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O deus da guerra que pisa no livro
Peter Paul Rubens, As Consequências da Guerra, c. 1637-1638, Palazzo Pitti, Florença
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As Consequências da Guerra, Rubens, c. 1638
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Uma tela de 2,06 metros de altura por 3,45 metros de largura saiu de Antuérpia rumo a Florença acompanhada de uma carta. Na carta, o pintor explica, figura por figura, o que pôs ali. Peter Paul Rubens escreveu a chave do próprio quadro porque o assunto não admitia leitura errada: a guerra.
A carta tem data, 12 de março de 1638, e destinatário, Justus Sustermans, pintor flamengo que trabalhava como retratista da corte dos Medici. Foi ele quem encomendou a tela ao amigo e conterrâneo. Rubens tinha 60 anos, o ateliê mais requisitado do norte da Europa e pouco tempo de sobra, e mesmo assim pintou para o amigo uma tela de mais de três metros de largura.
Naquele ano, a Europa somava vinte anos da Guerra dos Trinta Anos, o conflito que começou em 1618, misturou disputa religiosa com disputa de trono e passou por Espanha, França, Suécia, Dinamarca e pelos estados alemães. Cidades eram saqueadas, plantações queimadas, e a fome e a peste andavam atrás dos exércitos.
Esta edição nasceu de um pedido. Na votação de pauta de setembro, os leitores escolheram Guernica, de Picasso. A casa só publica obra em domínio público, e a tela de 1937 só entra nele no Brasil em 1º de janeiro de 2044, setenta anos depois do ano em que o pintor deixou de viver.
Então a casa foi buscar a tela que fez a mesma pergunta três séculos antes: o que a guerra destrói além dos corpos. Ela tem uma mãe com o filho nos braços e uma mulher que ergue os braços ao céu, duas figuras que quem conhece Guernica vai reconhecer.
São três perguntas: o que exatamente está pintado, por que um pintor que também era diplomata escreveu a bula da própria tela e o que ela responde a quem pediu Guernica.
A primeira resposta começa por um templo de porta aberta.
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I O Que Você Vê
Um templo de porta aberta
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No canto esquerdo da tela há um templo antigo com a porta escancarada. É o templo de Jano, o deus romano das passagens. Pelo costume de Roma, a porta ficava fechada em tempo de paz e aberta em tempo de guerra. Rubens começou a carta por ele.
Do templo sai Marte, o deus da guerra, de armadura, escudo no braço e espada suja de sangue. Ele avança para a direita, e o quadro inteiro vai junto, como uma multidão empurrada pela mesma corrente.
Quem puxa Marte pelo braço é Alecto, uma das Fúrias da mitologia, com uma tocha erguida. Perto dela aparecem dois monstros que a carta nomeia: a Peste e a Fome, as companheiras que todo exército da época trazia consigo.
A mulher que tenta segurar
Do outro lado, Vênus, a amante de Marte, agarra o braço dele e tenta prendê-lo, cercada de cupidos. Rubens pintou a deusa nua, com a pele clara e cheia que virou a assinatura dele. Na carta, escreve que Marte dá pouca atenção a ela.
A cena tem a forma de um cabo de guerra. O amor puxa para a esquerda, a fúria puxa para a direita, e a fúria está ganhando. O pé de Marte já está no passo seguinte.
As cores acompanham a disputa. O vermelho da capa de Marte corta o centro da tela, e o corpo claro de Vênus, colado nele, é a área mais iluminada do quadro.
O que fica no chão
Embaixo, Rubens pôs o que a guerra pisa. Uma mulher caída, de costas para quem olha, segura um alaúde quebrado. Na carta, ela é a Harmonia, que não combina com a discórdia da guerra.
Ao lado, uma mãe aperta o filho nos braços. Para Rubens, ela mostra que a fecundidade, a procriação e a caridade são contrariadas pela guerra. Um arquiteto caído ainda segura os instrumentos de medir: o que se constrói em anos cai em uma tarde.
Nenhuma dessas figuras luta. Ninguém no chão segura arma. Rubens escolheu mostrar quem a guerra atinge sem ter entrado nela: a música, a família, o ofício, o estudo.
Marte pisa num livro e numa folha de desenho, as letras e as artes. No chão também ficam um feixe de flechas com a fita desfeita, antigo símbolo da Concórdia, e o caduceu e o ramo de oliveira, os sinais da paz, jogados de lado.
À esquerda, perto do templo, uma mulher vestida de preto ergue os braços para o céu. É a figura que Rubens descreve com mais cuidado na carta, e a segunda parte começa por ela.
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II A História Por Trás
A carta de 12 de março de 1638
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Na carta, a mulher de luto, com o véu rasgado e despojada de todas as joias, é a infeliz Europa, que havia anos sofria saque, ultraje e miséria. Ao lado dela, um anjinho segura um globo com uma cruz no alto: o mundo cristão.
Rubens não detalha o sofrimento da Europa. Escreve que ele pesa tanto sobre todos que não precisa entrar em detalhes. Em 1638, quem abrisse a carta em Florença sabia do que se tratava.
O pintor que negociava paz
Quem escrevia era um pintor com currículo de diplomata. Entre 1629 e 1630, Rubens foi a Londres levando mensagens entre Filipe IV, da Espanha, e Carlos I, da Inglaterra, dois reinos em guerra. As conversas ajudaram a abrir caminho para o tratado de paz assinado entre eles em 1630, e Carlos I o fez cavaleiro.
Em Londres, Rubens deu ao rei uma tela sobre o mesmo tema, em tom de esperança: Minerva protege a Paz de Marte. Nela, a deusa da sabedoria empurra o deus da guerra para longe, e a Paz alimenta uma criança no centro. A tela está hoje na National Gallery, em Londres.
Oito anos depois, a guerra no continente seguia. Na tela de Florença, Marte passou por todo mundo, e Minerva nem aparece. O pintor que tinha negociado paz pintou o momento em que a negociação perde.
As duas telas formam um par. A de Londres mostra o que a sabedoria consegue quando os reis escutam. A de Florença mostra o que acontece quando ninguém escuta, e foi pintada pelo mesmo homem que tinha sentado à mesa com os dois lados.
Uma bula para o amigo
Sustermans nascera em Antuérpia, a cidade de Rubens, e vivia em Florença havia anos. A carta foi junto com a tela porque alegoria é linguagem que se perde com o tempo. Rubens queria que o amigo soubesse ler cada figura e pudesse explicá-la a quem perguntasse.
Por causa dessa carta, a tela é uma das alegorias barrocas que se leem com as palavras do próprio autor. Historiadores comparam cada figura pintada com cada frase escrita, e as duas batem.
Rubens não chegou a ver o fim da guerra. Ficou em Antuérpia até o fim da vida, em maio de 1640, oito anos antes dos tratados de Münster e Osnabrück, a Paz de Vestfália, que encerraram o conflito em 1648.
A tela ficou com Sustermans até o fim da vida dele, em 1681. Em 1691, foi vendida ao grão-príncipe Ferdinando de' Medici, e hoje está na Galeria Palatina do Palazzo Pitti, em Florença.
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