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Dama de Elche: o buraco de 18 cm nas costas

Oficina ibérica, Dama de Elche, c. século 4 a.C., Museu Arqueológico Nacional, Madri

Dama de Elche: busto ibérico de calcário com rodas ao lado do rosto

Dama de Elche, calcário ibérico

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Um busto de calcário claro, com 56 centímetros de altura e um buraco redondo cavado nas costas. O buraco prova que a peça não nasceu para enfeitar uma sala: ela foi feita para guardar as cinzas de alguém.

A escultura é a Dama de Elche, feita por um artista ibérico por volta do século 4 antes de Cristo. Os iberos eram os povos do leste e do sul da Península Ibérica antes da chegada dos romanos. Deixaram cidades muradas, moedas e uma escrita que hoje se sabe pronunciar, mas não traduzir.

Em 4 de agosto de 1897, num sítio chamado L'Alcúdia, nos arredores de Elche, no sudeste da Espanha, trabalhadores limpavam um terreno para plantar. Um deles, o rapaz Manuel Campello Esclapez, de 14 anos, bateu a enxada numa pedra lavrada.

Da terra saiu um rosto de mulher, com duas rodas de pedra presas ao lado das orelhas. Os moradores do lugar logo a chamaram de Reina Mora (rainha moura, apelido dado na região a toda figura antiga de origem desconhecida).

O dono do terreno, o médico Manuel Campello Antón, levou o busto para casa. Dias depois, o arqueólogo francês Pierre Paris, em Elche para assistir ao Misteri (drama religioso cantado na basílica da cidade todo mês de agosto), viu a peça e escreveu ao Museu do Louvre.

O Louvre pagou 4.000 francos. Antes de setembro acabar, o busto já viajava de trem para Paris, encaixotado, e Elche ficou sem a pedra achada no próprio chão.

O buraco nas costas foi notado logo, e ficou sem explicação firme por mais de setenta anos. Os primeiros estudiosos falaram em encaixe para pendurar a peça, em economia de pedra, em reforma tardia.

A resposta veio de outra mulher de pedra, enterrada a cerca de duzentos quilômetros dali. Antes dela, vale olhar a Dama de frente, joia por joia, como ela aparece na imagem desta edição.

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I  O Que Você Vê

Duas rodas ao lado do rosto

Na imagem, a Dama de Elche aparece de frente, do peito para cima, sobre fundo escuro. A pedra tem cor de areia clara, um bege puxado para o ocre, com sombras mais escuras nas dobras do manto e entre as joias.

O rosto é estreito e sereno. O nariz desce reto da testa, a boca é fechada e os lábios são finos. O olhar vai para a frente, um pouco abaixo da linha de quem a observa, sem sorriso e sem tristeza à vista.

As rodas e a tiara

O que primeiro chama a atenção são os dois discos grandes, um de cada lado do rosto, na altura das orelhas. Parecem rodas grossas, cada uma com um aro externo largo e um centro saliente.

Os arqueólogos chamam essas peças de rodetes (rodinhas, em espanhol). A leitura mais aceita diz que eram suportes de metal ou de couro presos ao cabelo, por onde a mulher enrolava as tranças.

Na testa, logo acima das sobrancelhas, corre uma faixa de contas pequenas, como uma tiara. Por cima dela, um tecido cobre a cabeça e desce atrás dos discos, emoldurando o rosto como um capuz.

Dos lados das rodas pendem fios de contas que descem até a altura do queixo, numa cascata curta. O escultor gravou cada conta separada, com o mesmo cuidado dado ao rosto.

Três colares no peito

Sobre o peito, a Dama usa três colares, um abaixo do outro. O mais alto é curto e justo. Os dois de baixo descem mais e carregam pingentes alongados, parecidos com pequenas ânforas (jarros de duas alças usados para vinho e azeite).

Por cima de tudo vem o manto. Ele cai dos ombros em dobras grossas, abertas no meio, e deixa os colares à mostra. Na imagem, as dobras do lado direito da peça ficam mais iluminadas que as do lado esquerdo.

O que a foto de frente esconde

O buraco das costas não aparece na imagem. A cavidade tem 18 centímetros de diâmetro e 16 de profundidade, segundo a ficha do Museu Arqueológico Nacional de Madri, onde a peça está exposta.

Também não aparece a pintura. A pedra hoje é quase toda bege, mas a mesma ficha registra restos de vermelho nos lábios e no manto. Na origem, a Dama era colorida, com joias, roupa e boca pintadas.

Os olhos têm as órbitas fundas, cavadas na pedra. Estudiosos supõem um enchimento de pasta ou de vidro colorido, perdido antes da descoberta. Nenhum resto desse material foi encontrado, e a hipótese segue sem prova.

 
 

II  A História Por Trás

De Elche ao Louvre e de volta

O Louvre expôs a Dama de Elche nas salas de antiguidades ainda em 1897. Pierre Paris publicou o achado no ano seguinte e a apresentou como prova de uma arte própria da Península Ibérica, diferente da grega e da romana.

