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Exército de Terracota: 6.000 rostos feitos à mão

Exército de Terracota, cova 1 do mausoléu de Qin Shi Huang, cerca de 210 a.C., barro cozido, Lintong, Xian

Fileiras de soldados de terracota de pé na cova 1 do mausoléu de Qin Shi Huang, em Xian

Soldados da cova 1, barro cozido, cerca de 210 a.C.

▼

Um bigode de argila, fino como um dedo mindinho, colado sobre o lábio de um soldado de pé com quase 1,80 metro de altura. Foi aplicado depois, à mão, e prova que aquele rosto não saiu pronto de molde nenhum.

O soldado é um dos guerreiros de terracota (barro cozido no forno) enterrados ao lado do mausoléu de Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, em Lintong, a cerca de 35 quilômetros do centro de Xian. Ele fica na cova 1, a maior das três covas do exército.

A cova 1 é uma vala retangular de cerca de 230 metros de comprimento por 62 de largura. Os arqueólogos do Museu do Mausoléu de Qin Shi Huang calculam que ela guarda mais de seis mil figuras, entre soldados e cavalos, alinhadas em corredores separados por paredes de terra batida.

Até março de 1974, ninguém sabia que eles estavam ali. Camponeses da aldeia de Xiyang cavavam um poço durante uma seca e bateram em pedaços de barro com feitio de cabeça humana. Acharam que fossem restos de um templo antigo.

Os cacos chegaram às mãos de Zhao Kangmin, arqueólogo do museu local, que juntou as peças e remontou os primeiros soldados. Meses depois, uma equipe nacional assumiu a escavação, que segue aberta até hoje.

O que intrigou os escavadores logo nos primeiros anos foi a repetição sem cópia. Os corpos se parecem demais, com troncos e pernas de proporções quase idênticas. Os rostos, não: há bocas largas e finas, testas altas, queixos estreitos, sobrancelhas grossas, bigodes virados para cima e para baixo.

A explicação está numa linha de montagem com acabamento de ateliê. Poucos moldes faziam as partes grandes do corpo; a cara de cada homem era terminada por um artesão, com argila fresca e uma ponta de madeira na mão.

Antes de entrar na oficina, vale olhar as fileiras como elas aparecem na imagem desta edição.

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I  O Que Você Vê

Fileiras de barro cinza

A resposta de ontem

Que palavra Zhu Da escreveu na porta quando parou de falar?

Ele escreveu 啞 (yǎ), "mudo", e colou na porta. Segundo a biografia escrita por Shao Changheng no fim do século 17, Zhu Da passou anos sem dizer palavra a visitas, respondendo por gestos e bilhetes, mas ria, chorava e bebia com os amigos.

Na imagem, os soldados aparecem de pé, em fileiras que avançam do fundo para a frente, todos virados para o mesmo lado. A cor dominante é o cinza do barro cozido, com tons de ocre onde a terra da cova ainda gruda.

Entre uma fileira e outra corre uma parede de terra, mais alta que os ombros das figuras. Essas paredes sustentavam um teto de vigas de madeira, coberto de esteiras e terra, que desabou há mais de dois mil anos e quebrou a maioria das figuras.

Os soldados da frente estão com os braços junto ao corpo, as mãos meio fechadas, como quem segura um cabo. O cabo sumiu. As lanças e alabardas (lanças com lâmina de machado na ponta) eram de madeira com ponta de bronze, e a madeira apodreceu debaixo da terra.

As cabeças voltadas para a frente

Os soldados olham reto, sem virar o rosto para os lados. Nenhum sorri de boca aberta. O olhar fixo segue a ordem da formação: na cova 1, o exército está voltado para o leste, direção dos reinos que Qin havia derrotado.

De perto, na cova, a uniformidade some. Cada cabeça traz um penteado próprio: coque alto preso de um lado, tranças finas cruzadas na nuca, gorro de tecido amarrado sob o queixo. Os oficiais usam um chapéu de abas duplas que os soldados rasos não têm.

Peças de encaixe

O corpo de cada figura tem três partes que o olho treinado distingue: a base quadrada sob os pés, as pernas maciças e o tronco oco. As pernas são sólidas porque carregam o peso; o tronco é oco para não rachar no forno.

Os braços, as mãos e a cabeça foram feitos à parte e encaixados depois. As mãos vinham de moldes próprios, com dedos estendidos ou dobrados conforme a arma que iam segurar.

Essa divisão explica um detalhe que os restauradores notam ao remontar os cacos. As figuras costumam partir nas emendas, no pescoço, nos ombros e na cintura, onde as peças se juntaram ainda moles.

A cor que sumiu

O cinza que se vê não é a cor original. Os soldados saíram da oficina pintados: uma camada de laca escura por baixo e, por cima, pigmentos como vermelho de cinábrio, verde de malaquita e o roxo de Han (um pigmento sintético de bário e cobre feito na China antiga).

Quando a terra é retirada, a laca seca em poucos minutos no ar de Xian, encolhe e solta a tinta em flocos. Os escavadores dos anos 1970 viram cores vivas desaparecerem diante deles, sem meio de segurar.

Hoje, cada trecho novo só é aberto com umidificadores, filmes plásticos e equipes de conservação ao lado. Restam rostos com manchas rosadas na pele e túnicas com restos de vermelho e verde, guardados em laboratório.

 
 

II  A História Por Trás

Moldes no corpo, mão no rosto

O imperador por trás do exército nasceu em 259 a.C. como Ying Zheng e subiu ao trono do reino de Qin aos 13 anos. Em 221 a.C., depois de vencer os seis reinos rivais, declarou-se Shi Huangdi, “primeiro augusto imperador”.

