 e um título em disputa
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A única fonte sobre a vida de Zhang Zeduan é um colofão (nota escrita no próprio rolo por quem o possuiu ou leu) assinado em 1186 por Zhang Zhu, um letrado que servia à dinastia Jin, a mesma que tomou a capital Song.
Zhang Zhu conta que Zeduan tinha o nome de cortesia Zhengdao, vinha da região de Dongwu, na atual província de Shandong, e foi estudar na capital quando jovem. Diz ainda que ele se especializou em jiehua (pintura de arquitetura, com linhas traçadas por esquadro), e que pintava com gosto barcos, carros, mercados, pontes e caminhos.
Fora a nota, nada mais sobreviveu. Não há data de nascimento, data de morte nem outra obra atribuída a ele com segurança. O pintor chegou até nós por causa de um único rolo e de um colecionador que se deu ao trabalho de escrever quem o tinha feito.
Quando foi pintado
O rolo não traz data nem assinatura. A maior parte dos historiadores o coloca no reinado do imperador Huizong, entre 1100 e 1126, porque a cidade aparece inteira, próspera e em paz, e porque a especialidade de Zeduan combina com o gosto da academia de pintura da corte naquele período.
Uma minoria defende que ele foi pintado depois de 1127, no sul, por quem sentia saudade da capital perdida. A falta de assinatura, de data e de qualquer registro de encomenda impede que a disputa se resolva. Nenhum documento conhecido encerra a questão.
O que quer dizer Qingming
Qingming, que em chinês significa "claro e brilhante", é o festival da primavera, no começo de abril, em que as famílias vão limpar os túmulos dos antepassados e levar oferendas. Na parte rural do rolo, há uma liteira enfeitada com galhos de salgueiro, costume ligado a esse feriado.
Outra corrente lê a palavra como elogio ao governo: "Qingming" seria a descrição de uma era limpa e bem administrada, e não do dia do calendário. Os galhos quase sem folhas combinam com o início de abril, e o título pode ter sido dado depois, por um dono do rolo. As duas leituras seguem de pé.
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