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O Dodô de Ustad Mansur ocupa o centro da folha, de perfil, em pé sobre as duas pernas. O corpo é arredondado e pardo, com penas miúdas pintadas uma a uma. Não há sombra projetada, mas a ave não está sozinha: divide o gramado verde, sob um céu claro, com um papagaio no poleiro, um faisão pintado, dois patos e duas gangas, entre tufos de flores.
A cabeça é o ponto mais forte. O bico é longo, grosso, e termina num gancho escuro, com a base mais clara. O olho é pequeno e redondo. Em volta dele, a pele da face aparece sem penas, lisa.
As pernas são cinzentas e robustas, com dedos compridos. Os pés pisam firme, com as garras à mostra. É um detalhe que sugere observação direta, pela segurança com que o pintor desenhou pernas e dedos.
A postura também chama atenção. A ave está em meio passo, com o corpo na horizontal, uma perna à frente da outra e a cabeça estendida para a esquerda. Nada nela sugere o animal tombado e pesadão das gravuras europeias; parece um bicho acostumado a andar.
As penas que Mansur contou
A asa é curta e fica colada ao flanco, sem força para erguer a ave. O pintor marcou as penas dela com traços finos, em tons um pouco mais escuros que o do peito.
Na traseira, o corpo termina liso e arredondado, sem o tufo de penas enroladas que aparece em quase todas as imagens antigas do dodô. Mansur pintou essa curva com a mesma paciência dada ao bico.
O pardo do corpo varia. O peito junto ao pescoço e o dorso são mais escuros, a barriga e a traseira mais claras, e o pintor usou essa diferença para dar volume, sem contorno pesado em volta da figura.
A mão de um naturalista
Mansur trabalhava com pincéis muito finos, alguns feitos de poucos pelos de filhote de esquilo, segundo a tradição das oficinas mogóis. A pintura é guache (tinta à base de água, opaca) sobre papel, técnica que permite traço preciso e cor sem brilho.
Por essa razão cada pena parece contada. O efeito lembra uma prancha de livro de zoologia, embora feita dois séculos antes da padronização desse tipo de ilustração pela ciência europeia.
Jahangir deu a Mansur o título de Nadir al-Asr (Maravilha da Época). O imperador mandava o pintor registrar aves, flores e animais raros que chegavam à corte, e o dodô entrou nessa série de retratos de natureza.
Na mesma série estão o peru trazido das Américas, a zebra enviada da Etiópia e o grou-siberiano, todos pintados por Mansur com o mesmo cuidado. O dodô era mais um item de uma coleção viva que o imperador queria ver registrada em papel.
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