Por quatro décadas, a peça ficou em Paris. Arqueólogos espanhóis viajavam ao Louvre para estudá-la, e a imprensa da Espanha tratava a venda como perda nacional.

A guerra e a troca

Em 1939, com a guerra na Europa, o Louvre esvaziou as salas e mandou as obras para depósitos no interior da França. A Dama foi guardada no sul do país, na cidade de Montauban, longe das bombas.

Em 1941, o governo francês de Vichy e o governo espanhol de Francisco Franco fecharam um acordo de troca de obras. A França devolveu a Dama, a Imaculada Conceição de Soult (quadro do pintor sevilhano Bartolomé Esteban Murillo) e outras peças ibéricas.

Em troca, a Espanha mandou à França obras dos acervos espanhóis, entre elas um retrato pintado por Velázquez e desenhos e tapeçarias. A negociação valeu como gesto político entre dois regimes alinhados naquela guerra.

Prado, Madri e uma visita

Na volta, a Dama foi para o Museu do Prado, em Madri, onde ficou exposta por três décadas. Em 1971, mudou-se para o Museu Arqueológico Nacional, também em Madri, ao lado do restante da coleção ibérica.

Elche nunca a recebeu de volta para ficar. Em 2006, a peça viajou à cidade para uma exposição temporária de seis meses, sob escolta e numa caixa climatizada. Depois, voltou a Madri.

A visita levou milhares de moradores às filas do museu de Elche e reacendeu na cidade o pedido de devolução, ainda sem resposta favorável do governo espanhol.

Uma acusação de fraude

Em 1995, o historiador da arte americano John F. Moffitt publicou o livro “Art Forgery: The Case of the Lady of Elche” (Falsificação de arte: o caso da Dama de Elche). Ele defendeu que o busto era obra moderna, feita pouco antes de 1897 para enganar compradores.

A acusação não convenceu os arqueólogos espanhóis. O achado teve testemunhas, saiu nos jornais da região naquele agosto e a pedra conserva restos de pigmento antigo. A cavidade das costas, com função funerária, tampouco faria sentido numa falsificação feita para vender.

O argumento mais forte, porém, só existia desde 1971, e não veio de Elche.

 

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III  Por Que Importa

As cinzas da Dama de Baza

No verão de 1971, o arqueólogo Francisco José Presedo Velo escavava uma necrópole (cemitério antigo) no Cerro del Santuario, perto de Baza, na província de Granada. Na tumba 155, achou uma mulher de pedra sentada num trono, com roupa e joias pintadas.

A escultura ficou conhecida como Dama de Baza. Num dos lados do trono havia uma cavidade, e dentro dela estavam ossos queimados, restos de uma cremação.

A pergunta respondida

Pela primeira vez, uma escultura ibérica de mulher aparecia no lugar onde tinha sido posta, dentro de uma tumba e com o morto ainda lá dentro. A função da cavidade deixou de ser hipótese.

A comparação mudou a leitura da Dama de Elche. O buraco das costas passou a ser lido como urna cinerária (recipiente para as cinzas do corpo cremado), tampado por uma pedra ou por madeira, hoje perdidas.

Em 2011, uma análise do CSIC achou partículas de cinza de osso humano presas no fundo da cavidade da Dama de Elche. A peça saiu da terra em 1897 sem registro do conteúdo da cavidade. A identidade de quem ali descansou também é desconhecida, e deve continuar assim.

Retrato ou deusa

A Dama de Baza também reabriu a discussão sobre quem a de Elche representa. Para alguns arqueólogos, as duas mostram uma deusa ligada à morte e à fertilidade. Para outros, mostram mulheres da elite ibérica, vestidas para o ritual de despedida.

As joias pesam nessa conta. Colares, tiara e rodetes iguais aos da Dama aparecem em outras esculturas ibéricas de mulheres comuns em oferenda, o que favorece a leitura de traje de cerimônia, e não de atributo divino.

O busto e a cidade

Elche guarda hoje uma réplica no sítio de L'Alcúdia e outra no museu da cidade. A cada aniversário do achado, políticos e associações locais pedem a volta definitiva do original.

O Ministério da Cultura da Espanha responde com o mesmo argumento técnico: a pedra é frágil, cada viagem expõe a peça a vibração e mudança de umidade, e o Museu Arqueológico Nacional tem as condições de conservação já testadas.

Diante da vitrine de Madri, a escolha fica com quem olha: manter a Dama no museu nacional, protegida e ao lado de outras peças ibéricas, ou devolvê-la a Elche, perto do terreno onde ela passou mais de dois mil anos enterrada. Os dois argumentos estão acima.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, o que a Espanha mandou à França no acordo de troca de 1941, junto com a Dama de Elche e a Imaculada Conceição de Soult indo para o lado espanhol?

A4.000 francos, o mesmo valor pago pelo Louvre em 1897
BMoedas ibéricas e cerâmica do sítio de L'Alcúdia
CUm retrato pintado por Velázquez, além de desenhos e tapeçarias
DO manuscrito original de Pierre Paris sobre o achado

Resultado da última edição: 90% acertaram.

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