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ED 119

A Banheira de Marat

Jacques-Louis David · 1793 · Óleo sobre tela

A Banheira de Marat

A carta de Corday ainda aberta na mão esquerda

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Na manhã de 13 de julho de 1793, uma moça de vinte e quatro anos parou numa cutelaria das galerias do Palais-Royal, em Paris, e comprou por quarenta sous uma faca de cozinha com cabo de ébano. Guardou a lâmina sob o lenço do corpete e saiu a pé pela cidade.

O endereço ficava no número 30 da rue des Cordeliers. Ela já tinha sido barrada na porta de manhã e voltou no fim da tarde com um bilhete que prometia nomes de girondinos escondidos em Caen.

O homem que ela procurava passava os dias dentro de uma banheira de cobre em forma de tamanco. Uma doença de pele que o cobria de feridas e coceira só afrouxava dentro da água morna, e ele resolveu o problema trabalhando de dentro do banho.

Uma tábua atravessada sobre a borda servia de mesa. Em cima dela, papel, tinteiro e pena. Ao lado, um caixote de madeira em pé fazia as vezes de escrivaninha. Jean-Paul Marat, deputado da Convenção e dono do jornal L'Ami du peuple, editava dali as próprias páginas.

A visita durou poucos minutos. Charlotte Corday desferiu um golpe único, de cima para baixo, logo abaixo da clavícula direita, e a lâmina atingiu pulmão e artéria. Marat chamou pela companheira e não teve tempo de mais nada.

Dois dias depois, a Convenção encarregou do quadro um deputado que era também o pintor mais poderoso da França. Jacques-Louis David tinha estado naquele quarto na véspera e usou a memória da visita como planta baixa.

O pedido veio da tribuna, em voz alta, e não era encomenda de retrato. A Convenção queria a cena na parede da própria sala de sessões.

O que ele montou no ateliê do Louvre não é o registro do cômodo. É uma cena remontada peça por peça, com objeto retirado, objeto acrescentado e uma superfície de pele inteiramente refeita.

A leitura começa pelo que está pintado: a carta ainda aberta na mão esquerda, o caixote com um nome entalhado na madeira e a metade de cima da tela sem nada dentro.

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I  O Que Você Vê

A carta na mão esquerda, a pena ainda na direita

Óleo sobre tela, cerca de um metro e sessenta e dois de altura por um metro e vinte e oito de largura, em formato vertical.

A cena mostra um corpo dentro da banheira, com o peito para fora da água. A cabeça tomba sobre o ombro direito, enrolada num pano branco amarrado como turbante.

Os olhos estão fechados e a boca fica entreaberta. O rosto não tem careta nem esforço, e a expressão é de sono.

O braço direito caiu para fora da borda. A mão pende até quase tocar o chão e continua segurando a pena de escrever.

A mão esquerda, apoiada acima da água, segura uma carta aberta. A letra foi pintada legível, com a data de 13 de julho de 1793 e o nome de Marie Anne Charlotte Corday no alto do papel.

A frase seguinte pode ser lida de perto: basta que eu seja bem infeliz para ter direito à sua benevolência.

O ferimento é um corte fino abaixo da clavícula direita, quase discreto. O sangue aparece no lençol branco que forra a banheira e escurece a água, sem escorrer pelo peito.

A faca está no chão, no canto de baixo à direita, com a lâmina virada para quem olha e o cabo escuro apoiado na madeira.

Um pano verde pesado cobre a banheira e cai pela borda. Do móvel só aparece a beirada de metal, e o resto some sob o tecido.

À direita, em pé, está o caixote de madeira. É pinho tosco, com o veio e os nós pintados um a um, e funciona ao mesmo tempo como mesa e como pedestal.

Sobre a tampa há um tinteiro, uma segunda pena, um papel dobrado e uma nota de dinheiro do período, o assignat.

Na face da frente do caixote aparecem duas linhas entalhadas na madeira: À MARAT, DAVID e, abaixo, L'AN DEUX, o ano dois do calendário da República.

A luz entra pela esquerda, de cima. Ela bate no ombro, no rosto e no lençol, e tudo que fica à direita do caixote afunda no escuro.

A pele está lisa. Não há mancha, casca nem vermelhidão em ponto nenhum do corpo, e o modelado do peito e do braço é de estátua antiga.

A metade de cima da tela não tem parede, janela, móvel nem mapa. É um campo pardo, pintado em pinceladas visíveis, mais claro logo acima da cabeça e mais fechado nas bordas.

A divisão é quase exata. Embaixo, corpo e objetos ocupam cada centímetro, e em cima a tela fica sem assunto, cortada ao meio pela borda da banheira.

Eu o vi numa atitude que me impressionou. Ao lado dele havia um cepo de madeira com tinta e papel, e a mão, para fora da banheira, escrevia os últimos pensamentos pela salvação do povo.

Jacques-Louis David, no discurso de entrega da tela à Convenção Nacional, 1793

 
 

II  A História Por Trás

Da banheira de cobre à tribuna da Convenção

Boudry, principado de Neuchâtel, 24 de maio de 1743. O menino que nasce ali é filho de um sardo convertido ao calvinismo e sai cedo de casa para estudar medicina fora.

Ele clinica em Londres e em Newcastle por mais de dez anos, publica tratados sobre fogo, eletricidade e luz e tenta entrar na Academia das Ciências de Paris sem conseguir.

