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O Enterro do Conde de Orgaz
El Greco · 1586 · Óleo sobre tela
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O menino que aponta o corpo de armadura
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Toledo, igreja de Santo Tomé. A obra não está numa parede de museu: ocupa até hoje o nicho para o qual foi feita, na capela lateral onde o corpo do fidalgo foi sepultado duzentos e sessenta anos antes da encomenda.
A borda de baixo da tela quase encosta na altura do túmulo. Quem entra na capela chega com os olhos na linha do peito das figuras da fila da frente, e não a alguns metros de distância, como acontece numa galeria.
A consequência do posicionamento é direta. O visitante não vê a cena de fora, de um ponto neutro: ele fica na mesma sala, na mesma altura e quase no mesmo chão dos homens de preto que assistem ao sepultamento.
A encomenda tinha finalidade prática, quase jurídica. O pároco da igreja queria fixar em imagem um episódio de 1323 que a paróquia usava para justificar uma renda anual antiga, contestada pela vila vizinha durante décadas de processo.
O contrato assinado em 1586 é minucioso e deixa pouco espaço para invenção. Descreve a procissão, os clérigos, a gente que assiste, os dois santos que descem para depositar o corpo e até o céu aberto que deve aparecer acima.
Não há uma linha no contrato mandando pintar criança nenhuma. Mesmo assim, no canto de baixo à esquerda, um menino de uns oito anos está ali, de pé na frente de todo mundo, com um archote pendurado na mão.
Ele é o único que olha para fora da tela e o único que aponta. O dedo indicador está esticado na direção do corpo que está sendo baixado, num gesto que serve de instrução: repare aqui, é isto que está acontecendo.
No bolso da jaqueta dele há um lenço branco dobrado, pintado com cuidado desproporcional ao tamanho que ocupa. Sobre o tecido há letras miúdas e um número que não pertence ao ano da cena nem ao ano do contrato.
O número é 1578, e é uma data de nascimento. Antes de chegar ao lenço, vale percorrer a tela inteira devagar, porque a composição é dividida em dois andares que quase não se falam.
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I O Que Você Vê
O menino com o archote na mão
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Óleo sobre tela, quatrocentos e oitenta centímetros de altura por trezentos e sessenta de largura. Formato em pé, de parede inteira, com a borda superior arredondada para encaixar no arco da capela.
A composição está partida em dois andares. Embaixo, uma faixa terrena, densa, escura e cheia de gente; em cima, uma zona de nuvens abertas com figuras alongadas, e entre as duas uma fileira contínua de cabeças.
No centro da faixa de baixo, dois santos de vestes bordadas em ouro seguram o corpo. Um sustenta os ombros, o outro segura as pernas, e os dois estão curvados sobre o buraco aberto do sepulcro.
O corpo veste armadura completa, de aço polido. A cabeça caiu para trás, o braço pende solto, e a superfície de metal funciona como espelho: nela se refletem o amarelo do bordado e as figuras que estão em volta.
Atrás dos santos há uma fileira de cerca de vinte fidalgos. Todos de preto, todos com a mesma gola branca engomada, todos com o rosto individualizado, cada um deles um retrato reconhecível de alguém.
Nenhum desses homens olha o corpo. Uns miram para cima, na direção da abertura de nuvens; outros conversam entre si; outro encara diretamente quem está do lado de fora da pintura.
À esquerda, um frade franciscano de hábito pardo levanta o olhar. À direita, um sacerdote de sobrepeliz branca lê em voz alta de um livro aberto, com a boca entreaberta e uma cruz erguida logo atrás dele.
No canto inferior esquerdo está o menino. Ele é o mais baixo da cena, o mais próximo da borda, e é o único cujo olhar sai da tela e encontra o de quem está diante dela.
O gesto dele organiza tudo. O braço direito atravessa o corpo e o indicador aponta para o cadáver de armadura, ligando o espectador ao centro da ação em uma linha diagonal curta.
