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ED 165

Esta pauta venceu a urna de 23/09.

Um barco sem controle e 800 pessoas num rolo de seda

Zhang Zeduan, início do século 12 · Tinta e cor sobre seda, 24,8 por 528,7 cm

À Beira do Rio no Festival Qingming, de Zhang Zeduan: rolo de seda com rio, barcos, ponte em arco e multidão

Festival Qingming, Zhang Zeduan, séc. 12

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Um barco de carga chega rápido demais à ponte. No convés, a tripulação corre. Um homem finca uma vara comprida contra a madeira, outros puxam cordas para baixar o mastro, e lá em cima, no arco da ponte, uma pequena multidão se debruça no parapeito para assistir. A cena inteira cabe em poucos centímetros de seda.

Ela está no rolo À Beira do Rio no Festival Qingming, pintado pelo chinês Zhang Zeduan no começo do século 12. O Museu do Palácio, em Pequim, que guarda a peça, registra 24,8 centímetros de altura e 528,7 de comprimento: seda pintada com tinta e cor, feita para ser aberta devagar sobre uma mesa, trecho por trecho.

Nesse comprimento, segundo o próprio Museu do Palácio, andam mais de 800 pessoas. Barqueiros, carregadores, vendedores de comida, monges, cavaleiros, crianças, um contador de histórias cercado de ouvintes. Ninguém posa para o pintor. Cada figura está ocupada com a própria tarefa.

A cidade retratada é Bianjing, hoje chamada Kaifeng, capital da dinastia Song do Norte, a família de imperadores que governou a China entre 960 e 1127. Em 1127, a capital caiu nas mãos dos jurchéns, povo do nordeste que fundou a dinastia Jin. Os invasores levaram para o norte, como prisioneiros, o imperador Huizong, que já tinha passado o trono, e o filho dele, o imperador Qinzong. O rolo atravessou a queda. As ruas que ele mostra, não.

Sobre o autor sobrou muito pouco. A vida de Zhang Zeduan cabe numa nota curta, escrita por outro homem décadas depois, na ponta do próprio rolo. Não existe retrato dele, nem carta, nem túmulo conhecido.

O barco da ponte, a nota e o destino da seda têm resposta nas três partes abaixo. Primeiro, a leitura da pintura, na direção em que um chinês do século 12 a desenrolaria.

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I  O Que Você Vê

Do campo ao portão, da direita para a esquerda

O rolo horizontal, que os chineses chamam de shoujuan (rolo de mão), não foi feito para a parede. O leitor abria um trecho da largura dos braços, enrolava a parte já vista com a mão direita e desenrolava a próxima com a esquerda. A leitura corre da direita para a esquerda, como a escrita chinesa da época.

Na ponta direita, a pintura começa no campo. Árvores de galhos finos e quase sem folhas, casas baixas de telhado de palha, lavouras, uma estrada de terra. Uma pequena fila de burros carregados sai da névoa e segue em direção à cidade.

Aos poucos a estrada encontra o rio. Aparecem os primeiros barcos ancorados, com toldos de esteira e cascos largos. Na margem, homens puxam embarcações por cordas, a pé, contra a correnteza. Os telhados ficam mais juntos, e as tabernas começam a pendurar bandeiras na porta.

A ponte sem pilares

O centro de gravidade do rolo é a ponte em arco sobre o rio, chamada Hongqiao (Ponte do Arco-Íris). É uma estrutura de madeira sem pilar dentro da água, montada com vigas encaixadas umas nas outras, larga o bastante para barracas de comércio em cima.

É ali que acontece o incidente descrito no começo. O barco grande vem na direção da ponte com o mastro ainda de pé. Os barqueiros tentam dobrar o mastro e frear o casco com varas, e gente na ponte grita instruções e joga cordas. Zhang Zeduan escolheu para o ponto mais cheio do rolo um momento de tensão, e não de calma.

Depois da ponte, a margem vira rua. Restaurantes de dois andares, uma loja de remédios, uma oficina de rodas, carroças puxadas por bois, liteiras carregadas por dois homens. As figuras têm poucos milímetros, mas cada uma faz um gesto legível: comer, discutir, pechinchar, empurrar um carrinho de uma roda só.

O portão da cidade

Perto da ponta esquerda, surge o portão da muralha, uma torre alta com telhado de beirais curvos. Uma caravana de camelos atravessa a passagem. Dentro dos muros, as ruas continuam cheias, e a seda termina em pleno movimento, sem um grande palácio para encerrar a viagem.

A perspectiva também chama atenção. Não existe um ponto de fuga único, como na pintura europeia do Renascimento. O olho vê a cena de cima, como alguém que voa baixo, e o ponto de vista acompanha quem desenrola a seda. O céu é quase ausente: tudo o que importa acontece no chão e na água.

A cor é contida. A seda ganhou, com os séculos, um tom de chá, e sobre ela ficam a tinta preta das linhas e toques leves de verde, azul e ocre.

 
 

II  A História Por Trás

Uma nota de 1186 e um título em disputa

A única fonte sobre a vida de Zhang Zeduan é um colofão (nota escrita no próprio rolo por quem o possuiu ou leu) assinado em 1186 por Zhang Zhu, um letrado que servia à dinastia Jin, a mesma que tomou a capital Song.

