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ED 167

Esta pauta venceu a urna de 25/09.

O último retrato fiel do dodô vivo

Ustad Mansur, corte mogol de Jahangir, cerca de 1625 · Guache sobre papel

Dodô de Ustad Mansur: ave parda de perfil, bico em gancho e pernas cinzentas

Dodô, Ustad Mansur, c. 1625

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Uma ave parda, gorda e sem pressa ocupa a folha. O bico é enorme, curvo na ponta, e as asas são tão curtas que parecem esquecidas no corpo. Quem pintou a figura tinha o animal diante dos olhos, e cada pena aparece desenhada com calma de cientista.

O autor é Ustad Mansur, pintor da corte do imperador mogol Jahangir, no norte da Índia. A folha é datada de cerca de 1625. A ave é um dodô, espécie que só existia numa ilha do oceano Índico, Maurício, a milhares de quilômetros da corte onde foi pintada.

Os navegadores holandeses chegaram a Maurício em 1598. O dodô não voava e não tinha medo de gente, e os marinheiros o levavam a bordo como provisão ou curiosidade. Porcos, ratos e macacos trazidos nos navios comiam os ovos postos no chão. O último avistamento aceito da ave viva foi registrado em 1662.

Quase tudo que a Europa desenhou do dodô naquele século saiu de relato de segunda mão ou de animal empalhado. Os artistas holandeses o faziam redondo como um barril, às vezes ridículo. Por muito tempo, essa imagem inchada virou a ideia popular da espécie. Até o nome ajudava: dodô vem provavelmente do holandês dodaars (algo como traseiro gordo), apelido dado pelos marinheiros.

A folha de Mansur ficou esquecida numa coleção russa por três séculos. Quando enfim chegou aos estudiosos, mostrou outra ave: mais esguia, de cor exata, com os pés e o bico medidos a olho por quem convivia com o bicho vivo no zoológico do imperador.

Três perguntas acompanham a pintura. O que exatamente o pintor pôs na folha, como uma ave de Maurício foi parar num jardim mogol e por que o retrato pesa tanto para a ciência. As respostas seguem na ordem, a começar pelas penas.

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I  O Que Você Vê

Pardo, cinza e um bico em gancho

O Dodô de Ustad Mansur ocupa o centro da folha, de perfil, em pé sobre as duas pernas. O corpo é arredondado e pardo, com penas miúdas pintadas uma a uma. Não há sombra projetada, mas a ave não está sozinha: divide o gramado verde, sob um céu claro, com um papagaio no poleiro, um faisão pintado, dois patos e duas gangas, entre tufos de flores.

A cabeça é o ponto mais forte. O bico é longo, grosso, e termina num gancho escuro, com a base mais clara. O olho é pequeno e redondo. Em volta dele, a pele da face aparece sem penas, lisa.

As pernas são cinzentas e robustas, com dedos compridos. Os pés pisam firme, com as garras à mostra. É um detalhe que sugere observação direta, pela segurança com que o pintor desenhou pernas e dedos.

A postura também chama atenção. A ave está em meio passo, com o corpo na horizontal, uma perna à frente da outra e a cabeça estendida para a esquerda. Nada nela sugere o animal tombado e pesadão das gravuras europeias; parece um bicho acostumado a andar.

As penas que Mansur contou

A asa é curta e fica colada ao flanco, sem força para erguer a ave. O pintor marcou as penas dela com traços finos, em tons um pouco mais escuros que o do peito.

Na traseira, o corpo termina liso e arredondado, sem o tufo de penas enroladas que aparece em quase todas as imagens antigas do dodô. Mansur pintou essa curva com a mesma paciência dada ao bico.

O pardo do corpo varia. O peito junto ao pescoço e o dorso são mais escuros, a barriga e a traseira mais claras, e o pintor usou essa diferença para dar volume, sem contorno pesado em volta da figura.

A mão de um naturalista

Mansur trabalhava com pincéis muito finos, alguns feitos de poucos pelos de filhote de esquilo, segundo a tradição das oficinas mogóis. A pintura é guache (tinta à base de água, opaca) sobre papel, técnica que permite traço preciso e cor sem brilho.

Por essa razão cada pena parece contada. O efeito lembra uma prancha de livro de zoologia, embora feita dois séculos antes da padronização desse tipo de ilustração pela ciência europeia.

Jahangir deu a Mansur o título de Nadir al-Asr (Maravilha da Época). O imperador mandava o pintor registrar aves, flores e animais raros que chegavam à corte, e o dodô entrou nessa série de retratos de natureza.

Na mesma série estão o peru trazido das Américas, a zebra enviada da Etiópia e o grou-siberiano, todos pintados por Mansur com o mesmo cuidado. O dodô era mais um item de uma coleção viva que o imperador queria ver registrada em papel.