Unificou a escrita, os pesos, as medidas e a largura dos eixos das carroças. A mesma lógica de padrão chegou à sua tumba, começada quando ele ainda era rei menino e tocada por décadas.

O historiador Sima Qian, que escreveu cerca de um século depois, descreve o interior do túmulo nos Registros do Historiador (Shiji), de cerca de 94 a.C.: “com mercúrio fizeram os cem rios, o Yangtzé, o Rio Amarelo e o grande mar”. O mesmo texto não traz uma palavra sobre o exército de barro.

A linha de montagem

Nas oficinas, o trabalho era dividido. Uma equipe modelava pernas maciças. Outra subia o tronco em rolos de argila, sobrepostos como cordas enroladas, e alisava a superfície por dentro e por fora.

As cabeças começavam em moldes de duas metades, frente e nuca, unidas por uma emenda que ainda aparece atrás das orelhas de algumas figuras. Dessa base saía um rosto genérico, liso, sem expressão.

Depois de montada, a figura secava devagar à sombra e ia ao forno inteira, a temperaturas altas o bastante para endurecer o barro sem deformar o corpo oco.

O acabamento à mão

Sobre a cabeça lisa, o artesão aplicava argila nova. Modelava sobrancelhas, pálpebras, lábios, bigode e barba; colava orelhas; riscava fios de cabelo com uma ponta fina, um por um.

O resultado são rostos diferentes entre si, mesmo quando nascem do mesmo molde. Os arqueólogos agrupam as caras por traços comuns, mas não acharam dois soldados idênticos na cova 1.

Ninguém sabe se cada rosto copiava um soldado real. Os documentos de Qin não dizem, e a semelhança entre grupos de caras sugere tipos, não retratos. O que se sabe é que nenhum artesão repetiu o vizinho.

Os mestres assinavam

Em muitas figuras há carimbos ou inscrições com a assinatura do mestre de oficina, às vezes junto à palavra gong (oficina do palácio) ou à cidade de onde vinha a olaria.

O arqueólogo Yuan Zhongyi, que dirigiu as escavações por décadas, identificou nessas marcas dezenas de mestres diferentes, uns ligados às oficinas imperiais, outros a olarias de cidades da região.

A assinatura servia ao controle. O Lüshi Chunqiu (Primaveras e Outonos do senhor Lü), compilado por volta de 239 a.C. na corte de Qin, manda gravar na peça a assinatura do artesão para apurar a qualidade e punir quem errou.

 

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III  Por Que Importa

Um exército feito para ser conferido

Dois milênios depois, os soldados viraram prova de como um Estado antigo organizava trabalho em massa. Seis mil figuras exigem argila, lenha, fornos, transporte e fiscais, tudo ao mesmo tempo e no mesmo canteiro.

A cova 1 mostra a escala. A cova 2 guarda arqueiros, cavaleiros e carros. A cova 3, a menor, parece um posto de comando, com oficiais em torno de um carro de guerra. As três ficam a cerca de 1,5 quilômetro a leste do monte do túmulo.

O bronze das armas

As armas encontradas junto aos soldados também contam a história da padronização. Pontas de flecha de bronze saíram em lotes quase idênticos, e as bestas (arcos montados sobre uma coronha, com gatilho) tinham peças que serviam em qualquer outra.

Por anos correu a ideia de que espadas e pontas tinham uma camada de cromo contra a ferrugem. Em 2019, uma equipe liderada por Marcos Martinón-Torres, do University College London, publicou na revista Scientific Reports que o cromo vinha da laca dos cabos de madeira, não de técnica deliberada; o bom estado do bronze se explicava pelo solo da região.

O túmulo fechado

O monte do túmulo, onde estaria o corpo do imperador, nunca foi aberto. O governo chinês decidiu esperar por técnica capaz de proteger o que houver lá dentro, lição tirada da tinta que se perdeu nas covas.

O império durou pouco depois do dono. Qin Shi Huang morreu em 210 a.C., e a dinastia caiu em 206 a.C. Na cova 1 há marcas de incêndio e vigas carbonizadas, que a tradição atribui às tropas do rebelde Xiang Yu.

O fogo e o desabamento do teto explicam por que quase todos os soldados foram achados em pedaços. Cada figura de pé no museu hoje foi remontada caco por caco, num trabalho que ainda ocupa restauradores em Lintong.

A escolha diante das fileiras

A cova foi aberta ao público em 1979 e entrou para a lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1987. Quem desce às passarelas vê o exército inteiro de uma vez, e só depois o rosto de cada um.

Diante das fileiras, a leitura fica com quem olha: um exército de série, prova de um império que media tudo, ou seis mil retratos de homens que um oleiro olhou de perto antes de assinar. As duas leituras estão acima.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem foi o camponês que bateu a pá no primeiro soldado de terracota, em março de 1974?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, depois que a cabeça do soldado saía do molde ainda lisa e sem expressão, o que o artesão fazia para deixar cada rosto diferente?

APintava as feições sobre o rosto liso, sem aplicar argila nova
BAplicava argila nova à mão para modelar sobrancelhas, pálpebras, lábios, bigode e barba, colar as orelhas e riscar os fios de cabelo
CTrocava o molde genérico por um molde de rosto esculpido individualmente para cada soldado
DUsava um carimbo de bronze para marcar as feições antes de levar ao forno

Resultado da última edição: 62% acertaram.

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