Zhang Zhu conta que Zeduan tinha o nome de cortesia Zhengdao, vinha da região de Dongwu, na atual província de Shandong, e foi estudar na capital quando jovem. Diz ainda que ele se especializou em jiehua (pintura de arquitetura, com linhas traçadas por esquadro), e que pintava com gosto barcos, carros, mercados, pontes e caminhos.

Fora a nota, nada mais sobreviveu. Não há data de nascimento, data de morte nem outra obra atribuída a ele com segurança. O pintor chegou até nós por causa de um único rolo e de um colecionador que se deu ao trabalho de escrever quem o tinha feito.

Quando foi pintado

O rolo não traz data nem assinatura. A maior parte dos historiadores o coloca no reinado do imperador Huizong, entre 1100 e 1126, porque a cidade aparece inteira, próspera e em paz, e porque a especialidade de Zeduan combina com o gosto da academia de pintura da corte naquele período.

Uma minoria defende que ele foi pintado depois de 1127, no sul, por quem sentia saudade da capital perdida. A falta de assinatura, de data e de qualquer registro de encomenda impede que a disputa se resolva. Nenhum documento conhecido encerra a questão.

O que quer dizer Qingming

Qingming, que em chinês significa "claro e brilhante", é o festival da primavera, no começo de abril, em que as famílias vão limpar os túmulos dos antepassados e levar oferendas. Na parte rural do rolo, há uma liteira enfeitada com galhos de salgueiro, costume ligado a esse feriado.

Outra corrente lê a palavra como elogio ao governo: "Qingming" seria a descrição de uma era limpa e bem administrada, e não do dia do calendário. Os galhos quase sem folhas combinam com o início de abril, e o título pode ter sido dado depois, por um dono do rolo. As duas leituras seguem de pé.

 

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III  Por Que Importa

O retrato de uma capital que deixou de existir

Kaifeng foi saqueada em 1127, e a corte Song fugiu para o sul, onde refez a capital em Hangzhou. A cidade do rolo nunca voltou a ter o mesmo papel. A seda vale como documento porque guarda o desenho de uma capital que os próprios chineses perderam poucos anos depois de pintada.

Historiadores da técnica usam o rolo para estudar como eram construídos os cascos de barco, os lemes, as rodas de carroça e a estrutura da Ponte do Arco-Íris. Historiadores da economia olham as placas das lojas, os carregamentos e o tipo de serviço oferecido na rua. Poucas imagens daquele século mostram o comércio cotidiano de uma cidade grande com essa densidade.

Cópias e fugas

O rolo virou modelo. Na dinastia Ming, o pintor Qiu Ying fez a própria versão, com cores mais fortes. Em 1736, cinco pintores da corte Qing, a última dinastia imperial, produziram outra, hoje no Museu do Palácio Nacional, em Taipé. Circulam dezenas de cópias e variações, muitas vendidas como se fossem o original.

O original mudou de mãos várias vezes entre coleções imperiais e particulares. No começo do século 20, estava de novo no acervo dos imperadores, em Pequim. Puyi, o último imperador da China, tirou peças da Cidade Proibida no início da década de 1920 e levou o rolo para o nordeste, onde os japoneses o instalaram como governante de fachada do Manchukuo.

Em 1945, com a derrota japonesa, Puyi fugiu e deixou para trás parte da bagagem. O rolo foi recuperado em Changchun e, no começo da década de 1950, voltou a Pequim, para o Museu do Palácio, dentro da mesma Cidade Proibida de onde tinha saído.

Por que quase ninguém vê

Seda antiga desbota com a luz e racha quando é enrolada demais. Por esse motivo, o museu raramente expõe a peça, e por períodos curtos. Quando ela saiu da reserva, em 2015, as filas ocuparam os pátios do museu por dias.

Quem não viu o original conhece o rolo por reproduções e, mais recentemente, por versões animadas projetadas em telões, em que barqueiros e vendedores se mexem. Zhang Zeduan pintou o contrário de um retrato de corte: nenhuma figura olha para quem vê, e ninguém está ali para ser admirado.

A seda pede que o leitor escolha alguém e o acompanhe: o barqueiro da vara, o camelo do portão, o ouvinte do contador de histórias. Diante de 800 pessoas ocupadas, qual delas você seguiria primeiro?

Responda em uma frase

Entre o barqueiro da vara, o camelo do portão e o ouvinte do contador de histórias, quem você seguiria primeiro na seda?

Responda este email em uma frase e assine como quer aparecer. A melhor resposta pode sair numa das próximas edições, com a sua assinatura.

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Quiz da edição

Segundo o texto, quem escreveu a única nota sobre a vida de Zhang Zeduan, e em que ano?

AZhang Zhu, letrado da dinastia Jin, em 1186
BO imperador Huizong, em 1127
CO próprio Zhang Zeduan, em 1120
DUm monge da corte Song, em 1127

Resultado da última edição: 73% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Você pediu, mudou

Você fez a diferença

4,8de 5

148 avaliações · 66 leitores · 12 a 25/09

A mudança da quinzena

«Faltou uma descrição mais precisa, pois o garfo com a batata próximo à boca do homem não aparece»

um leitor, na ed. 116

O texto só descreve o que a imagem do email mostra. Desde 18/09 cada edição é conferida contra a obra antes de sair; a ed. 158, o cordeiro de Zurbarán, foi a primeira a nascer assim.

Mais bem avaliada: Um Bar no Folies-Bergère (ed. 151), 5 de 5 por 17 leitores.

 
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