No bolso da jaqueta preta dele há o lenço branco, com letras gregas miúdas e o número 1578 escritos sobre a dobra do tecido, no ponto mais discreto de toda a superfície pintada.
Acima da fileira de cabeças, o céu se abre em nuvens acinzentadas e ocres. Um anjo de veste amarela sobe por um canal estreito entre elas carregando uma forma translúcida, pequena, do tamanho de um bebê enrolado.
No alto, uma figura de branco senta em glória, com a Virgem à esquerda e um homem seminu ajoelhado à direita, os dois voltados para o centro num arranjo simétrico de súplica.
As proporções mudam de um andar para o outro. Embaixo, os corpos têm medida de gente; em cima, os braços e os troncos esticam, as pernas afinam e as figuras ganham quase uma cabeça a mais de altura.
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Represente-se uma procissão de como o pároco e os que assistiam viram descer Santo Agostinho e Santo Estêvão para sepultar o corpo daquele cavaleiro.
Andrés Núñez de Madrid, contrato da capela de Santo Tomé, 1586
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II A História Por Trás
O lenço com a data de 1578
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Domenikos Theotokopoulos nasceu em Candia, na ilha de Creta, por volta de 1541, e começou a carreira pintando ícones em tábua no idioma visual bizantino, com fundo de ouro e figura frontal.
O trajeto passou por Veneza e por Roma antes de parar na Espanha. Chegou a Toledo em 1577, na casa dos trinta e poucos anos, e nunca mais saiu da cidade nem voltou ao Mediterrâneo grego.
O episódio pintado é de 1323 e envolve um benfeitor da paróquia. Um senhor de Orgaz, morador de Toledo, deixou em testamento uma renda anual para a igreja e pediu para ser sepultado ali.
A lenda local conta que, no sepultamento, dois santos desceram em pessoa. Eles teriam baixado o corpo à sepultura na frente de todos os presentes, diante de clero, vizinhos e fidalgos da cidade.
A renda deixada em testamento virou disputa no século XVI. A vila de Orgaz parou de pagar, a paróquia entrou na justiça e a sentença favorável saiu depois de anos de processo, poucos antes da encomenda.
A pintura nasce dessa vitória. O pároco Andrés Núñez encomendou em março de 1586 uma tela grande para a capela do sepulcro, com prazo curto e um roteiro escrito de tudo que deveria aparecer nela.
O documento manda pintar a procissão, os santos, a assistência e o céu aberto. Não fala em criança nenhuma, nem em archote, nem em lenço, nem em qualquer figura acrescentada por vontade do pintor.
A criança entrou mesmo assim, no ponto mais visível da borda. Trata-se do filho do pintor, Jorge Manuel, nascido em Toledo em 1578, filho de Jerónima de las Cuevas, então com cerca de oito anos.
O lenço do bolso é a prova disso. Sobre o pano estão a assinatura em letras gregas do pintor e a data 1578, que não é o ano da cena, não é o ano do contrato e não é o ano da entrega.
A data escrita ali é o ano de nascimento do menino. O pintor usou o lugar mais protegido da composição para registrar, ao mesmo tempo, a autoria da obra e a chegada do filho ao mundo.
Os outros rostos também são gente do próprio tempo do pintor. A fileira de fidalgos de preto reúne clérigos e nobres de Toledo dos anos 1580, vestidos à moda dos anos 1580, dentro de um episódio de 1323.
A entrega gerou uma segunda briga, dessa vez sobre dinheiro. Os avaliadores fixaram um valor alto para a tela, a paróquia recusou pagar, houve nova avaliação e o pintor precisou litigar para receber.
O filho do lenço virou pintor e arquiteto. Jorge Manuel trabalhou na oficina do pai, assinou obras próprias e cuidou do que restou do ateliê depois de 1614, quando o pai deixou de trabalhar.
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Toledo inteira posou para ele, e por causa disso a cidade do século XVI continua de pé dentro de uma cena do século XIV.
Manuel Bartolomé Cossío, El Greco, 1908
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