 
 

II  A História Por Trás

De Maurício ao jardim do imperador

Nur-ud-din Muhammad Salim, que reinou como Jahangir de 1605 a 1627, era o quarto imperador da dinastia mogol, a casa muçulmana que governava boa parte do subcontinente indiano. Colecionava animais com o mesmo gosto com que colecionava pinturas.

O próprio imperador escreveu memórias, o Jahangirnama (Livro de Jahangir). Nelas ele anota pesos de animais, medidas de aves e comportamentos que observava pessoalmente. Era um olhar de naturalista, raro num governante daquele tempo.

Em 1612, segundo o Jahangirnama, o nobre Muqarrab Khan trouxe do porto de Goa, então colônia portuguesa, um lote de animais raros para o imperador. Goa recebia navios que cruzavam o oceano Índico, e aves exóticas eram mercadoria de presente entre cortes.

Goa ficava longe de Agra, a capital mogol. A viagem por terra levava semanas, e os animais seguiam em gaiolas e carroças, cuidados por tratadores. Chegar vivo já era uma pequena façanha.

A ave sem registro de chegada

O texto das memórias descreve uma das aves do lote de modo que muitos estudiosos reconhecem como o dodô. O nome da espécie, porém, não aparece: Jahangir descreve o bicho sem saber como chamá-lo.

Ninguém sabe ao certo qual navio levou o dodô de Maurício até Goa. Não sobrou manifesto de carga nem carta que registre a viagem. A hipótese mais aceita aponta navios holandeses ou portugueses que paravam na ilha para buscar água e comida.

Também falta documento sobre o destino dessa ave no zoológico mogol. Nenhum registro diz quanto tempo ela viveu na corte, e por essa falta a pintura de Mansur vale como o principal rastro de sua passagem pela Índia.

Três séculos numa gaveta russa

A folha saiu da Índia e acabou numa coleção de manuscritos orientais em São Petersburgo, hoje ligada à Academia Russa de Ciências. Durante três séculos ninguém a identificou como retrato do dodô.

Em 1958, o estudioso russo A. J. Iwanow publicou o primeiro estudo que apontava a ave na folha como um dodô. Depois da publicação, ornitólogos passaram a comparar o retrato com ossos e desenhos europeus.

A data exata da pintura continua discutida. A atribuição a Mansur e a faixa perto de 1625 vêm do estilo e da série de aves em que a folha se encaixa, já que a obra não traz assinatura legível nem data escrita.

 

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III  Por Que Importa

O retrato que corrigiu a ciência

O dodô sumiu de Maurício no século 17, e com ele sumiu a chance de observar o animal vivo. Os ossos achados depois na ilha contam o esqueleto; a cor, a pele e a postura dependiam de imagens feitas enquanto a ave existia.

As imagens europeias falhavam justamente nessas partes. Muitas foram feitas a partir de aves empalhadas, deformadas pelo enchimento, ou de animais engordados em cativeiro. O resultado espalhou a figura do dodô balofo, lenta e desajeitada.

O paleontólogo britânico Julian Hume, em estudo publicado na revista Historical Biology em 2006, reuniu as imagens antigas e apontou a de Mansur como uma das mais precisas feitas a partir de ave viva. A cor da plumagem e das pernas bate com os relatos escritos dos marinheiros.

Um corpo mais leve

Ossos de dodô estudados pelo zoólogo Andrew Kitchener, do Museu Nacional da Escócia, em trabalho de 1993, indicaram uma ave mais esbelta que a dos quadros holandeses. A figura de Mansur, sem barriga exagerada, conversa melhor com esse esqueleto.

O retrato ajudou a desmontar a caricatura. Livros e museus passaram a mostrar um dodô mais ágil, capaz de correr pela mata da ilha, bem diferente da bola de penas do imaginário popular.

A revisão tem limite. Uma única folha não prova o peso exato da ave, e Mansur pintou um indivíduo que talvez vivesse mal alimentado ou bem cevado no zoológico. O retrato vale como testemunho de cor e forma, e os ossos respondem pela massa.

O desaparecimento datado

A data do sumiço também foi revista. Os pesquisadores David Roberts e Andrew Solow, em artigo na revista Nature de 2003, calcularam por estatística que a espécie provavelmente desapareceu por volta de 1690, algumas décadas depois do último avistamento de 1662.

Contada assim, a folha de Mansur ganha peso. Ela foi pintada quando o dodô ainda corria por Maurício, décadas antes de o último ser visto, por um artista que não tinha razão para caricaturá-lo.

O dodô virou símbolo mundial de extinção causada por gente. A pintura de Mansur guarda o contrário do símbolo: uma ave inteira, observada com respeito, sem saber que em poucas gerações não haveria outra para comparar. Se você pudesse encomendar hoje o retrato de um único animal ameaçado, para durar quatro séculos, qual escolheria?

 
 
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Segundo o texto, em que ano o nobre Muqarrab Khan trouxe do porto de Goa o lote de animais raros que incluía provavelmente o dodô?

A1598
B1612
C1625
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