Em 1789 funda o jornal que logo se chama L'Ami du peuple. A fórmula é a denúncia com nome e sobrenome, e o tom rende mandados de prisão, um exílio curto em Londres e temporadas escondido em porões e nos esgotos da cidade.

Daquele período vem a doença. O corpo se cobre de lesões e de coceira permanente, e os diagnósticos propostos depois vão de sarna a dermatite herpetiforme, esta última num estudo de dermatologia de 1979.

Não havia tratamento. O alívio era passar horas na água morna com preparado medicinal e um pano embebido em vinagre na cabeça, e a banheira virou escritório.

Em setembro de 1792 ele é eleito deputado por Paris na Convenção. Em abril de 1793 os adversários o levam ao Tribunal Revolucionário, ele sai absolvido e volta carregado pela multidão até a sala de sessões.

Charlotte Corday tinha vinte e quatro anos, vinha de uma família nobre empobrecida da Normandia e descendia do dramaturgo Pierre Corneille. Em Caen, responsabilizava Marat pela derrubada dos girondinos na Convenção.

Ela chegou a Paris em 11 de julho. No dia 13 foi barrada na porta do apartamento pela manhã, voltou por volta das sete e meia da noite e entrou quando disse ter uma lista de girondinos refugiados na Normandia.

Marat anotou os nomes ditados e comentou que em poucos dias todos estariam na guilhotina. Foi a última frase da conversa.

Presa no local, ela foi julgada em 17 de julho e executada no mesmo dia, quatro dias depois do ataque.

David era deputado da Convenção, membro do Comitê de Segurança Geral e o encenador oficial das festas cívicas da República. Tinha visitado Marat no dia 12, véspera do ataque.

Antes do quadro veio o funeral, também dirigido por ele. O corpo foi exposto na igreja dos Cordeliers com o ferimento à mostra, e a banheira, o caixote e o tinteiro viraram relíquias diante do público.

O calor de julho estragou o embalsamamento e a exposição foi encurtada. O coração acabou guardado numa urna pendurada no teto do clube.

A pintura levou cerca de três meses. Em 14 de novembro de 1793 David entregou a tela à Convenção num discurso e a pendurou na sala das sessões, ao lado do retrato de Le Peletier de Saint-Fargeau.

Em julho de 1794 a queda de Robespierre virou o jogo. As imagens de Marat foram recolhidas, os restos dele saíram do Panteão em fevereiro de 1795 e a tela voltou enrolada para o pintor.

David partiu para o exílio em Bruxelas em 1816 levando o quadro junto. A obra ficou décadas dentro da família, reapareceu numa exposição em Paris em 1846 e entrou no acervo dos Museus Reais de Belas Artes da Bélgica em 1893.

A banheira seguiu caminho próprio. Vendida e revendida por herdeiros e colecionadores, foi comprada em 1885 pelo Museu Grévin, em Paris, por cinco mil francos.

 
 

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III  Por Que Importa

Um quarto refeito para virar relíquia de Estado

Importa pelo que foi apagado. A doença que cobria o corpo de lesões não aparece em ponto nenhum da tela, e o pintor tinha visto o modelo vivo na véspera.

Importa pelo que ficou de fora. As descrições do cômodo falam em mapa da França na parede, armas à mão e papel espalhado por toda parte, e nenhum desses objetos entrou na composição.

Importa pelo que foi acrescentado. Sobre o caixote, um assignat acompanha um bilhete da mão de Marat mandando entregar o dinheiro a uma mãe de cinco filhos cujo marido tombou defendendo a pátria.

Importa porque o bilhete não existia. Historiadores tratam a nota como invenção do pintor, e ela transforma o último minuto de um homem atacado em ato de caridade.

Importa pela carta na outra mão. O papel que pedia piedade por escrito foi a chave que abriu a porta, e a tela mantém a frase legível para quem chega perto da moldura.

Importa pela pose emprestada. O braço caído fora da borda, a cabeça tombada e o pano branco vêm da pintura religiosa, das deposições e pietàs pintadas dois séculos antes.

Importa pela inscrição na madeira. À MARAT, DAVID está entalhado como epitáfio de estela funerária, e L'AN DEUX marca a data pelo calendário da República, não pelo cristão.

Importa pela metade de cima. Sem parede e sem janela, o quarto de Paris desaparece, e o ataque dentro de uma banheira passa a acontecer fora de qualquer endereço.

Importa pelo destino imediato. Pendurada na sala da Convenção e espalhada em gravura pelo país, a tela virou peça de governo antes de virar peça de museu.

Importa pelo prazo de validade do símbolo. Um ano depois de pronta, com a virada política de 1794, a mesma imagem que o Estado encomendou saiu de circulação.

Importa pelo que sobrou. O jornalista que escreveu quatro anos de páginas diárias é lembrado hoje pela cena montada em três meses de ateliê.

Importa porque a tela não mostra o ataque. Não há agressora, não há gesto e não há luta, só o depois, arrumado e limpo.

Diante da obra, comece pela carta na mão esquerda. Suba até o rosto tombado, desça pelo braço caído até a pena e a faca no chão e termine no nome entalhado na madeira do caixote.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, o que está entalhado na face da frente do caixote de madeira ao lado da banheira?

AA data de nascimento de Marat, 24 de maio de 1743
BAs palavras À MARAT, DAVID e, abaixo, L'AN DEUX, o ano dois do calendário republicano
CO nome completo de Charlotte Corday e a data do ataque
DUma citação do jornal L'Ami du Peuple

Resultado da última edição: 82% acertaram.

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