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Boudry, principado de Neuchâtel, 24 de maio de 1743. O menino que nasce ali é filho de um sardo convertido ao calvinismo e sai cedo de casa para estudar medicina fora.
Ele clinica em Londres e em Newcastle por mais de dez anos, publica tratados sobre fogo, eletricidade e luz e tenta entrar na Academia das Ciências de Paris sem conseguir.
Em 1789 funda o jornal que logo se chama L'Ami du peuple. A fórmula é a denúncia com nome e sobrenome, e o tom rende mandados de prisão, um exílio curto em Londres e temporadas escondido em porões e nos esgotos da cidade.
Daquele período vem a doença. O corpo se cobre de lesões e de coceira permanente, e os diagnósticos propostos depois vão de sarna a dermatite herpetiforme, esta última num estudo de dermatologia de 1979.
Não havia tratamento. O alívio era passar horas na água morna com preparado medicinal e um pano embebido em vinagre na cabeça, e a banheira virou escritório.
Em setembro de 1792 ele é eleito deputado por Paris na Convenção. Em abril de 1793 os adversários o levam ao Tribunal Revolucionário, ele sai absolvido e volta carregado pela multidão até a sala de sessões.
Charlotte Corday tinha vinte e quatro anos, vinha de uma família nobre empobrecida da Normandia e descendia do dramaturgo Pierre Corneille. Em Caen, responsabilizava Marat pela derrubada dos girondinos na Convenção.
Ela chegou a Paris em 11 de julho. No dia 13 foi barrada na porta do apartamento pela manhã, voltou por volta das sete e meia da noite e entrou quando disse ter uma lista de girondinos refugiados na Normandia.
Marat anotou os nomes ditados e comentou que em poucos dias todos estariam na guilhotina. Foi a última frase da conversa.
Presa no local, ela foi julgada em 17 de julho e executada no mesmo dia, quatro dias depois do ataque.
David era deputado da Convenção, membro do Comitê de Segurança Geral e o encenador oficial das festas cívicas da República. Tinha visitado Marat no dia 12, véspera do ataque.
Antes do quadro veio o funeral, também dirigido por ele. O corpo foi exposto na igreja dos Cordeliers com o ferimento à mostra, e a banheira, o caixote e o tinteiro viraram relíquias diante do público.
O calor de julho estragou o embalsamamento e a exposição foi encurtada. O coração acabou guardado numa urna pendurada no teto do clube.
A pintura levou cerca de três meses. Em 14 de novembro de 1793 David entregou a tela à Convenção num discurso e a pendurou na sala das sessões, ao lado do retrato de Le Peletier de Saint-Fargeau.
Em julho de 1794 a queda de Robespierre virou o jogo. As imagens de Marat foram recolhidas, os restos dele saíram do Panteão em fevereiro de 1795 e a tela voltou enrolada para o pintor.
David partiu para o exílio em Bruxelas em 1816 levando o quadro junto. A obra ficou décadas dentro da família, reapareceu numa exposição em Paris em 1846 e entrou no acervo dos Museus Reais de Belas Artes da Bélgica em 1893.
A banheira seguiu caminho próprio. Vendida e revendida por herdeiros e colecionadores, foi comprada em 1885 pelo Museu Grévin, em Paris, por cinco mil francos.
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