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Um Bar no Folies-Bergère
Édouard Manet · 1882 · Óleo sobre tela
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O espelho que não devolve o que deveria
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Uma garrafa de vidro escuro, de uns vinte e cinco centímetros, com um triângulo vermelho colado no rótulo. É cerveja inglesa da Bass, cujo triângulo foi registrado como marca em 1876, e ela está de pé sobre um balcão de mármore, ao lado de champanhe gelando, de um vidro verde de licor de menta e de uma garrafa de rótulo rosado.
Nada nesse balcão é adereço de ateliê inventado para render bonito. É o estoque de um negócio que funcionava sete noites por semana em Paris: bebida cara à mão, duas laranjinhas num compoteiro de vidro, duas rosas brancas num copo com água.
O quadro tem noventa e seis centímetros de altura por cento e trinta de largura, e está hoje na Courtauld Gallery, em Londres. Quase toda a superfície é ocupada por um espelho: a sala inteira, com os lustres acesos, o balcão de cima lotado e a plateia de cartola e leque, chega ao olho do visitante como reflexo, nunca como cena direta.
No meio da tela, uma moça de vestido escuro e gola de renda encara quem observa. Atrás dela, o espelho devolve as costas da mesma moça. Só que essas costas aparecem deslocadas bem para a direita, longe da posição que a geometria da sala permitiria, e à frente delas surge um homem de cartola e bigode, conversando com ela a menos de um metro de distância.
Pela vista que a tela oferece, esse homem teria que estar exatamente onde está quem olha o quadro. Ele está no lugar do espectador, e mesmo assim aparece no vidro como figura inteira, a poucos passos.
Foi a última tela grande que o pintor apresentou ao público antes do fim da vida dele, e a crítica parisiense de 1882 tratou o desencaixe como erro de mão. Um século e meio depois, a discussão sobre o que aconteceu ali continua sem acordo.
Vale começar pelo que a tela mostra: o balcão, a moça, o vidro atrás e cada figura que o reflexo põe fora do lugar.
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I O Que Você Vê
O balcão de mármore e o que o vidro devolve
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Óleo sobre tela, noventa e seis por cento e trinta centímetros, formato horizontal, do tipo que se usa em cena de grupo. A composição é simétrica e frontal: a moça no eixo central, o mármore atravessando a largura inteira da tela, o espelho fechando o fundo como uma parede de imagens.
Ela está de pé, com as duas mãos apoiadas na borda do balcão, os braços afastados do corpo e os ombros retos. É uma pose de quem espera pedido, aguenta muitas horas em pé e não pretende sentar.
O vestido é escuro, justo no torso, com decote em V debruado de renda clara. No pescoço, uma fita preta com um pingente. Nos punhos, o mesmo debrum. Preso ao decote, um ramo de flores claras, do tipo que se comprava na porta da casa de espetáculo.
O rosto está de frente, com a franja loira sobre a testa e a pele pintada em tons claros, sem rubor de retrato de encomenda. Os olhos estão dirigidos para quem observa, mas não miram ninguém: a atenção parece ter escapado para um ponto além da sala.
O balcão é o inventário do comércio da casa. Duas garrafas com o triângulo vermelho da cervejaria inglesa à direita, champanhe à esquerda com a rolha lacrada em dourado, o vidro verde de licor, o compoteiro com as laranjinhas e o copo com duas rosas brancas.
O pintor assinou dentro do próprio cenário. O nome e o ano estão pintados no rótulo de uma das garrafas do canto esquerdo, na altura do mármore, e não na margem da tela.
O espelho ocupa o resto. Uma faixa de moldura escura corta a largura da tela na altura da cintura da moça, e acima dela a sala aparece invertida, com bolas de luz acesas em duas fileiras, colunas claras e a massa borrada do público na galeria superior.
No canto de cima à esquerda, duas botas verdes e um pedaço de perna pendem no ar. É o que sobrou do número de trapézio que acontecia sobre as cabeças enquanto a plateia bebia e conversava.
E o reflexo desobedece. As costas da moça surgem à direita, muito longe do ponto onde deveriam aparecer se o vidro fosse plano e paralelo ao balcão. O ombro dela no reflexo está inclinado para a frente, como quem se curva para ouvir.
O homem de cartola completa o desencaixe. Ele aparece no vidro em tamanho quase igual ao dela, com a bengala e o bigode visíveis, ocupando o canto direito da tela e olhando para o rosto que, do lado de cá, olha para o espectador.
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A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente.
Charles Baudelaire, O Pintor da Vida Moderna, 1863
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II A História Por Trás
Quatro meses de ateliê para uma noite de casa cheia
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O Folies-Bergère abriu em 1869, na rue Richer, e nos anos 1880 era uma das casas mais movimentadas de Paris. O programa misturava acrobacia, música, balé e números de circo, e a maior parte do público circulava pelo corredor lateral, bebendo e conversando, sem sentar para assistir.
Os bares ficavam nesse corredor. Atrás de cada balcão trabalhava uma moça contratada pela casa, que servia cerveja, champanhe e licor. A função incluía suportar a conversa dos clientes, e a fronteira entre vender bebida e vender companhia era assunto conhecido de todo frequentador.
O pintor tinha cinquenta anos quando começou a tela. Nascido em Paris em 1832, filho de um alto funcionário da magistratura, ele já tinha construído a carreira inteira em atrito com o Salão oficial e virado referência para a geração mais nova de pintores franceses.
A saúde já limitava o trabalho. Desde 1879 ele sofria de uma doença degenerativa que atacava as pernas, andava com dificuldade e pintava sentado, com sessões curtas e intervalos longos.
A cena não foi pintada no local. Ele montou o bar dentro do ateliê da rue d'Amsterdam: uma mesa fazendo as vezes de balcão, as garrafas reais compradas para a ocasião, as flores trocadas conforme murchavam.
A modelo era funcionária da casa. Chamava-se Suzon, trabalhava atrás de um dos balcões do Folies-Bergère e posou no ateliê durante os meses de trabalho. O homem de cartola foi posado por um conhecido do pintor, Gaston Latouche.
Existe um estudo a óleo anterior, hoje no Stedelijk Museum, em Amsterdã. Nele a moça aparece de corpo virado para a direita, o reflexo acompanha a torção e a cena tem um encaixe bem mais confortável entre figura e vidro.
Da versão de estudo para a tela final, o pintor endireitou o corpo dela de frente e manteve o reflexo torcido. A escolha foi feita com o desencaixe visível na frente dele, sobre o cavalete, durante meses.
A tela foi ao Salão de 1882, ao lado de um retrato de mulher em traje de primavera. A recepção dividiu: parte da crítica elogiou a matéria e a luz, e parte tratou o espelho como falha de desenho de um pintor doente e apressado. Foi a última tela de grande formato que ele mostrou ao público, e a vida dele terminou em abril de 1883, aos cinquenta e um anos.
O quadro circulou por coleções particulares até 1926, quando o industrial britânico Samuel Courtauld o comprou. A coleção dele virou a Courtauld Gallery, e a tela está exposta em Londres desde então.
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Vendedoras de bebidas e de amor.
Guy de Maupassant, Bel-Ami, 1885
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